“Você conhece os meus cadernos. Quando saio montado num cavalo, pela minha Minas Gerais, vou tomando nota de coisas. O caderno fica impregnado de sangue de boi, suor de cavalo, folha machucada. Cada pássaro que voa, cada espécie, tem um voo diferente. Quero descobrir o que caracteriza o voo de cada pássaro, a cada momento. Eu não escrevo difícil. EU SEI O NOME DAS COISAS.”

Guimarães Rosa em depoimento a Pedro Bloch.

A Boiada (pág. 191). Nova Fronteira – Rio de Janeiro 2011.

Iron 883 6500 km

viagem de moto harley-davidson iron 883 fernando munaretto

Em amarelo estão sinalizadas cidades e datas da saída, dos pernoites, e da chegada. Total de 6530km percorridos com uma H-D Iron 883 entre os dias 03 e 19 de janeiro. Google Earth. Blog O Guardador de Estrelas.

São Salvador, Bahia, Brasil. III. I. MMXVI. d. C.

As ruas vazias da cidade adormecida deixavam chegar o som das ondas do mar quebrando na praia, enquanto Vênus, em Escorpião, ganhava altura no oriente, seguida por Saturno, ambos próximos a Antares. A Lua estava alta no céu, em Virgem, formando um triângulo com Spica e Marte, quando surgiram os primeiros tons enrubescidos do crepúsculo matutino.

Enquanto esquentava água para o café, coloquei na vitrola um antigo disco de vinil da banda inglesa The Who. A música Baba O’Rilley seria o tema musical daquele dia. Nos divertimos bastante gravando vídeos de despedida, minha mulher e eu, enquanto Menina, uma Harley-Davidson Iron 883, me esperava ansiosa na garagem desde o dia anterior.

Entre Salvador e Feira de Santana tive uma mostra do intenso movimento que encontraria nas rodovias federais. Em Feira peguei a BR-116 e segui por ela até Divisa Alegre, entre Bahia e Minas Gerais, onde rumei sentido Montes Claros, indo dormir em Salinas, a 770km de Salvador.

No segundo dia, no nordeste de Minas, um trecho de asfalto ruim rendeu uma pequena avaria no sensor do cavalete lateral, causada por forte pancada. Teria que parar para fazer o reparo em Belo Horizonte. Mas, antes disso, desviei do caminho para conhecer Cordisburgo, cidade mineira onde nasceu João Guimarães Rosa, autor do livro “Grande Sertão: veredas”.

Cordisburgo – MG

Cordisburgo tem seus encantos, possui uma zona rural com matas repletas de passarinhos, vales, rios e a famosa Gruta de Maquiné. A estrada de ferro atravessa a parte mais antiga da cidade, e ainda é comum ver pessoas montadas a cavalo, ou andando de charrete. Para os que procuram, a lembrança de Guimarães Rosa pode ser percebida por toda parte.

Dona Conceição, proprietária da pousada em que me hospedei, atendendo a um pedido meu, leu em voz alta e comentou uma das cartas publicadas que Rosa escreveu ao pai. Conversamos bastante e aprendi coisas importantes sobre a história contemporânea de Cordisburgo. Em sua pousada, conheci um menino chamado Lyan, e sua mãe, Luciana. O menino pediu à mãe para me acompanharem até a loja de Seu Brazinha, que coleciona muitos objetos antigos e interessantes, e lá fomos nós pelas ruas da cidade, eu de moto e Lyan e sua mãe de bicicleta.

Brazinha nos acolheu calorosamente. Sua loja é um verdadeiro centro cultural roseano, onde, em meio a um sem fim de objetos antigos, o visitante encontra frases retiradas da obra de Guimarães Rosa e transcritas em espaços inusitados do ambiente, como por exemplo, no teto. Passamos mais de hora ali, conversando, e pedi a seu Brazinha que lesse um pouco de Guimarães Rosa pra gente. Então ele leu um trecho do Burrinho Pedrez, e depois comentou.

Foi muito legal.

Aproveitei o momento, que estava sendo bastante didático, e li o início de “Grande Sertão: veredas”, de duas formas: linearmente, como se lê um livro comum, e, depois, incorporando o personagem, como se estivesse falando, e não lendo. Lyan percebeu a diferença, e comentou com a espontaneidade própria de sua idade que, na primeira forma, ele não havia entendido nada, mas quando li incorporando o modo do personagem falar, ele entendeu tudo, e achou graça.

Um dia ele há de ler o livro, e se lembrará desta dica.

Catedral de Cordisburgo; Dona Conceição lendo Guimarães Rosa; Brazinha, Lyan e o Grande Sertão veredas ; Iron 883 na Estação Ferroviária de Cordisburgo.

Catedral de Cordisburgo; Dona Conceição lendo Guimarães Rosa; Brazinha, Lyan e o Grande Sertão veredas; Menina na Estação Ferroviária de Cordisburgo.

Seguimos para a antiga casa de Guimarães Rosa, bonita, bem conservada, que funciona como museu, onde uma jovem introduzida em literatura roseana, integrante do Grupo Miguilin, nos recebeu e nos guiou com delicadeza e graça. Na saída fomos entrevistados por uma simpática repórter da Rádio CBN, antes de seguirmos para a Capela de São José e a praça Grande Sertão.

Na praça Grande Sertão encontramos uma rosa dos ventos envolvendo um belíssimo conjunto de seis estátuas equestres, cada animal montado por um personagem roseano, todos alinhados sob um portal retangular, onde se lê em grandes letras cavadas: Portal Grande Sertão.

O portal está alinhado ao eixo leste-oeste. Ao lado do ponto cardeal sul, voltado para o ocidente, Guimarães Rosa está representado em pé, de terno e óculos, expressando um discreto sorriso, segurando sua famosa caderneta na mão esquerda, e uma caneta na mão direita. A ponta da caneta está polida, pelo toque dos visitantes. O alto de sua cabeça também está polido, de pousarem passarinhos, que dali voam para seus ninhos na cava das letras do portal.

A interação dos passarinhos, indo e vindo entre a cabeça de Guimarães Rosa e as letras onde fizeram seus ninhos, emprestava vida ao conjunto, e me pareceu carregada de simbolismo e de poesia. Permaneci ali por algum tempo, observando aquela cena, numa viagem onírica e ainda mais longínqua do que aquela que me trouxera a Cordisburgo.

O Sol descia do zênite quando parti.

Casa de Guimarães Rosa. Capela de São José. Praça Grande Sertão. Cordisburgo. Blog O Guardador de Estrelas.

Casa de Guimarães Rosa. Capela de São José. Praça Grande Sertão. Cordisburgo. 

Deixei Cordisburgo como quem deixa um lugar revisitado. Pouco depois, estava às portas de Belo Horizonte, e entrei pra reparar o sensor do cavalete lateral. O pessoal da BH Harley-Davidson conversou pouco, priorizou o atendimento para que eu continuasse viagem, e o reparo foi cortesia. Show de bola!

Assisti o pôr do sol na BR-050 e cheguei em Itaúna com a noite entrada. Queria rever um velho amigo, que é professor universitário na cidade, mas ficara tarde, e acabei dormindo após o banho.

* * *

Felizmente um céu fulgurante e amplo é o docel do meu leito rude de soldado – um selim, uma manta e um capote. 

Orion fulgura prodigiosamente belo à pequena altura do horizonte, e eu irei afugentar as saudades profundas evocando noções quase apagadas de astronomia, percorrendo numa romaria olímpica os céus – perdido entre as estrelas…

Queimadas BA, 04 de setembro de 1897.

Euclides da Cunha. “Canudos – Diário de Uma Expedição”. Martin Claret 2003.

São José do Rio Pardo – SP

Cabana de Zinco. São José do Rio Pardo SP. Início do séc. 20.No dia seguinte peguei a estrada cedo e pilotei até São José do Rio Pardo, onde cheguei na segunda metade da tarde. Entrei pela cidade lendo sua geografia. Desci o vale em direção ao rio, em busca da ponte erguida pelo engenheiro Euclides da Cunha, entre 1898 e 1901, época em que acabara de retornar do sertão da Bahia, onde cobriu a fase final da Guerra de Canudos como correspondente do jornal O Estado de São Paulo. Ao lado da ponte está a cabana de zinco, de onde Euclides acompanhava a obra, enquanto escrevia “Os Sertões”, um dos maiores clássicos da literatura brasileira.

A pequena cabana de zinco permanece lá, como no tempo de Euclides, mas desde 1928 está protegida por uma redoma que a envolve com paredes de vidro. Em 1937 a cabana de zinco se tornou patrimônio nacional, e próximo a ela foi construído um mausoléu, simples e bonito, que em 1982 recebeu os restos mortais de Euclides da Cunha.

Indiferente ao movimento sobre a ponte, a margem sombreada onde está a cabana de zinco é muito sossegada e aprazível.

Voltei à noite para ver a ponte iluminada, e na manhã seguinte subi a copa de uma frondosa mangueira, e fiquei ali a apreciar o rio e a ponte, a casinha de zinco e o final do século dezenove. Ao redor, a cidade seguia seu ritmo moderno.

Foi uma bela viagem no tempo, até que chegou a hora de voltar à estrada.

Mausoléu de Euclides da Cunha. São José do Rio Pardo. Blog O Guardador de Estrelas.

Ladeado pelo rio, pela ponte, pela cabana de zinco e pelas árvores, o mausoléu de Euclides da Cunha tem o céu por cobertura. São José do Rio Pardo – SP. 

Ponte Euclides da Cunha e Casa de Zinco São José do Rio Pardo SP

Ponte Euclides da Cunha e a cabana de zinco onde o engenheiro e escritor escreveu Os Sertões, enquanto acompanhava os trabalhos de construção da ponte. São José do Rio Pardo – SP. 

Um crepúsculo inesquecível

A rodovia em boas condições e o excelente desempenho da Menina fizeram a viagem parecer um sonho. Os mais exigentes dizem que a Iron 883 é desconfortável para longas distâncias, mas, pessoalmente, me sentia como se estivesse a bordo do antigo Galáxie 500 do meu pai.

A travessia de São Paulo para Paraná se deu em um longo e inesquecível crepúsculo. O tom das cores, as luzes fulgurantes, as nuvens incandescentes suspensas no ar tornavam tudo muito bonito. Dentro de mim tocava a Ave Maria, e me sentia indo pro céu. Minha hora predileta do dia.

Cheguei a Castro, no Paraná, por volta de 22 horas, quando começava a cair uma deliciosa garoa fina.

Um crepúsculo inesquecível. Blog O Guardador de Estrelas.

Sexto dia de viagem

Acordei pouco antes do alvorecer, com o barulho da chuva sobre o telhado. Me sentia disposto, sabia que aquele seria um dia muito especial e estava entusiasmado pra chegar a Francisco Beltrão, cidade onde nasci. Mas, antes, pretendia fazer um último desvio do caminho. Queria revisitar o lugar de onde trago minhas lembranças mais antigas.

A chuva diminuía quando peguei a estrada, atravessando os campos do segundo e do terceiro planalto paranaense, rumo sudoeste.

Salto Santiago, Saudade do Iguaçu – PR

Vila de Salto Santiago 1978. Blog O Guardador de Estrelas.

Em 1979, a vila de Salto Santiago tinha 16 mil habitantes, um centro comercial com quarenta e quatro lojas, uma escola com vinte e oito salas de aula atendendo mil e oitocentos alunos, setenta e sete professores, um hospital com noventa e sete leitos e uma equipe de quinze médicos, além de um cinema, um clube, um hotel e uma igreja. Fonte: Eletrosul 40 anos.

Na segunda metade da década de 1970, meus pais participaram da equipe de profissionais de saúde que atendiam aos funcionários da Eletrosul e suas famílias, durante a construção da Usina Hidrelétrica de Salto Santiago, entre os atuais municípios de Rio Bonito do Iguaçu e Saudade do Iguaçu, no sudoeste do Paraná.

A vila residencial dos funcionários foi construída em uma área alta, próxima de onde seria o canteiro de obras da usina. Era uma região de mata nativa, que se alongava na forma de um espigão, precipitando-se sobre o vale do rio Iguaçu, onde hoje está o lago da represa. A urbanização da vila ficou pronta em 1976, época em que nos mudamos para lá. As casas eram padronizadas, de madeira, pintadas de branco, variando de uma pra outra apenas na cor das janelas e portas. A estrutura dos ambientes em comum, como clube, escola e centro comercial, eram de metal, com a cumeeira arqueada. Todas as crianças e jovens de Salto Santiago frequentavam a mesma escola, o mesmo clube, e o mesmo sistema de saúde atendia a todas as famílias. A vila era simples e bonita, possuía uma atmosfera feliz e harmoniosa, onde havia um contato muito próximo com a natureza.

Quando as obras de construção acabaram, a vila de Salto Santiago foi desativada, e do mesmo modo como surgiu e floresceu, em pouco tempo se desfez e deixou de existir.

Vila velha de Salto Santiago

Represa da Usina Hidrelétrica de Salto Santiago. Em amarelo, o local onde vivi com meus pais e irmãos até dezembro de 1979, e o local onde consegui chegar de moto em janeiro de 2016. No datalhe é possível perceber o traçado do asfalto da parte mais oriental da antiga vila de funcionários da Eletrosul. Imagens de satélite de 2014 Google Earth. Blog O Guardador de Estrelas.

Represa da Usina Hidrelétrica de Salto Santiago. No detalhe é possível perceber o traçado do asfalto na parte mais oriental da antiga vila de Salto Santiago. Em amarelo estão sinalizados o local onde morei com meus pais e irmãos entre 1976 e 1979, e o ponto mais próximo dali, onde consegui chegar de moto, em janeiro de 2016. Imagens de satélite (2014) Google Earth. Blog O Guardador de Estrelas.

Sabia que estava próximo, prestava atenção a tudo, podia reconhecer o cheiro do lugar e, às vezes, ao deitar o olhar ali e acolá, surgiam lembranças de passagens longínquas da minha infância. Descia pela BR-158, rumo ao leito do rio Iguaçu, quando passei por uma  entrada à margem esquerda da rodovia. O lugar me pareceu familiar, era uma estrada em desuso, o asfalto rachado e parcialmente coberto de ervas denunciava sua idade. Segui por ali, e fui dar em uma tarde chuvosa de 1978, quando estive naquele lugar em companhia de minha mãe… Havíamos ido até lá em seu Fiat 147, escutando “Volver a los diecisiete”, de Violeta Parra, na interpretação de Mercedez Sosa e Milton Nascimento.

Estava no aeroporto abandonado de Salto Santiago.

Aquela lembrança me pareceu tão vívida, que era como se eu escutasse a voz de minha mãe se misturando à melodia da música, e me lembrei da cor do céu chuvoso como estava naquela tarde, tão bonito, e da imagem das gotas d’água no vidro da janela do carro.

Salto Santiago. Saudade do Iguaçu PR.Me recordei também da biruta do aeroporto, e de minha mãe me explicando como ela funcionava. Lá estavam o mastro e o aro da antiga biruta, exatamente como os havia deixado. Até o ângulo de visada que eu tinha agora era semelhante ao de minha lembrança. O pano da biruta, outrora altivo e vistoso, restava em andrajos, que mal balouçavam no ar quente daquele início de tarde.

Dei alguns passos em direção à torre de controle, em ruínas, e busquei entre o capim crescido o marco de alvenaria cuja lembrança me viera à mente. Lá estava ele, escondido no jardim inculto.

Foi emocionante estar ali novamente, passadas tantas translações.

Salto Santiago: aeroporto abandonado. Blog O Guardador de Estrelas.

Volver a los diecisiete después de vivir un siglo, es como  descifrar signos sin ser sabio competente

Volver a ser de repente tan frágil como un segundo, volver a sentir profundo, como un niño frente a Dios

Eso és lo que siento yo en este instante fecundo

(Violeta Parra)

* * *

Tinha os sentidos ainda mais aguçados quando deixei o aeroporto e voltei à rodovia. Adiante passei por outra entrada à margem esquerda e a reconheci. Tive certeza de que era a antiga entrada da vila de Salto Santiago, embora uma placa anunciasse uma escola agrícola do MST.

Resumida a alguns degraus de uma escada rota levando a lugar algum, estava a ruína da antiga cancela da vila. Tinha nítida a lembrança da última vez que passara por ali. Mais à frente, pouco antes de onde ficava o antigo centro comercial, encontrei um portão de ferro, cadeado. Buzinei, mas não apareceu ninguém. Pulei o portão e segui andando até ver que havia dois pares de casas habitadas. Alguém lia um livro e tomava chimarrão à sombra de uma árvore. Era um jovem, politizado, integrante do MST. Conversamos sobre algumas leituras em comum, sobre história e geografia. Falei sobre minha intenção em tentar chegar no lugar onde morei quando criança, e ele me deixou à vontade para tentar.

Me acompanhou de volta até o portão, abrindo-o. Antes de nos separarmos, o jovem, que se referia ao local como “vila velha”, disse que o lugar lhe parecia mal assombrado, “como costumam ser os lugares abandonados”. Uma vez caminhara por ali, e se perdera. Desde então, evitava aquelas ruas.

Quando nos despedimos, ele não apontou o caminho, mas, entre as possibilidades, segui sem titubear no rumo de onde morei quando criança. Era o caminho mais fechado e em desuso, e mesmo passados trinta e seis anos desde que estivera ali, eu ainda o reconhecia. Levava à parte mais oriental da antiga vila de Salto Santiago.

Lá fomos nós, Menina e eu, rodando devagarinho pela floresta. Entre a mata nativa, podia identificar as plantas ornamentais que restaram d’outrora, rustificadas, florescendo no ambiente selvagem. Logo adiante, o mato havia coberto toda a rua, e o asfalto sumiu completamente sob o pneu traseiro, que deslizou livremente na folhagem úmida e Menina e eu “deitamos suavemente na relva fresca”. Naquele momento eu pilotava com uma mão e filmava com a outra, mas estava devagarinho e não houve nada. Foi até divertida aquela queda. E didática.

A propósito, a tampa do tanque de gasolina, tão leve e demasiadamente simples, que sequer tem chave, não deixou vazar uma única gota de combustível. Essa eficiência em cada detalhe é uma característica da Harley-Davidson, e com todas as suas idiossincrasias, a Iron 883 é uma máquina fantástica.

Em pé novamente, bastou dar a partida e ela acendeu imediatamente.

O calor era intenso, mas, não só era inviável tirar a jaqueta de couro, como adiante tive que colocar as luvas e abrir caminho por entre cipós e unhas-de-gato. Mais à frente encontrei uma atual moradora da vila velha, uma grande caninana (spilatus pullatus), que ia atravessando a rua numa área ensolarada. Desviei para não passar por cima e parei a moto para tentar fotografá-la, mas quando fui atrás do bichinho, ela subiu pro alto de uma goiabeira que havia por ali, e deixei-a em paz.

Salto Santiago: a vila que no final da década de setenta teve 16 mil habitantes, hoje está retomada pela floresta. Blog O Guardador de Estrelas.

Salto Santiago revisitada. Blog O Guardador de Estrelas.

Adiante, a estrada se fechava de tal forma, que não era possível seguir. Aquele era o local mais próximo de minha antiga casa, que eu conseguiria chegar de moto. Alcançar o lugar exato, exigiria uma nova expedição. Por ora, estava contente com a aventura, e rodei por todas as ruas que pude, navegando entre a floresta e as lembranças, enquanto a Terra singrava o mar do espaço-tempo como em qualquer dia comum.

Antes de ir embora tomei umas cuias de chimarrão com o jovem do MST. Ao sair, ele me pediu que fechasse o portão e batesse o cadeado. Assim eu fiz.

Fechei o portão da vila velha de Salto Santiago e parti.

Francisco Beltrão – PR

Entre Salto Santiago e Francisco Beltrão, parei em uma típica venda colonial, que funcionava em uma antiga casa de madeira, em uma curva arborizada à beira da estrada. Queria escutar a gente comum do lugar.

Entrei pelas ruas de Beltrão no final da tarde, minha prima estava na porta de casa quando me viu chegando. Dez minutos depois chegavam de Curitiba meus pais e minha mulher. Foi bom demais rever a todos, irmãos, primos, tia, sobrinhos, participar da cerimônia de batizado de meu sobrinho Leonardo, e curtir cada momento em família.

A estada em Beltrão foi breve, assim como em Curitiba, mas valorosa. Em companhia de minha mulher, pude aproveitar mais alguns dias ao lado de meus pais e familiares, e ainda tive a oportunidade de me reunir com alguns velhos amigos, que há anos não via.

A vontade foi de ficar mais tempo, mas tinha um compromisso importante em Salvador, e precisava começar a viagem de volta.

No dia 16, após um delicioso almoço em família, e de uma despedida calorosa, parti em retorno à Bahia.

O retorno

Além, nas bordas da taça sempre cheia, as cálidas ondas enrubescem como vinho. A fronte de ouro pende no limite do azul. O sol mergulhador – a saltar vagarosamente, de cabeça pra baixo, desde o meio-dia – afunda-se; minha alma sobe! E cansa-se em sua montanha interminável.

Moby Dick – Herman Melville

Lá íamos nós, Menina e eu, rodando pela BR-116, de volta pra casa. À margem da rodovia parecia tudo mudado desde os tempos em que eu frequentava as montanhas da serra do mar, cujos cumes mais altos podia ver da estrada. Aos poucos as araucárias foram rareando, e deixei o Paraná.

Passada a Serra do Cafezal, conheci um paulista chamado Ricardo Monier, que voltava de uma viagem ao Chile em sua H-D Fat Boy 1600. Paramos pra conversar e tomamos um café.

No final da tarde, assisti a um lindo pôr do Sol, refletido nos prédios da cidade de São Paulo, e segui pilotando noite adentro.

Passava de meia noite quando comecei a sentir o cheiro de uma enorme massa d’água se aproximando, enquanto subia as serras de Minas Gerais. Ainda rodei quase uma hora antes de parar. Estava em Carmo da Cachoeira, a 260 km de BH.

Os dias seguintes foram de muita chuva, tráfego pesado, lama no asfalto e buracos enormes na BR-381, entre BH e Governador Valadares. O Rio Doce parecia um mar vermelho, se batendo revolto entre as montanhas. Muita chuva, mesmo. Sensacional. Para quem tem prazer em pilotar na chuva, como eu tenho, foi uma aventura deliciosa, que implicou em ainda mais cuidado e atenção na pilotagem. A chuva só se tornou intermitente no último dia, na bela região de Milagres, Bahia, quando raios de sol vazaram de lado entre as nuvens, para dar as boas vindas. Ainda assim, peguei bastante chuva até Salvador, onde cheguei na noite de 19 de janeiro.

Do momento em que Menina e eu deixamos a garagem, na manhã do dia 03, até o momento em que retornamos para a mesma garagem, na noite de 19, havíamos rodado exatos 6531km. Durante toda a viagem, principalmente em situações de risco, a Iron 883 se mostrou uma moto confiável, segura, econômica e confortável, que me proporcionou um prazer enorme em pilotar.

Do ponto de vista pessoal, cada etapa da viagem representou uma experiência muito rica, que ainda levarei algum tempo para absorver. O roteiro e a forma como as coisas aconteceram foram muito harmoniosos, e os três dias de chuva e temporais que peguei no retorno, representaram uma boa dose de aventura.

Cheguei em segurança e a tempo de, no dia 21, proferir palestra sobre a História da Exploração Espacial, para um público atento e introduzido no tema. A palestra aconteceu no auditório Glauber Rocha, da Universidade Federal da Bahia, como parte da programação do Curso de Extensão em Astronomia, da UFBA.

A oportunidade de falar para tantos interessados no assunto e estudiosos da astronomia, e ao final ser prestigiado com as generosas palavras dos professores Alberto Brum e José Vieira, organizadores do Curso, representou um momento pessoal muito gratificante, que coroou a sequência de acontecimentos dos dias anteriores.

Na sola das botas e na moto, que me esperava do lado de fora do auditório, ainda havia um pouco de terra de diferentes regiões do país.

Olhei ao redor… Me sentia feliz.

O Universo parecia muito maior do que quando parti.

 

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