Sobre nós dois

Se quiser, você pode ler o texto ouvindo: Frejat

 

A gente vive desafiando a lei da atração.

Não combinamos no tamanho, nem na cor dos cabelos.

Não gostamos do mesmo tipo de bebida.

Eu curto Fernando Pessoa e você gosta de ler Veríssimo.

Jogo fora a tampinha do iogurte, enquanto você me dá “bom dia”, lambendo a sua.

Os meus pés ficam gelados e as suas mãos quentes.

Eu gosto de cochilar na rede e você prefere a almofada do tapete.

Planejo tudo o tempo todo, você resolve na hora.

Temos o mesmo gosto para a música, mas nem sempre queremos ouvir a mesma.

Você gosta de nadar e eu de correr.

Passa horas na seção de orgânicos do supermercado e eu me resolvo nos enlatados.

Me irrito no trânsito e você só se preocupa em dizer que passei a marcha errada.

Adoro o Natal e você prefere ir dormir.

Viro madrugadas, enquanto você se vira de um lado para outro da cama.

Nós somos diferentes…

E são tantas diferenças irrelevantes.

Elas parecem não ter a menor influência quando se trata de nós.

Sabemos que todas elas vão até onde começa o amor.

Você é meu, eu sou sua e a gente sabe que não existe mesmo razão, nas coisas feitas pelo coração.

Você poderia ter encontrado outra pessoa.

Eu poderia ter escolhido alguém igualzinho.

Mas a gente se quis, a gente se quer…

A gente sabe que nenhum caminho é fácil, mas a companhia pode tornar tudo muito melhor.

A gente se sabe, se ama e se der, a gente pensa nas outras coisas menos importantes.

 

Pra te lembrar como foi

Se você quiser, pode ler o texto ouvindo: U2 and Mary J. Blige

 

Eu havia terminado de fazer uma salada meio sem graça e me preparava para comer, quando o porteiro avisou que você estava subindo. Só deu tempo de soltar os cabelos, fechar o botão da camiseta e me posicionar para abrir a porta, antes de você usar a chave.

Abri e você apareceu com uma garrafa de vinho em uma mão e na outra um pacote da minha doceria preferida.

Entrou me beijando como se nada tivesse acontecido, como se não houvesse um hiato na nossa relação desde a última briga. Pegou as taças, serviu o vinho e foi falando coisas que me pareciam desconexas, enquanto colocava uma música do U2, que marcaria esse momento para o resto da minha vida.

Me puxou pelo braço enquanto dizia que eu estava linda e afundou o nariz no meu pescoço, elogiando o meu perfume. Ameaçou uns passos como se estivesse dançando e eu, quase me deixei levar, mais uma vez, pelos seus olhos famintos que me desviavam de qualquer caminho.

Chega. Ou foda-se tudo, se assim preferir!

Na rotina dos nossos desencontros, eu me acostumei a aceitar as suas chegadas repentinas, retomando a conversa de onde parou e indo direto para a gaveta do armário do quarto, procurar o pijama que estava sempre lá… lavado e guardado.

Me permita ser vil, pois cansei de ser indulgente por tanto tempo. Me dê o benefício da dignidade. Me deixe, no meio dessa tensão tênue entre me jogar nos seus braços e lhe mandar embora, tomar a minha decisão.

Foi tanta procrastinação e quando eu, finalmente decido, você quer me boicotar como faz todas as vezes que percebe que quero dar um basta.

Sempre que me recupero das suas idas, me deparo com as suas vindas, fazendo com que eu reconsidere. Há sempre uma porta entreaberta lhe esperando e junto a ela, a minha benevolência patológica de lhe deixar entrar novamente.

Sabe de uma coisa? Quem quer ficar, fica! Não inventa desculpas para ir embora dia sim, outro também.

O nosso velho e capenga amor, aqui jaz… descansa em paz.

Não se aproxime mais de mim. Não traga esperanças para onde não haverá recomeços, não traga fogo para onde há queimaduras.

Pode sair agora. Enquanto não choro compulsivamente. Se dizem que a medida de amar, é amar sem medida, eu posso atestar que te amei assim. Sem medidas.

Você quase me amou, mas quase não é muito, nem pouco… é nada! Não volte dizendo que sente a minha falta. Não confunda saudade com a sua fobia de rejeição. Pode levar as suas coisas e um pouco do meu orgulho espatifado que você pisou tantas vezes.

Quando sair, deixe a sua cópia da chave e o vinho. Eu ainda tenho uma salada para saborear, enquanto você volta para o silêncio barulhento que deixa em mim todas as vezes que vai.

Esqueça o mapa da minha rua. Esqueça tudo o que lembrar nós dois.

De você, quero apenas nada. Quero liberdade incondicional.

 

Cuidado ao entrar

Se você quiser, pode ler ouvindo: Coleção – Ivete Sangalo

 

Se você está querendo entrar na minha vida, eu deixo. Estou mesmo precisando me apaixonar, novamente.

Pode chegar! Estou pronta pra recomeçar. Mas antes de qualquer coisa, eu preciso te dizer algumas coisas.

Não são regras ou um código de conduta, apenas detalhes sobre mim.

Eu nunca fui do tipo que chora porque perdeu a prova, o prazo de entrega do projeto, o horário, a concorrência ou o melhor lugar. Então eu vou entender quando você quiser ir embora. Sem drama!

Eu nunca fui do tipo que junta frases e palavras copiadas por aí, para dizer o que é simples e está dentro de mim, como se isso me fizesse mais inteligente. Então serei sempre muito simples e clara com você.

Eu nunca fui do tipo que faz questão dos aplausos do mundo. Então, não vou viver para agradar a todos, mas vou adorar te fazer feliz.

Eu nunca fui do tipo que desiste dos sonhos, vontades e planos. Mas sei entender quando, por algum deles, não vale mais a pena insistir ou lutar. Então as suas ações vão me mostrar até onde posso ir.

Eu nunca fui do tipo que se importa pouco, cuida pouco ou ama pouco. Comigo tudo é muito e nessa mesma intensidade, esqueço o que deve ficar no passado. Então, aproveite o nosso presente.

Eu nunca fui do tipo indecisa. Sei, exatamente, onde moram os meus desejos e as minhas saudades. Então, sempre vou te dizer o que quero.

Eu nunca fui do tipo que manda recados ou indiretas. O que tenho que dizer, você vai saber que te pertence, ainda que seja pelo meu silêncio. Então, fique atento, me ouça e sinta.

Eu nunca fui do tipo que tem muita paciência. Canso, desanimo, as vezes perco a cabeça, erro, faço escolhas insensatas, confundo, mas não escondo nada disso. A ideia de perfeição me assusta. Então entenda que sou humana, assim como você.

Eu nunca fui do tipo que convive bem com mentiras. Então vamos construir a nossa verdade.

Eu nunca fui do tipo que vive o amor impondo limites, por isso te digo tudo isso agora e espero que você entenda e lembre, pois não vou passar os nossos dias repetindo ou cobrando nada do que estou pontuando.

Então é isso! Estou disposta a ser feliz e se você também quiser, pode vir… a porta está aberta.

 

 

Sobre a vontade

Ouça antes, durante ou depois de ler o texto: Mensagem de amor – Leo Jaime

 

Vontade também pode ser saudade

É sede, fome… necessidade

Aperta o peito, rouba o ar

Arde tanto que pode queimar.

 

Vontade consome

Fica presente o tempo inteiro

Parece que não some.

 

Vontade pra saciar não tem hora

Pode ser hoje, amanhã, dois dias depois

Mas de preferência que seja agora.

 

Vontade é o coração em estilhaço

Não termina só com abraço

Tem que ter beijo

E, principalmente, o cheiro.

 

Vontade imagina,

Sempre projeta

Quer encontrar em cada esquina

Mesmo quando a distância é concreta.

 

Vontade arrepia

Estremece

Mas quando não é alimentada

Adormece… desaparece.

 

Vontade que não se mata

Sai da alma e transpassa

Vai embora… cansa

Vem e passa.

 

 

Nosso encontro

Se preferir, leia o texto ouvindo: Ainda Bem

 

Eu olho pra você aqui do meu lado, sentado lendo um livro que, vez ou outra, te arranca um sorriso e me pergunto o que fiz de tão certo pra ter você em minha vida.

Enquanto faço uma massa rápida para o nosso almoço do domingo e você fica atrás de mim, me atrapalhando com abraços, passando as mãos nas minhas pernas e me fazendo errar a medida do sal, pergunto como um momento bobo pode ser tão feliz.

Nós ardemos de desejo quando nos beijamos e nos transformamos em um só, enquanto fazemos amor. Não é só química, sabemos a nossa geografia completa… tua boca me explora por inteiro e me faz sorrir de tanto prazer. Quando tudo acaba, me pergunto se é normal já nos olharmos cheios de tesão para começar tudo de novo.

As semanas, mesmo preenchidas com todas as atividades que gosto de fazer, tem um sentido maior porque na sexta vamos nos “reencontrar e continuar aquela conversa que não terminamos…”, porque vamos nos dar todos os abraços que ainda nos devemos, porque temos saudade que não termina e porque queremos um ao outro. Me pergunto como pode ser tão bom estar ao seu lado!

A gente brinca como criança e se entende como adulto. Somos cúmplices, parceiros, criticamos rindo as mancadas e defeitos do outro porque amamos também as nossas imperfeições.

Nos compreendemos apenas pelo olhar, compartilhamos as crises e alegrias, as madrugadas produtivas ou apenas de luxúria, o pote de sorvete preferido, disputamos o melhor lugar do sofá e depois decidimos ficar grudados para a competição empatar.  Mas mesmo estando juntos, não deixamos de ter os nossos espaços.

Somos assim. Você é assim…

Alguém que me faz perceber o mundo mais bonito, sem me privar dos sentidos. Alguém que respeita a minha liberdade da mesma forma que respeito a sua.

Alguém que em meio a tantas certezas, só me faz carregar a grande dúvida que é saber como era a vida antes de você.

Alguém que eu amo de uma tal forma, que jamais houve qualquer outro precedente.

 

“Entre tantas paixões, esse encontro… nós dois… esse amor” (Vanessa da Matta)

 

Silenciosamente

Você pode ler o texto com essa trilha: Certas coisas – Lulu Santos

No meu silêncio, guardo palavras que nunca disse.

No meu silêncio, existe barulho, inquietação, vida e uma infinidade de sons. Existem coisas que você jamais entenderia e outras tantas que te surpreenderiam.

No meu silêncio, penso, deduzo, concluo, teorizo. Acerto quase sempre e erro vez ou outra.

No meu silêncio, você não saberá se sinto saudade ou se já te esqueci. Faço dele poesia ou ironia, depende do dia.

No meu silêncio, faço planos, traço caminhos e me enredo em tramas. O tempo passa rápido lá fora e a passos lentos aqui dentro.

No meu silêncio, já te disse muita coisa. Me revelo mais que em muitas frases soltas. Me transformo, cotidianamente. As vezes forte, as vezes frágil.

No meu silêncio, você não pode perceber o que sinto ao ver tua boca. Se um surto de desejo ou se ela nada mais me diz.

No meu silêncio, vejo o quanto nos distanciamos e assim as imagens do teu rosto vão se apagando, os contornos se dissipando e a memória tentando a todo custo ainda guardar a visão do último sorriso.

No meu silêncio, sigo! Entendendo que muitas coisas precisam ser ditas e que o meu coração fala, mas é sábio o suficiente para se calar quando preciso.

 

 

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