Vou deixar na portaria

Vou deixar na portaria

Se você quiser pode ler o texto ouvindo Gavin James:

 

No fim de um relacionamento algumas frases doem muito ao ouvir, tipo: “você vai encontrar alguém que te faça feliz”, “o problema não é você sou eu” e dentre tantas outras que eu poderia citar aqui, concluo com uma que tem o mesmo poder de fazer a ferida sangrar: “vou deixar na portaria”.

Como machuca ouvir isso!

No meio da dor e de toda a pendência afetiva, dias depois do término sem ver ou ter notícia da pessoa, a mente é vasculhada tentando achar motivos para forçar algum contato ou encontro casual. Daí que você lembra que esqueceu algum objeto na casa da pessoa e liga ou manda uma mensagem cobrando como se aquilo fosse algo imprescindível para sua vida, quando na verdade nem se importa com a tal coisa, apenas com a remota possibilidade de uma reaproximação.

E é aí que você desce mais um pouquinho no fundo do poço ao ouvir do outro lado: “vou deixar na portaria”. Cortante e sem meias palavras.

Essa frase liquida qualquer esperança, aniquila as expectativas e causa aquele arrepio da morte que percorre a coluna. Quando alguém, que até dias atrás era íntimo, não quer mais te olhar nos olhos, significa que a partir daquele momento vocês não passam de meros conhecidos.

A resposta “vou deixar na portaria” não é só uma informação simples, significa não ter mais acesso ao território que um dia foi cenário do amor que existiu (e que no seu caso ainda existe), significa não saber mais sobre a vida daquela pessoa, não saber se os móveis vão continuar no mesmo lugar ou se a TV da sala foi trocada. Significa ruptura, quebra de vínculo, laço, proximidade. Significa distância.

Para quem fala é rápido, prático e sem dor. Para quem ouve é fim.

E só quando você chega na portaria do prédio que um dia foi tão lar quanto a sua casa, é que entende o quanto agora ela parece triste e desconhecida. Pega o que te pertence, oferece um sorriso amarelo ao porteiro que já viu os teus melhores sorrisos e vai embora. A cidade é grande e a tua felicidade deve estar em outro prédio, em outra varanda com vista pra lua, em outra cama, em outro coração… em outra portaria.

Esse caminho eu sei de cor

Esse caminho eu sei de cor

Se você quiser pode ler o texto ouvindo:

 

Mais uma vez tentei entender e resolver o dilema que está dentro de mim e não consegui. E então a mulher sempre segura do que quer, pareceu uma garota indecisa e nada assertiva. Claro que usei como desculpa o fato de você estar perto me tomando os sentidos, mas não sei se esse é o real motivo.

Acho mesmo que faltou foi coragem. O sentimento que tenho por você ainda pesa mais que todos os argumentos que tenho para te deixar.

Não sei ao certo o que me faz querer estar próxima de alguém que nem sempre demonstra o mesmo por mim. A verdade é que nunca gostei de situações indefinidas. Não, não consegui adotar a filosofia do deixa-ver-o-que-vai-acontecer. Não tenho mais paciência.

Me deixo levar pelos seus encantos e sempre perco a coragem de me afastar, mas não adianta perder tempo quando já sabemos o final da história. Não vai passar disso. Serão mais alguns dias de paixão enlouquecida, depois algumas lacunas enquanto voltamos às velhas crises de entendimento, depois a frieza da distância e por fim mais dias, semanas ou meses longe um do outro.

Como disse a filósofa: “todo esse caminho eu sei de cor”.

Racionalmente entendo tudo isso, mas cadê a coragem de falar e te mandar pra bem longe? Me sinto a mais fraca das pessoas por tremer só em ouvir tua voz. É como se você fosse uma Kryptonita que tirasse todas as minhas forças. De longe tudo é fácil, mas diante de você perco o meu pensamento crítico e sou levada a cometer sérios enganos.

Então vem aqui e me dá um último beijo… daqueles de tirar o fôlego. Daqueles que vou lembrar pra sempre todas as vezes que contar para alguém a nossa quase história de amor com um quase final feliz.

“Dedo Podre” tem cura!

“Dedo Podre” tem cura!

dedo-podre

Sempre ouvi dizer que existe uma categoria de pessoas cadastradas no grupo do “dedo podre”. Aqueles que de forma recorrente estão sempre engatando histórias com pessoas que não valem nem o pote de sorvete consumido no fim da relação.

Estes seres fadados a este infortúnio – e não me incluo totalmente fora do grupo – talvez não saibam que o motivo dessas escolhas insensatas nada mais é que a falta de ambição sentimental.

Carência, medo de ficar só e insegurança em relação a si mesmo, podem gerar uma sequência de relações instáveis com pessoas que não fariam parte da nossa vida em condições normais de consciência. A vontade de ter alguém acaba atropelando o bom senso e o entendimento do que merecemos.

Idealizamos, sonhamos e deixamos a fantasia amorosa ocupar o espaço da realidade. Quando nos tornarmos conscientes disso, ao invés de mandar a pessoa passear, nos agarramos no que projetamos e aí… dá merda.

Os problemas começam e como dependentes químicos não conseguimos nos livrar do “vício”. Nos abraçamos a ele e vamos afundando ali em mais uma relação que já começou dando errado e desta forma não chegará a lugar nenhum. Quando finalmente conseguimos nos livrar e maldizer o destino afirmando que só aparece gente complicada no nosso caminho… adivinha? Lá vem mais uma pessoa com as mesmas características, afinal o dedo podre continua fazendo o seu trabalho.

Mas será que a culpa é do dedo mesmo ou da incapacidade de nos valorizarmos? A notícia boa é que em algum momento vamos perceber que esse bando de problema não tem nada a ver com o destino, com a sorte ou com o dedo. Um momento de lucidez vai bafejar e atingir o departamento da vergonha na cara fazendo com que fique claro que todas essas relações foram escolhas exclusivamente nossas.

É lógico que há sinceridade no desejo de viver um grande amor, mas nem toda forma de desejar é legítima. É necessário aprender com os erros, crescer nas decepções e então ter a tranquilidade de dizer “não” para as pessoas tóxicas que aparecem a todo momento. Quando isso acontece, mesmo que chegue alguém com aquele papo fofo que outras vezes nos encantou, o coração sentirá que é mais uma cilada e resistirá. É neste momento que opera-se a cura do tão devastador “dedo podre”. Amém, irmãos?

O orgulho que você vai sentir de si mesmo ao se desvencilhar desses casos problemáticos fará com que não resvale para os mesmos erros outra vez. E fazendo o papel que lhe cabe, o universo vai filtrar as pessoas que vão cruzar o seu caminho.    

 

Foto: Thinkstock / UOL
Eu quero um amor brega

Eu quero um amor brega

flores

Se você quiser pode ler o texto ouvindo:

 

Que me desculpem os críticos de plantão, mas eu quero mesmo é um amor brega. Não me encanta essa forma desprendida das relações frívolas que os moderninhos definem como “livres”. Liberdade não tem nada a ver com descaso ou desrespeito. Alguém tá entendendo errado essa parada.

Esse texto de que “rótulos estragam a relação”, pra mim não passa de desculpa para continuar ciscando em qualquer terreiro ou medo de perguntar ao outro lado se é namoro ou amizade.

SIM, eu quero alguém pra chamar de namorado! SIM, eu quero ser chamada de namorada! Qual é o problema em desejar isso? Por que assusta tanto definir esse status? Por que o cara quer ir na sua casa toda semana, dormir, tomar café, ver filme no sábado à noite, trocar mensagens todos os dias e achar que não tem nenhum vínculo?

É estranho. Parece que tem gente que acha que o namoro perdeu o encanto.

Tudo bem que tem sido cada vez mais difícil encontrar um casal que desperte aquela invejinha de ter alguém, sabe? Ultimamente, o que mais temos visto são relações frias, estabelecidas em propósitos, interesses pessoais ou até mesmo para cumprir uma meta construída desde a infância: “estou-namorando-para-noivar-e-casar”.

Hoje é o dia dos namorados e não vejo mais as pessoas com aquele brilho no olhar preparando surpresas, ansiosas para chegar a noite e encontrar o seu amor. Entram nas lojas para comprar algo mais por obrigação do que por vontade. Que derrota!

É por isso que quero um amor brega! Alguém que ainda peça em namoro, que não tenha vergonha de esclarecer o que acontece na relação, que goste de dar flores, que escreva bilhetinhos de amor, que ache o dia dos namorados a data mais especial do ano, que conte os minutos para ficar juntinho nos finais de semana.

Que faça, demonstre e não apenas fale. Que tenha a atenção de responder as mensagens com prioridade e não quando “tiver um tempinho”. Eu quero um amor brega… daqueles que se emocione ao ouvir as letras de Bryan Adams, Céline Dion, Alejandro Sanz e até Roberto Carlos. Brega!

Eu quero um amor brega, mas não bobo! Não precisa ser piegas, meloso ou chato, mas que entenda que no fundo o amor é brega mesmo, que as cartas de amor são ridículas mesmo e que romantismo pode até ter caído de moda, mas… que se dane a moda.

Eu quero um amor brega!

Uma SaudadeZinha grande

Uma SaudadeZinha grande

rio

Tinha um certo cuidado com os cabelos, um vestidinho separado para ir à cidade, mas nunca se maquiou. Talvez fosse uma mulher vaidosa, mas não havia como alimentar isso. Vaidade foi o que primeiro ela riscou de uma lista onde matar a fome dos filhos era prioridade. Naquela época, onde homem e mulher tinham papéis bem definidos, ela parecia ser o “homem da casa”. Estava sempre correndo para conseguir sustentar a família.

Foi a mulher mais forte que conheci. Ela não achava que era, mas era.

No povoado onde viveu e pariu suas onze crias, ela decidiu alfabetizar aquela comunidade que, talvez pela distância, não conseguia ir à escola. Foi assim que se tornou uma professora muito querida de todos e hoje, a única escola que tem lá leva o seu nome.
O detalhe é que essa mulher havia estudado pouco, nem mesmo chegou ao ginásio. Mas ainda assim resolveu compartilhar o pouco que sabia e ajudar aquelas pessoas a aprenderem a ler e escrever. A prefeitura da cidade a que pertencia esse povoado resolveu pagar um pequeno salário pra ela. Uma vez no mês ela andava uma boa distância para ir receber o “ordenado”, comprar comida e voltar com a sacola pesada com a farinha, o feijão e um pedaço de carne.
A sala de aula era uma construção velha esburacada, sem a menor estrutura, mas o importante ali era aprender e pelo menos havia um quadro negro.

Eu só a conheci muitos anos depois…
Tinha uma gargalhada alta, farta, que as vezes a deixava com falta de ar e olhos lacrimejando. Gostava de rir, embora a vida tenha feito com que ela tivesse muitos motivos para chorar.

Na minha adolescência essa mulher foi minha melhor amiga… era na casa dela que eu dormia todas as noites e me sentia protegida, era com ela que eu desabafava a forma incompreensiva da minha mãe me tratar. Ela gostava quando eu ia ver as novelas da noite ao seu lado e depois de cada parte contar o que aconteceu porque ela cochilava o capítulo inteiro.

Era ela que fazia o melhor café, o melhor ovinho frito e o melhor “malassado” (como ela chamava) que conheço. Não tinha dotes como outras para fazer bolos, doces e tal. Mas na mesa da cozinha não faltava bolachinha “poca zói” e requeijão.

Depois que saí do interior, lembro que todas as vezes que ia lá passar uns dias, na hora de me despedir pra voltar para Salvador, ela sempre chorava… sempre! Como chorava em todas as despedidas. Ela nunca soube lidar com despedidas. Herdei isso dela e também a mania de beber água antes de beber café. Na verdade eu herdei muita coisa dela.

Essa mulher era minha vó, mãe da minha mãe. Seu nome: Aurelina Baiano Passos… Dona Zinha, como sempre gostou de ser chamada. Vovó Zinha… Vóvi.
Só me contaram hoje cedo, mas ela partiu ontem, 17 de maio às 23h, para junto de Deus e Nossa Senhora (tenho certeza!). E como nós duas não gostávamos de despedidas, talvez o destino tenha evitado um último encontro nosso.

Vóvi, eu não sei se fui a neta que você queria, mas saiba que você foi a melhor vó que eu pude ter.
Eu vou te amar pra sempre e também sempre vou lembrar do seu andar, da sua maneira de falar, do casaco azul marinho que você encarnou e só usava ele durante anos, de você cantando aquele “larilará” na cozinha e eu na sala ouvindo sem entender que música era aquela, de você rezando na cama do meu lado antes da gente dormir, da sua vontade de viver, de você dizendo que queria arrumar um namorado bonito igual era o meu avô, de você dizendo que queria aprender a dirigir e ter um carro, de você me perguntando se eu queria uma farofinha, da farra de primos na sua casa, do seu quintal onde eu brincava por horas e horas e horas… de nós duas juntas.

Nossa história sempre foi marcada por sonhos e essa noite, sem saber que você já tinha partido, sonhei que eu atravessava um rio de água azul, raso e transparente… um rio que não me causava medo, como tenho de outros. Era calmo e lindo. Eu estava junto com a prima que sempre fui mais ligada e com meu afilhado, o filho dela… era uma tradução de como você adorava ver a gente: juntos e alegres. No sonho tinha uma freira, um padre e eu rezei um Pai Nosso.
Como não acreditar na nossa sintonia que agora passa a ser eterna?

Vai em paz, Zinha! Você cumpriu sua missão aqui, a gente é que precisa se acostumar com a saudade. Vai e descansa de tudo. Não deixa de olhar por nós. Vou te amar e lembrar pra sempre.

Bença, vovó.

Você pode devolver o que levou?

Você pode devolver o que levou?

Se você quiser pode ler o texto ouvindo: Jesse & Joy – Echoes of love

devolva

Quando você me deixou e eu quis ir junto, disseram que eu devia cair na real, que aquela separação seria melhor pra mim e que era para eu tentar enxergar o lado bom. Lado bom? Isso depende dos olhos que a pimenta esteja. Nos meus a pimenta ardia. Muito!

Eu não via nada de bom naquele momento, só sentia uma dor imensa por todas as imposturas que você me disse e por todos os motivos sem sentido que alegou para se afastar de mim.

Eu sabia sobre a sua imaturidade, mas até você me passar aquele atestado lavrado em cartório de que era um bobão, achei que poderia haver um viés de sensatez nas suas atitudes. Ledo engano.

Você tentou voltar muitas vezes e eu te olhei sorrindo em todas elas. Cheguei até a acreditar que as coisas seriam diferentes, mas você continuou igual… e continua.

Mesmo a nossa história desenhada de forma torta e com tudo para dar errado, o fim não me parecia certo. Eu queria pra sempre, mesmo sabendo que não era.

Foi muito difícil. Mas agora foi… depois de muito tempo e incontáveis noites stalkeando você, tudo passou. Não tem mais raiva, mágoa, arrependimento ou saudade.

Você não me deixou nada. E não me refiro à coisas materiais. Mas levou muita coisa de mim e uma delas eu queria muito ter de volta: a inspiração.

Aquela inspiração que vinha através de qualquer coisa boba, que me fazia respirar de um jeito diferente e ver amor por todos os lados. Eu sinto falta de ver o mundo com os olhos que eu via quando você fazia morada em mim.

Dizem que cada amor é único e o que sentiremos pela próxima pessoa, mesmo que seja intenso, jamais será igual ao que nutríamos pela anterior. Então se isso for verdade volto atrás e me redimo.

Sim, você deixou algo em mim. Deixou a saudade que sempre vou sentir de quem eu era enquanto tinha você.

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