Vigésima primeira parte de O Guardador de Rebanhos

Cidade de Salvador. X.V.MMXIX. Blog O Guardador de Estrelas.

XXI.

Se eu pudesse trincar a terra toda

E sentir-lhe um paladar,

Seria mais feliz um momento…

Mas eu nem sempre quero ser feliz.

É preciso ser de vez quando infeliz

Para se poder ser natural…

 

Nem tudo é dias de sol,

E a chuva, quando falta muito, pede-se.

Por isso tomo a infelicidade com a felicidade

Naturalmente, como quem não estranha

Que haja montanhas e planícies

E que haja rochedos e erva…

 

O que é preciso é ser-se natural e calmo

Na felicidade ou na infelicidade,

Sentir como quem olha,

pensar como quem anda,

E quando se vai morrer, lembrar-se de que o dia morre,

E que o poente é belo e é bela a noite que fica…

Assim é e assim seja…

 

Vigésima primeira parte de “O Guardador de Rebanhos”. Poema de Fernando Pessoa. “O eu profundo e os outros eus”. Editora Nova Fronteira – Rio de janeiro 2001.

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