rio

Tinha um certo cuidado com os cabelos, um vestidinho separado para ir à cidade, mas nunca se maquiou. Talvez fosse uma mulher vaidosa, mas não havia como alimentar isso. Vaidade foi o que primeiro ela riscou de uma lista onde matar a fome dos filhos era prioridade. Naquela época, onde homem e mulher tinham papéis bem definidos, ela parecia ser o “homem da casa”. Estava sempre correndo para conseguir sustentar a família.

Foi a mulher mais forte que conheci. Ela não achava que era, mas era.

No povoado onde viveu e pariu suas onze crias, ela decidiu alfabetizar aquela comunidade que, talvez pela distância, não conseguia ir à escola. Foi assim que se tornou uma professora muito querida de todos e hoje, a única escola que tem lá leva o seu nome.
O detalhe é que essa mulher havia estudado pouco, nem mesmo chegou ao ginásio. Mas ainda assim resolveu compartilhar o pouco que sabia e ajudar aquelas pessoas a aprenderem a ler e escrever. A prefeitura da cidade a que pertencia esse povoado resolveu pagar um pequeno salário pra ela. Uma vez no mês ela andava uma boa distância para ir receber o “ordenado”, comprar comida e voltar com a sacola pesada com a farinha, o feijão e um pedaço de carne.
A sala de aula era uma construção velha esburacada, sem a menor estrutura, mas o importante ali era aprender e pelo menos havia um quadro negro.

Eu só a conheci muitos anos depois…
Tinha uma gargalhada alta, farta, que as vezes a deixava com falta de ar e olhos lacrimejando. Gostava de rir, embora a vida tenha feito com que ela tivesse muitos motivos para chorar.

Na minha adolescência essa mulher foi minha melhor amiga… era na casa dela que eu dormia todas as noites e me sentia protegida, era com ela que eu desabafava a forma incompreensiva da minha mãe me tratar. Ela gostava quando eu ia ver as novelas da noite ao seu lado e depois de cada parte contar o que aconteceu porque ela cochilava o capítulo inteiro.

Era ela que fazia o melhor café, o melhor ovinho frito e o melhor “malassado” (como ela chamava) que conheço. Não tinha dotes como outras para fazer bolos, doces e tal. Mas na mesa da cozinha não faltava bolachinha “poca zói” e requeijão.

Depois que saí do interior, lembro que todas as vezes que ia lá passar uns dias, na hora de me despedir pra voltar para Salvador, ela sempre chorava… sempre! Como chorava em todas as despedidas. Ela nunca soube lidar com despedidas. Herdei isso dela e também a mania de beber água antes de beber café. Na verdade eu herdei muita coisa dela.

Essa mulher era minha vó, mãe da minha mãe. Seu nome: Aurelina Baiano Passos… Dona Zinha, como sempre gostou de ser chamada. Vovó Zinha… Vóvi.
Só me contaram hoje cedo, mas ela partiu ontem, 17 de maio às 23h, para junto de Deus e Nossa Senhora (tenho certeza!). E como nós duas não gostávamos de despedidas, talvez o destino tenha evitado um último encontro nosso.

Vóvi, eu não sei se fui a neta que você queria, mas saiba que você foi a melhor vó que eu pude ter.
Eu vou te amar pra sempre e também sempre vou lembrar do seu andar, da sua maneira de falar, do casaco azul marinho que você encarnou e só usava ele durante anos, de você cantando aquele “larilará” na cozinha e eu na sala ouvindo sem entender que música era aquela, de você rezando na cama do meu lado antes da gente dormir, da sua vontade de viver, de você dizendo que queria arrumar um namorado bonito igual era o meu avô, de você dizendo que queria aprender a dirigir e ter um carro, de você me perguntando se eu queria uma farofinha, da farra de primos na sua casa, do seu quintal onde eu brincava por horas e horas e horas… de nós duas juntas.

Nossa história sempre foi marcada por sonhos e essa noite, sem saber que você já tinha partido, sonhei que eu atravessava um rio de água azul, raso e transparente… um rio que não me causava medo, como tenho de outros. Era calmo e lindo. Eu estava junto com a prima que sempre fui mais ligada e com meu afilhado, o filho dela… era uma tradução de como você adorava ver a gente: juntos e alegres. No sonho tinha uma freira, um padre e eu rezei um Pai Nosso.
Como não acreditar na nossa sintonia que agora passa a ser eterna?

Vai em paz, Zinha! Você cumpriu sua missão aqui, a gente é que precisa se acostumar com a saudade. Vai e descansa de tudo. Não deixa de olhar por nós. Vou te amar e lembrar pra sempre.

Bença, vovó.

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