Cena literária de Salvador?

Foto: Amana Dultra / LabFoto

O jornal Cândido, da Biblioteca Pública do Paraná, está publicando uma série de reportagens sobre a cena literária em algumas cidades brasileiras. Em outubro, o jornal mapeou a cena de Porto Alegre, Belém, Londrina, Recife e Fortaleza. Em novembro, a edição, que deve sair já na primeira semana do mês, trará Salvador como uma das pautas, em texto escrito por mim, Davi Boaventura, tendo como entrevistados James Martins, Kátia Borges, Márcio Matos, Alex Simões e Lívia Natália.

E vai dar polêmica.

Bem, a pauta pedia a construção de uma imagem, uma tese. Então, sem antecipar o que foi dito, revelo que a minha tese é de que a cena literária de Salvador é fragmentada, existem poetas, escritores, saraus, mas estão dispersos demais pela cidade – que é enorme e excessiva, nós bem sabemos –, há pouco espaço para divulgação, circulação, pouca conexão entre os grupos. As próprias respostas dos entrevistados criaram essa perspectiva: embora às vezes destoantes no tom da crítica, todos destacaram certa incompletude de ações.

Muitas das falas se perderam, é claro. As respostas do combinado James-Kátia-Márcio-Alex-Lívia foram vastas, ricas, o texto final é sempre estreito demais para tantas ideias. Daí que minha proposta será, depois da edição impressa do Cândido ser lançada, publicar aqui no Blog de Literatura a íntegra de todas as cinco entrevistas – desde que os entrevistados concordem, eles estão sabendo desta ideia agora, aliás.

Lamento também que, como a pauta pedia o cenário exclusivamente de Salvador, não pude falar de eventos importantes como a Flica, cuja polêmica recente reflete sua crescente importância no estado, ou a Felisquié, com esse nome tão carinhoso que nos esboça um sorriso só ao ser citado. Sugeri um box, não sei se poderá ser utilizado, o texto principal já encostava no máximo tamanho pedido. Tampouco falei da Bienal, mas, sinceramente, a Bienal precisa, este ano, mostrar muito mais do que mostrou dois anos atrás, ou corre o risco de ser esquecida por completo em um futuro não muito distante.

E a temida linha morta do prazo também pode ter deixado de fora a conquista de Aldri Anunciação no Jabuti, anunciada três dias depois da entrega do texto. Enviei um pedido de alteração, mas os editores me falaram que a matéria já estava na página e iriam ver o que dava para fazer. Se não deu para fazer nada, deixo aqui a minha lembrança e meus parabéns para Anunciação.

Aguardemos, portanto, as cenas dos próximos capítulos.

(Davi Boaventura)

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Entrevista: Katherine Funke

“Katherine Funke tem 1,48m de altura. Pronto”. É fácil imaginar o sorriso de Katherine ao nos enviar essa sua descrição, resposta ao pedido para que nos enviasse um minicurrículo de apresentação à entrevista a seguir. E a catarinense há uma década na Bahia tem mesmo motivos para sorrir.

Depois do ótimo Notas Mínimas (Solisluna, 2010), Katherine volta à cena literária baiana com fôlego de maratonista: acaba de concluir uma residência artística em Florianópolis, prepara uma oficina de contos a ser ministrada em Lauro de Freitas, já com mais de 80 110 inscritos para disputar as 20 vagas disponíveis, e está lançando seu primeiro romance, Viagens de Walter (Solisluna, 2013), um e-book gratuito, que você pode (e deve) baixar AQUI.

O Blog de Literatura enviou algumas perguntas para Katherine. Suas respostas, no entanto, ultrapassaram os limites do jornalismo: é o retrato vivo do processo de construção de um escritor.

BdeL – As oficinas literárias têm recebido grande atenção nos últimos meses, você já participou de algumas e agora passa para o outro lado do balcão. Fale um pouco da sua experiência com as oficinas e o que espera da Katherine como professora.

KF – Fico feliz com sua pergunta, pois assim posso esclarecer a proposta logo de cara. O iBahia publicou a notícia da oficina com um título que não me agradou: “Quer virar escritor?”. Nunca prometeria isso. Ninguém “vira” escritor, ao menos é no que acredito.

A ideia é praticar o conto, pois é uma oficina, e também estudá-lo, lendo alguns exemplos de grandes contistas e alguns novos nomes da literatura feita na Bahia e no Brasil. Já estamos com quase oitenta inscritos para 20 vagas, desde adolescentes com blogs de poesia a pessoas com doutorado no exterior: acho que isso mostra a carência de mais oficinas assim na Bahia. Há publico, há demanda, só faltam oportunidades.

Minha experiência com oficina nem é tanta assim. De produção literária fiz apenas cinco: com Luiz Brás (Nelson de Oliveira), Angélica Freitas, Marcelino Freire, Juan Villanueva Chang (da revista Etiqueta Negra, do Peru) e Rodrigo Schwarz, este último jornalista e escritor da cidade de Joinville, SC, onde nasci.

Schwarz nos instigou a escrever um conto em uma hora, acho, e compartilhar em seguida lendo para os colegas. Foi o que fiz. Ouvi o que disseram, aceitei uma sugestão (quase unânime no grupo) sobre cortar o último parágrafo – e esse mesmo texto, “Coração de Galinha”, foi publicado na revista Arte & Letra Estórias, de Curitiba, na Balaio de Notícias, de Aracaju, e depois em Berlim, na antologia de autores brasileiros da editora Klaus Wagenbach, em 2013.

Todos os meus “professores” de oficinas foram simples, diretos, pacientes. Trouxeram grandes dicas em pequenas intervenções. Também quero ser uma oficineira assim. Vou estimular leituras, incentivar o compromisso pessoal de escrever diariamente e estimular a verve crítica, de um lado, e do outro o ouvido humilde/atento na análise dos próprios textos e dos colegas. É preciso sempre se lembrar que cada um fala do seu lugar, de suas vivência, e que não se deve absorver todos os comentários, apenas aqueles que sua intuição julgar como pertinentes.

Dizem muito para mim que um grande risco de oficinas é o nivelamento por baixo, mas discordo. Acho que a gente sai mais reforçado dessa colisão produtiva de ideias, diferenças de pontos de vista e modos de entender o que é um bom conto.

BdeL – Lauro de Freitas é uma cidade com grandes contrastes culturais, sociais e econômicos. É possível extrair uma representação literária dessa mistura? Em termos mais gerais, como você vê o papel da literatura na cidade, sendo, além de escritora, moradora?

KF – Vejo aí duas perguntas de âmbitos bem diferentes.

À primeira posso responder que sim, é possível sim. Em alguns dos textos de “Notas Mínimas” e em outros contos mais longos tenho explorado esses contrastes, mesmo que não cite o nome da cidade. É uma constante fonte de inspiração.

À segunda pergunta, te digo que Lauro de Freitas é pequenina mas abriga muitos autores, de poetas a romancistas, e uma excelente editora, a Solisluna, que publicou “Notas Mínimas” e agora o meu romance “Viagens de Walter”, em formato digital.

Este processo de seleção para a oficina de contos me apresentou pelo menos mais vinte escritores em Lauro de Freitas, autores contemporâneos e conterrâneos, alguns deles com blogs que mostram uma produção regular.

Conheci também algumas pessoas que trabalham em diversos níveis pela literatura, como a equipe da Biblioteca Municipal e um cara chamado Alisson Lima, vice-diretor de uma escola pública. Além de cantar na Pastel de Miolos, ele tem uma banda chamada Macabéa, em homenagem à personagem de Clarice, em que ele escreve, compõe, canta, com grande qualidade literária. Então, com certeza algumas pessoas de Lauro de Freitas, assim como em qualquer outra cidade, reservam à literatura esse espaço do sonho, de fugir da realidade física e partir para uma segunda, uma terceira realidade, onde tudo é possível.

BdeL – As trocas simbólicas e culturais são importantes para qualquer artista. Recentemente, você participou de um intercâmbio em Santa Catarina: o que trouxe de volta na bagagem?

KF – Essa oportunidade da Bolsa Interações Estéticas, da Funarte, me proporcionou uma residência artística de seis meses na Biblioteca Barca dos Livros, que é um Ponto de Cultura super articulado na Lagoa da Conceição. O projeto se chamava “Viagens na Barca” e termina daqui a alguns dias, com o lançamento do romance “Viagens de Walter” em 21 de setembro. Passei seis meses em contato com a comunidade dessa biblioteca, em diferentes situações. Levo pra casa muito mais leituras, pois usei e abusei do rico acervo da Barca. Ainda levarei um bom tempo aprendendo o que aprendi, se é que entendes o que quero dizer. Levo uma inquietação ainda maior do que quando cheguei, uma vontade de estar em contato diário com a literatura em suas diferentes formas: contação oral de histórias, leituras comparadas, grupos de estudo de gêneros específicos e assim por diante. Já estou até com vontade de fazer esse mestrado em Escrita Criativa na PUC-RS, mas como tenho um filho bebê e já fiz toda uma reviravolta de vir com ele para Santa Catarina, ainda não sei como vai ser essa logística no ano que vem. Oh, sim, e já deves ter notado que estou levando também um sotaque ilhéu. Sou de Joinville, lá usava o tu misturado com você; de morar na Bahia passei a usar “você” para tudo; mas aqui virei um ser extraterrestre, misturando você com tu o tempo inteiro. Reincorporei o “tu” da minha infância…

BdeL – E este mês temos livro novo seu nas ruas. Em termos criativos, o que está por trás desse lançamento?

KF – O romance “Viagens de Walter” é um livro em formato digital, um EPUB para download gratuito, para ser lido em celulares, tablets etc, então não vai estar nas livrarias físicas, apenas virtuais (sempre grátis).

O edital da Funarte, que ganhei, era de Interações Estéticas – Residências Artísticas em Pontos de Cultura. Nos três primeiros meses eu tinha esse compromisso semanal de levar para a Barca um bom conteúdo para o público. Li muito e escrevi muito nesse período, mas sempre livremente, sem me preocupar tanto em fechar as possibilidades da trama. Cheguei a imaginar diferentes rumos para a história, achando que seis meses duravam seis anos… Mas, a partir do quarto mês, com o pé no chão quanto ao cronograma, me dediquei quase inteiramente à escrita do livro, pois não tinha mais a obrigação semanal de coordenar o grupo na Barca. Aí sim fiquei mais concentrada na coesão da trama, caracterização dos personagens, voz do narrador, etc.

No quarto ou quinto mês decidi que o livro não deveria ser todo em terceira pessoa; estava usando um tom impessoal demais, achei, embora o narrador tivesse uma capacidade incrível de entrar nas “viagens” de Walter (são deslocamentos geográficos, mas sobretudo sensoriais, espirituais…). Então modifiquei dois capítulos para dar voz e corpo a Walter. Foi bom, ele ficou melhor caracterizado, eu acho, pois consegui uma diferença entre as duas linguagens, consegui imaginá-lo falando, escrevendo, vivendo aquilo.

Admito que não criei um romance pós-moderno, não inventei a roda ou fiz todas as coisas megalomaníacas que a gente pensa que vai fazer e, quando começa a escrever, podem ficar para trás porque outras questões surgem, questões mais de fundo mesmo, como o propósito do romance e o que ele exige de nós como autores.

Mas é meu primeiro romance, só o primeiro; calma… Tive uma experiência anterior de escrever a quatro mãos, com “Maria João”, um livro ainda inédito porque eu e o outro autor, Luis Daltro, ainda estamos trabalhando nele, para aperfeiçoá-lo, apesar de termos deixado uma versão mais ou menos pronta ao término do edital que nos proporcionou fazê-lo, da Fundação Pedro Calmon.

Fazer um livro sozinha é muito, muito diferente. Foi realmente um processo solitário. Falei bastante do livro na Barca, compartilhei momentos do processo criativo, mas não houve quem o lesse por inteiro antes que realmente eu o desse por terminado. Só então, aí sim, passei para quatro pessoas de extrema confiança para que me dessem seu parecer.

Uma dessas pessoas, o Patrick Brock, irmão de coração, jornalista e escritor que mora em Nova York, e estudou literatura lá, fez uma leitura mais focada nas questões narrativas e deu algumas dicas essenciais, como trocar duas frases de lugar no início do texto para dar mais impacto à abertura.

A dois dias do fim do meu prazo com a Funarte, Brock apontou também algumas fragilidades como a falta de descrições em algumas cenas, as potencialidades de alguns personagens não muito desenvolvidos… Trabalhei mais um pouco no livro, a partir desses comentários, mas gostaria sim, não nego, de ter mais alguns meses para aprimorá-lo.

De toda forma,estou feliz com o resultado final. Vejam, nunca estudei literatura formalmente, nunca fui a uma faculdade de Letras para estudar (sou formada em Comunicação, com pós em Jornalismo Contemporâneo), nem mesmo tenho livros em casa de teoria literária (mentira: tenho sim, uns dois, que nunca li…). Sou uma escritora bem intuitiva, mais leitora do que estudante de literatura.

Preocupei-me muito com a concisão. Muito mesmo, a ponto de jogar fora mais da metade do que escrevi este ano, o que pode ter gerado alguns dos problemas que Patrick notou a respeito da falta de detalhamentos em algumas cenas. Iniciei o livro em 2007, 2008, e na época escrevia por blocos numerados, como se cada um fosse um pequeno conto. Imaginei que conseguiria manter essa estrutura, mas minha editora apontou o problema da sensação de narrativa desfragmentada, caótica até, em vez de fluída, organizada. Acatei a sugestão de tirar os números, unir os blocos em texto corrido, e foi bom. Por algum tempo ainda usei os blocos numerados como método de trabalho (cada um tinha de ser “perfeito”); depois deixei de lado essa pretensão de causar tanto impacto estético, em nome do desenrolar da história.

Ainda acho legal registrar nessa entrevista que homenageio Walt Whitman e Robert Walser no livro, assim como João Cabral de Melo Neto e Ondjaki, com breves alusões às suas obras. Não consegui resistir à tentação de incluir essas referências no livro, talvez porque me sinto muito ligada às bases que me impulsionam a escrever. A solidão do ato da escrita faz isso com a gente (precisamos de referenciais constantes) e acabei transpondo-os de uma forma sutil, pontual, no romance.

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Não podemos depender do governo

As premissas são óbvias.

Fato #1: o contingenciamento de verbas do governo da Bahia em relação ao seu setor cultural – que resultou em adiamento de editais, suspensão de atividades, empobrecimento da movimentação artística em todo o estado – foi uma medida não só lamentável, como, diante de um cenário onde a Copa do Mundo suga os investimentos e o lucro da Arena Fonte Nova está garantido, foi também uma medida torpe, retrógrada, talvez irresponsável, profundamente danosa. Com esta atitude, a Cultura local diversificada se apequena, reféns ad infinitum que somos de uma sociedade pensada e reprisada para o Carnaval.

Fato #2: ainda que obstáculo, o não investimento oficial não pode ser muro de lamentações perpétuo, é preciso encontrar alternativas, seja via investimentos privados, seja via crowdfunding, seja através do próprio bolso. Um sistema de produção artística somente será saudável quando o dinheiro governamental, ao invés de base primordial de realização, for um dos componentes da equação, atuando para garantir a multiplicidade de vozes, a preservação da história, o jogo limpo entre os concorrentes, a fiscalização das regras, não sendo o único guarda-chuva no qual nós vamos nos proteger.

Daí a conclusão do título, ainda mais óbvia que as premissas: não podemos depender do governo. Vou me repetir, mas a pergunta novamente será feita e a resposta outra vez precisa ser lembrada: e o que é que podemos fazer? Podemos nos organizar em coletivos artísticos, por exemplo – o último a surgir com certo brilho, o Muito Barulho por Nada, gerou poucas crias, e é uma pena que tenha sido assim. Podemos nos espelhar no cinema e ir atrás de empresas dispostas a custear produções, via leis de incentivo – por que temos tão poucas a investir nos livros, fora as próprias editoras? Podemos nos arriscar nas incertezas das vaquinhas virtuais – ambiente muitíssimo mal explorado pela literatura. Podemos levar os saraus para fora das livrarias – por que ninguém fez ainda um sarau no meio da praça de alimentação de um shopping? Podemos ter mais iniciativas como as de poesia nos ônibus e de edições artesanais. Podemos criar mais feiras do livro e mais festas literárias.

E por aí vai.

Nós só não podemos é ficarmos parados, lamentando, à espera da ajuda bondosa do Grande Pai.

(Davi Boaventura)

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Entrevista: escritor de volta à escola?

“Nunca consegui entender porque a Escrita Criativa incomoda tanto as pessoas. Parece-me uma visão mística do escritor como um sujeito escolhido, ou ainda uma visão elitista, só os bem nascidos e que tiveram uma ótima formação cultural, sendo estimulados a ser e escrever desde cedo, podem escrever livros”.

A fala, que reverbera a insatisfação de vários escritores contra a chamada Ditadura da Inspiração, é de Luís Roberto Amabile. Ele sabe do que fala. Mestre em Escrita Criativa, doutorando em Teoria da Literatura, autor de O Amor é um Lugar Estranho (Grua Livros, 2012), ex-jornalista feliz por ter abandonado a antiga profissão, Luís trocou São Paulo por Porto Alegre em um impulso literário. E agora, junto com Moema Vilela e Rodrigo Rosp, organiza a I Festa da Escrita Criativa, entre os dias 02 e 06 de setembro, no prédio 8 da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, um evento feito na medida para explicar que impulso é esse – impulso, no final das contas, que une a todos nós, amantes dos livros. O Blog de Literatura conversou com ele: o papo seria sobre a Festiva, mas terminou sendo sobre academia, felicidade e o atual cenário literário no Brasil.

BdeL – A Festiva foi criada dentro da pós-graduação em Escrita Criativa da PUC-RS, experiência única no país. Comente essa iniciativa e a importância de um evento como o organizado por vocês.

LRA – Acho que nós escritores temos de ser muitos gratos à PUC-RS por criar a área de Escrita Criativa. É uma pequena revolução dentro da academia. Antes a Escrita Criativa era uma linha de pesquisa dentro da Teoria da Literatura, agora na PUC é uma área equivalente à teoria. Agora há bem mais aulas específicas em Escrita Criativa. Agora há doutorado. Agora sai, no diploma, Escrita Criativa.

Outro fator: por exemplo, esse mestrado dá algumas bolsas. Ou seja, o escritor vai ganhar para estudar e escrever. A intenção, pelo que sei, é que o doutorado também tenha bolsas assim que possível. E o mestrado e o doutorado em EC agregam pessoas interessadas na prática literária. Temos um grupo que produz e discute literatura, temos o famoso tripé do Antonio Candido, escritor-obra-leitor (e até editor), dentro da universidade, ou como diria o Pierre Bourdieu, temos um minissistema literário.

A Festiva, que surgiu dentro do Grupo de Estudo Leitura e Criação Literária, coordenado pelo professor Paulo Kralik, é importante na medida em que coloca em evidência tudo isso. A ideia apareceu porque agora há vários escritores publicados na PUC-RS. Além disso, a Carol Bensimon, o Diego Grando, Amílcar Bettega também fizeram mestrado ou doutorado em Escrita Criativa – o Amílcar, aliás, foi o primeiro a defender doutorado, o romance “Barreira” (Companhia das Letras, 2013, Coleção Amores Expressos) foi o seu projeto de conclusão.

BdeL – As mesas tratam de diversos temas que não estamos acostumados a ver serem discutidos dentro de universidades. Quais foram os critérios para as escolhas e o que se espera com elas?

LRA – Escolhemos temas, a nosso ver, caros a pessoas que se interessam pela criação literária. Esperamos deixar falar os escritores dentro da universidade e que esta fala reverbere e dê origem a novas discussões, que divulguem suas obras para o público em geral e que ainda os alunos da graduação possam saber mais sobre a lida com as palavras e ver que é possível seguir esse caminho.

BdeL – Você participará de uma mesa sobre escritores que largaram a sua “vida pregressa” e correram atrás da literatura. Que ímpeto é esse que os livros proporcionam?

LRA – É uma questão de felicidade, eu acho. Posso falar pelo meu caso. Deixei de ser jornalista em São Paulo. Pedi demissão do Estadão no segundo semestre de 2009 porque queria me dedicar a escrever ficção e precisava de tempo para isso. Cursei a oficina (do Assis Brasil) em 2010. Não sou gaúcho, nasci no interior de São Paulo, em Assis, e não sabia da oficina, até que vi uma reportagem na Bravo. Eu já estava cansado da vida em São Paulo, da vida de jornalista e, uma vez aceito na oficina, decidi me mudar pro Sul. Foi uma decisão radical, eu estava pronto pra dar entrada num apartamento em São Paulo e usei o dinheiro para começar uma nova vida em Porto Alegre. Eu estava infeliz em São Paulo, mas não teria vindo para Porto Alegre se não fosse pela oficina. Uma vez aqui, descobri o mestrado em Escrita Criativa na PUC, prestei e ganhei bolsa, depois ganhei bolsa para o doutorado em Teoria e fui ficando.

BdeL – Novamente pensando na relação entre literatura e universidade, um curso de Escrita Criativa dentro da Academia ainda não é consenso, mesmo com cursos livres do gênero tendo proliferado por aí: como você enxerga essa situação hoje, mestre em Escrita Criativa e doutorando em Teoria da Literatura?

LRA – Essa discussão nunca fez muito sentido para mim. Nunca consegui entender porque a Escrita Criativa incomoda tanto as pessoas. Parece-me uma visão mística do escritor como um sujeito escolhido, ou ainda uma visão elitista, só os bem nascidos e que tiveram uma ótima formação cultural, sendo estimulados a ser e escrever desde cedo, podem escrever livros.

Quanto a estar ou não na academia, acho natural que alguém que queira escrever se interesse pelo menos um pouco por teoria e que, para mim, o contato com o ambiente acadêmico, a discussão de textos, torna mais palpável a literatura e a escrita, por mais que na hora do fluxo criativo, quando a coisa está fluindo, eu não pense em teóricos.

Mais duas considerações. Primeiro, os cursos de artes plásticas, cinemas, teatro existem há bastante tempo, inclusive com programas de pós-graduação, e os projetos de conclusão são eventualmente obras de artes, hoje em dia não se discute a validade desses cursos. E, segundo, já foi provado nas experiências em vários países que os cursos de EC na universidade dão bons frutos. Então que faça Escrita Criativa quem acredite ser válido e que fique longe quem não ache válido.

BdeL – Falar em cursos de Escrita Criativa, de qualquer forma, nos parece ser fruto de um novo momento na literatura brasileira. Estamos, enquanto mercado editorial, amadurecendo?

LRA – Não sei se tenho capacidade para fazer essa análise mercadológica, acho que estamos, sim, amadurecendo, aos poucos. Vejo como exemplo disso as editoras pequenas que conseguem sobreviver publicando apenas autores nos quais acreditam. Mas prefiro deixar essa análise para especialistas. Agora, o curso de Escrita Criativa não me parece se encaixar nesse suposto amadurecimento. Ninguém vem ao curso de EC porque há um mercado para escritores, as editoras não estão batendo às portas do curso para publicar os autores que daqui saem. Os escritores procuram uma pós-graduação em EC porque enxergam nisso uma chance de melhorar o seu texto, de percorrer mais rápido o caminho até domínio técnico do ofício de escrever.

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Entrevista: Lu Thomé e a Copa de Literatura Brasileira

Saem as chuteiras, os gols anulados e as faltas violentas. Entram parágrafos, discursos e questões estéticas. O campo de jogo é outro, mas a emoção é a mesma, ou quem sabe até maior: começou na última terça-feira, dia 13 de agosto, a melhor competição de Esporte & Arte do mundo virtual, a Copa de Literatura Brasileira, onde 16 livros nacionais entram em disputa em um esquema mata-mata de crítica literária até se eleger o grande campeão. E o Blog de Literatura correu atrás de Lu Thomé – jornalista, escritora, editora da Não Editora, colunista do ótimo Posfácio e uma das organizadoras do evento – para um tira-teima rápido sobre o torneio. Confira abaixo a entrevista e preparem suas vuvuzelas.

BdeL – Nas três primeiras edições, a Copa cobria os lançamentos de um único ano – 2007, 2008 e 2009 – e agora envolve os livros lançados no período de dois anos – 2010/2011 e 2012/2013. Por que essa “adequação” ao calendário europeu? Quais foram as dificuldades enfrentadas e quais são as que ainda se enfrentam?

LT – A Copa de Literatura surgiu com a proposta de ser anual. Mas, por questões de organização, ficou alguns anos sem ser realizada. Na primeira ocasião, bem quando o Gauchão de Literatura estava terminando, o Lucas Murtinho (idealizador da Copa) fez o convite para que eu entrasse na Comissão organizadora. O projeto não havia ocorrido em 2010. Então, reunimos os livros lançados nos anos anteriores para não deixar nenhum potencial concorrente de fora. A mesma coisa ocorreu em 2012: com o nascimento do Martin (filho do Lucas) e do Lucas (meu filho), deixamos a Copa de lado para retomar em 2013. Então, na edição 2012/2013 (a atual), estão contemplados livros de narrativa longa publicados em 2011 e 2012.

BdeL – Em 2013, a organização fez mudanças no formato da disputa. Comente essa nova estrutura: encontrou-se um equilíbrio ou ainda estamos na incerteza entre a emoção do mata-mata e a justiça dos pontos corridos?

LT – Estamos sempre fazendo novas tentativas. O mata-mata imprimia emoção à disputa. Mas sujeitava a análise do livro perdedor (no caso) a somente um jurado. Com a mudança no formato da disputa, nos aproximamos mais do projeto que inspirou a Copa (o Tounament of Books), que realiza novas rodadas entre os livros perdedores (o que chamamos de rodada zumbi). Claro que podemos perder um pouco da audiência repetindo jogos entre os livros. Mas a discussão ganhará muitos pontos, agregando novas visões sobre estes mesmos livros.

BdeL – E as mesas redondas, o que esperar delas e como evitar o clima de chororô tão típico dos debates futebolísticos?

Acreditamos que as mesas redondas vão agregar (e não diminuir) o debate. Inclusive, os debatedores já nos salvaram no primeiro jogo, fazendo uma discussão qualificada sobre uma resenha que não existiu. A Copa de Literatura também tem seus dramas particulares. Muitas questões levantadas pela mesa redonda no primeiro jogo estão repercutindo na caixa de comentários. E esse é o objetivo principal.

Obviamente, um evento como esse não é unanimidade: alega-se, e continuará a se alegar, que não é plausível uma competição entre produtos artísticos e culturais. Como ultrapassar essas críticas e o que elas podem ensinar à Copa? Na mesma linha, o que vocês aprenderam com os erros do passado?

Em termos de organização da Copa, estamos sempre aprendendo e aprimorando o processo. Neste ano, o debate sobre o projeto foi além. Não vou entrar no mérito dos que gostam e dos que não gostam da Copa. Isso é realmente algo subjetivo. No entanto, tirar o prestígio da Copa de Literatura simplesmente porque ela coloca dois livros em “embate” direto é desconhecer o próprio mercado literário. Essa comparação entre livros existe na mesa do bar, em debates informais entre leitores. E ela também existe, em níveis mais formais e não públicos, em qualquer prêmio literário (Machado de Assis, Jabuti, Passo Fundo, para citar alguns). A obra vencedora sempre foi escolhida em detrimento (e portanto, na comparação direta) com outras. E é aqui que entra o mérito da Copa: fazemos este debate abertamente. Mas não porque um livro é melhor do que outro no sentido universal. Mas porque, naquele momento, o jurado acreditou que uma leitura foi melhor do que a outra. Para quem concorda ou para quem discorda, a caixa de comentários sempre estará aberta.

BdeL – Embora seja um torneio nacional, é evidente que muito da energia da Copa vem do Rio Grande do Sul. O que a literatura feita do RS tem que os outros estados do país ainda não?

Olha… Eu, particularmente, não concordo muito com isso. A Copa sempre teve autores concorrentes gaúchos, mas também paulistas, cariocas, mineiros. Existe o bairrismo literário gaúcho que é mais forte do que em qualquer outro estado. A literatura gaúcha tem tanta qualidade quanto as demais. Eu só acho um erro destacar a produção literária do Sul porque faz mais frio por aqui, e os escritores ficam mais reclusos e produzem mais (como um colunista disse há alguns meses).

BdeL – Para terminar, que tal nos revelar os seus favoritos para a competição deste ano e comentar se há alguma injustiça do passado que você ainda lamenta?

Não revelo os favoritos. Eu poderia cometer injustiças, inclusive citando algum favorito que não gostaria de ser favorito (essas coisas acontecem). Participei mais ativamente da Copa na caixa de comentários quando não estava na comissão organizadora. Agora, sinto que não poderia revelar este tipo de informação. Ao mesmo tempo, acredito que não podemos lamentar injustiças do passado, mesmo que elas tenham ocorrido. A Copa de Literatura é organizada diretamente por três pessoas, mas suas decisões passam por uma esfera maior. Ela é um colégio de 23 pessoas muito interessadas em literatura, e que ajudam a decidir sobre tudo. E o seu resultado, naturalmente, é o reflexo deste período específico, de publicações e de leituras.

A Copa de Literatura Brasileira já teve dois jogos disputados, clique aqui e aqui para conferir as resenhas, os resultados e as mesas redondas.

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Precisamos Falar sobre a Literatura na Bahia

Sim, é realmente difícil escrever Literatura na Bahia, e os motivos são os mesmos de sempre, nossos velhos conhecidos – baixíssimo índice de leitura, educação deficiente, desinteresse do público, falta de investimento oficial e privado, semiamadorismo do mercado editorial, com autores que não são nem informados sobre a quantidade vendida de seus livros, falta de qualificação dos escritores, e de interesse em se qualificar, desarticulação e fragmentação da cena literária, aproveitadores, pouco espaço em mídia – mas, felizmente, há quem insista, a literatura não pode deixar nunca de insistir, e é essa insistência que gera eventos como esse “Fazer Poesia e Ficção na Bahia”, a ser realizado em Salvador (26/08, 20h, Cine-Teatro Solar Boa Vista) e Feira de Santana (05/09, 09h, Departamento de Letras e Artes da UEFS), que, embora seja uma ótima oportunidade para se discutir a fundo a situação, deve ter desde já algumas questões em pauta para não correr o risco de se tornar inócuo.

Precisamos, primeiro, abandonar o conformismo, deixar esse discurso de que sim, é realmente difícil escrever Literatura na Bahia, como acontece em muitas palestras do gênero: é difícil, todo mundo sabe, queremos saber agora como facilitar essa vida. Precisamos, ao mesmo tempo, abandonar o pessimismo, esquecer essa conversa de que a literatura está morta e os livros vão se acabar: nunca se vendeu tantos livros no Brasil, o que falta é criatividade para se buscar os novos leitores. Precisamos também abandonar o deslumbramento tecnológico, acabar com essa conversinha de que a internet será a salvação da lavoura: as vendas dos leitores digitais estão em queda, o que as pessoas querem mesmo são boas histórias, independente do formato.

Precisamos ainda ultrapassar o mote de que há uma pílula de sabedoria em cada livro: além da existência de inúmeros livros ruins, a literatura pode e deve ser lida como um lazer, um escapismo, uma ofensa, ou qualquer outra abordagem que as pessoas queiram dar à literatura – elas estão cansadas de serem tachadas de burras porque não leem livros. Precisamos, por fim, nos profissionalizar: produzir literatura não é um crime, é trabalho, e é preciso criar uma cadeia sustentável capaz de valorizar esses trabalhadores.

E, como não poderei comparecer aos eventos, e como gostaria mesmo de movimentar o debate, deixo aqui a minha questão, que alguém poderia me fazer a gentileza de levar aos debatedores durante a rodada de microfone aberto: se a produção de literatura, em si, não possui um fim, por que continuamos a exigir dela um recomeço?

(Davi Boaventura)

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Criação de veículos: Esquema 42 e Palavras Passageiras

O livro de sonetos de Alex Simões foi todo editado em casa

No início deste mês, acompanhei um livro ser editado com uma impressora caseira, uma janela de madeira usada como prensa, um conjunto de estiletes, costuras e colas, uma tela de tinta, tecidos talhados, papelão e mimeógrafo. É o Quarenta e uns sonetos catados, do poeta estreante em livro, Alex Simões, cujos duzentos exemplares de tiragem foram lançados em evento no Instituto Goethe, com leituras em microfone aberto.

O responsável pelo projeto, batizado como Esquema42, é Reinofy Duarte, sócio-fundador da Domínio Público. O seu desejo inicial pode ser dividido em duas formas: 1) tornar possível a publicação do próprio livro; 2) conceber uma linha de produção que pudesse independer de editoras e editais. Não que ele seja institucionalmente contra as primeiras – chegou a montar uma com o mesmo nome da empresa atual para publicar o romance “Henrique”, de Állex Leila, em 2001 -, nem contra os segundos – é também produtor cultural e foi aprovado no edital de Apoio à Criação Literária, da Fundação Pedro Calmon, em 2010. O que atrai Reinofy (pronuncia-se Reinófi) é o aumento do campo do possível na veiculação gráfica, ou em próprias palavras, “a guerrilha”.

O princípio se repete no projeto que se inicia amanhã, 22/07, em alguns ônibus da cidade: o Palavras Passageiras. Trata-se de um suporte com papel plastificado que se fixa aos acentos e contém, cada, um poema de um autor baiano. A curadoria ficou por conta de João Filho, autor de Encarniçado e Ao longo da linha amarela. Entre os quinze convidados, estão Kátia Borges, Ruy Espinheira Filho e Sandro Ornellas, que figurarão, por 30 dias no mínimo, nos automóveis da empresa Rio Vermelho. O objetivo é que se torne um suporte usual, com poetas em rodízio e com ampliações para novas linhas, no encalço do selo Artdoor.

"Palavras Passageiras" é um projeto que veiculará poemas em ônibus de Salvador

As duas empreitadas da Domínio Público têm o valor de tornarem mais públicas os domínios de produção editorial e de consumo de cultura. Não apontam, ainda bem, apenas para iniciativas passionais em nome da arte. O que mais sabota ideias grandes é uma insistência na “pureza”, e esta pureza quase sempre significa distanciamento econômico. Toma-se como forma de combate às imposições de mercado todo e qualquer distanciamento dele em oposição, o que mantém o corte apenas pelo lado contrário e, assim, na negação que reafirma, continua deixando ser o mercado o que ele é, sob a égide de grandes metas que logo se acabam. De resultado, ficamos a sós com algo ainda mais embrutecido. O Esquema 42, para além dos seus valores imateriais, é barato. O Palavras Passageiras, em sua divulgação da poesia baiana aos conterrâneos e ocupação dos transportes públicos, terá no verso espaço de anúncio para autogerir-se.

Deseja-se, portanto, sorte, não porque Reinofy Duarte tenha nome distinto e o mereça, não porque João Filho pareça ser uma figura agregadora, e principalmente não porque precisamos de mais uma tentativa na lista para, ao menos, posteriormente, lavarmos as mãos na pia de Pilatos – deseja-se sorte porque uma viabilidade abre caminhos.

(Saulo Dourado)

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Damário continua vivo

Conheci Damário em 2005, 2006.

Eu não tinha mais que 20 anos, era ainda um aspirante a fotógrafo no LabFoto – UFBA, que ainda nem era o que é hoje o LabFoto. Estávamos em Cachoeira para registrar a feira da cidade com câmeras de filme 36 poses. Fotografamos, comemos, passeamos e, perto do final da tarde, fomos ao Pouso da Palavra, a casa de Damário, este sim já era o Pouso da Palavra, com seu quintal delicioso, as fotos belíssimas espalhadas, os livros, o clima, o Navio Negreiro do 2º andar, e Damário. Lembro-me dele perguntar, para mim e dois amigos, o que mais nos impressionava na casa e respondi sem titubear – as máquinas de escrever, eu disse, por quê?, não pelo saudosismo da coisa, talvez inconsciente eu já me enfurnasse na literatura, era pelo simbolismo, as máquinas esperavam em pequenos pedestais, em mesas onde se tornavam donas, mesmo com tanta arte em volta. Retornamos alguns meses depois para uma exposição, muitíssima ajudada por ele.

Então perdemos contato.

Em 2007, 2008, eu trabalhava em um jornal. Um assessor de imprensa do Hemoba ligou, me informou de uma campanha, de repente estávamos conversando sobre as necessidades humanas, e daí para a literatura e para a poesia. De início, não ouvi seu nome, ele também não me perguntou o meu, simplesmente conversamos pelo tempo que a redação de um jornal permite. Escrevi a nota sobre o assunto para o site do jornal, mas, antes de publicar, precisei confirmar algumas informações com o assessor. Liguei, ele me passou os dados, perguntei seu nome e passamos sabe-se lá mais quanto tempo conversando.

Então ele morreu.

Eu poderia ter imaginado, mas não sabia de sua doença, soube com susto. E mesmo com tão pouco contato com Damário, mesmo tendo lido pouco seus poemas, e ter visto pouco de suas fotografias, senti um vazio imediato, que, tenho certeza, foi compartilhado por qualquer pessoa envolvida com literatura na Bahia. Damário não era um poeta de livrinhos tolos, únicos veículos para Eu Líricos Imaturos, era um Poeta, desses de ver e buscar beleza e sentimento em absolutamente tudo. E faz falta, faz muita falta.

Nada irá nunca suprir essa saudade que sentimos de Damário. Mas, se nos serve de consolo, o Instituto que leva seu nome lançou no último sábado, dia 15, um site com boa parte do acervo do poeta, a lista de livros, inúmeras fotografias e foto-poemas, biografia, detalhes sobre o Pouso da Palavra, e por aí vai.

Merece, e muito, sua visita: http://www.damariodacruz.com.br/

Até para que tu tomes um susto e percebas como Damário continua atual:

MÃE
A NOSSA LUTA
É POR UMA PÁTRIA
SEM DÚVIDAS
NEM DÍVIDAS
É POR UM PAÍS
SEM DONOS
NEM DANOS
TÁ PENSANDO QUE É MOLE, MÃE?

(Davi Boaventura)

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Entrevista: Gabriel Pardal

 

Pardal lança o livro na Festa Literária de Porto Alegre // Foto: Ana Mendes

Gabriel Pardal, baiano de criação e recriação, é poeta, ator, diretor e compositor. Vive hoje no Rio de Janeiro, onde é um dos editores do portal eletrônico Onitorrinco, que acaba de ser transformado em livro pela editora 7 Letras. Tudo começou com textos de amigos compilados e postados em e-mails para quem assinasse a caixa postal. Alguns dos autores insistiram, ficaram, juntaram-se em um coletivo que então diariamente fabula poemas, crônicas & impressões numa mesma teia. Para puxar a brasa, eis o homem desta tessitura.

*

BdeL – Dizem que a vida faz mais sentido depois que conseguimos remontar a memória e descobrir o fio de uma narrativa… Agora que o Ornitorrinco chegou a um marco, a sua publicação, você já consegue olhar daqui para trás e saber o que ele é enquanto coletivo? O que parece conectar o que por lá pinta?

Pardal – O ORNITORRINCO foi a coisa mais distraída que eu já criei. Não tínhamos um objetivo definido. Não tínhamos um lugar onde pensávamos alcançar. Nosso objetivo era o caminho, o processo, o exercício de estarmos juntos pensando e escrevendo e descobrindo onde o trabalho com a palavra, com a reflexão pela palavra, a construção de frases e de ideias, onde tudo isso poderia nos levar. O ORNITORRINCO era um cão alado, sabe, como aquele do A História Sem Fim, e nós montamos nesse cão e fomos sem nos preocupar exatamente para onde ele estava nos levando. O objetivo era a viagem. Daí que agora estamos no segundo formato da ideia, deixamos de ser uma revista enviada por e-mail para um número cada vez maior de assinantes e agora somos um site, onde o número de leitores triplicou, e a interação entre autor-leitor e leitor-texto chegou ao ápice, em que o próprio leitor é também colaborador do projeto. E além disso temos a publicação do livro, um registro documental do que foi a primeira fase do ORNITORRINCO. O ORNITORRINCO é a Lapa do Rio de Janeiro. É o Rio Vermelho de Salvador. É a praia. É a praça. Agora sim posso dizer que é um coletivo formado por artistas de formação heterogênea, com questões diferentes entre si, com estilos de escrita diferentes, mas todos envolvidos com o significado da vida, formando esse animal estranho, feito de partes diferentes que formam um todo.

BdeL – Por que a culminância é impressa? Ainda há uma legitimidade no papel? Ou não é nada disso?

A publicação em livro veio para fecharmos o primeiro formato do projeto que acontecia por e-mail e era enviado para um número de assinantes. Antes para ler os textos o leitor tinha que mandar um e-mail com o título “Os Alquimistas Estão Chegando”, a partir daí ele estava assinado na mail list e receberia as edições quinzenais aos domingos. Nesse primeiro formato as edições eram temáticas, os colunistas escreviam a sua visão sobre o mesmo tema.

Agora estamos com um site. Não é preciso mais assinar e não temos mais edições temáticas. O site é atualizado diariamente com textos dos colunistas fixos e de vários colaboradores.

O livro é meio que um fechamento, uma comemoração, um registro do que produzimos em dois anos sob o mesmo formato.

Hoje em dia, particulamente, não tenho mais o fetiche do livro impresso. É bem possível que eu leia muito mais no computador, no tablet e no celular do que no livro mesmo. E não acho diferença, nem choro, nem lamento nada porque o que no final das contas interessa é o texto e a leitura. Tanto no papel quanto na tela, o que importa é se o texto é bom ou não. Eu não tenho fetiche nenhum, para mim o que importa é a experiência de troca com a arte e não o seu suporte.

BdeL – Você que é também ator, diretor, compositor, deve perceber na pele que a poesia é a atividade mais solitária, ao menos a única que se faz só. Como juntar tanta gente retira esta sensação? Você enxerga isso também entre os leitores que acompanham o site, algo como “fazer parte de um grupo”?

Uma coisa que percebemos muito dentro do coletivo é que é mais “fácil” escrever em conjunto com outras pessoas do que escrever sozinho. Estou há meses tentando escrever meu próximo livro, e não passo uma semana sem que eu escreva no ORNITORRINCO. E sim, sentimos que fazemos parte de um grupo porque estamos há dois anos vivenciando esse exercício de acordar e ficar neste estado de prontidão onde tudo pode conter uma ideia para um texto. Acaba que estamos separados mas muito juntos. Esse é um processo que provoca muita erupção criativa.

BdeL – A Bahia: o que ela te deu de régua e compasso? E o que ela te parece ainda ter que traçar com mais força, para continuar a presentear esses instrumentos a quem fica e a quem vai?

A Bahia é a minha casa e a minha terra, até quando ando por outra terra eu ainda estou a andar na Bahia. Sou totalmente baiano, embora também me ache tão diferente da cena cultural atual daí. Acho que não temos os mesmos questionamentos nem as mesmas referências. Culturalmente falando, a atual produção da Bahia não conversa comigo. Mas meu processo criativo, minha forma de me relacionar com as pessoas e com as coisas é totalmente baiana. E não peça para descrever isso que eu acabo estragando todo o meu mistério e charme.

BdeL – Como os baianos vão poder adquirir o livro? Existe a possibilidade de uma festinha de lançamento por aqui?

Desde quando lancei o meu primeiro livro, Carnavália, que eu estou tentando fazer um lançamento aí na Bahia. Mas a sorte não tem me dado chance. Estamos esperando um convite para chegarmos por aí e lançar o livro e fazer um República Ornitorrinco, que é um evento que fazemos por aqui, que é uma Revista Ao Vivo. Estamos caçando alguma forma de chegar por aí este ano… vamos ver o que acontece.

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Como o Altair e o Marcelino

A ideia deste post era falar sobre a Festipoa, evento estilo Balada Literária, que aconteceu em Porto Alegre entre os dias 10 e 19 de maio, e foi muitíssimo bem, obrigado, um evento com ótimas mesas, polêmicas – em especial, entre o Kiefer e o Ruffato –, jovens autores em participação de destaque, baianos infiltrados na República Ornitorrinco, temáticas diversas, o homenageado Cristovão Tezza lendo sorrisos e distribuindo trechos de sua obra, quadrinhos & literatura udigrudi, uma maravilhosa novidade vinda lá do Maranhão – falaremos mais dela um dia, aqui no blog –, e terá até ressaca, nesta terça-feira, 28, com Letícia Wierzchowsky, Ana Mariano e Tabajara Ruas, ótimo para quem estiver de passagem por Porto Alegre, mas não falemos sobre a Festipoa, ou pelo menos não falemos sobre a Festipoa como um todo, e sim sobre a melhor mesa do festival, que, em pouquíssimas palavras, podemos resumir como uma ode ao improviso: Marcelino Freire e Altair Martins.

A programação oficial do sábado à tarde anunciava João Gilberto Noll e Sérgio Sant’anna. Os dois, por motivos inúmeros, se viram obrigados a cancelar. E a produção, então, pairou desnorteada: um enorme buraco, em horário nobre, bem no último final de semana do evento. Os boatos circularam pela plateia, ninguém sabia se ia embora ou se confiava na promessa de que algo iria se arranjar. Muitos se mandaram. Mas outros chegaram, e juntos com os resistentes de antes, assistiram a uma mesa, ao mesmo tempo, absolutamente improvisada e absolutamente imperdível.

Trouxeram o Altair Martins, autor anfitrião da Festipoa, o Marcelino, fonte inspiradora do evento, com sua Balada Literária, entregaram microfones aos dois e deixaram que eles fizessem o que mais sabem fazer: dar show. Os dois conversaram sobre seu processo criativo, contaram anedotas, contos, mataram curiosidades do público, e um do outro, falaram até dos cuidados que se deve ter ao escolher um título – atenção especial com o uso do “como”, alertou Marcelino, o “como” pode se tornar antropofágico, vide o nosso título.

O grande momento da tarde, no entanto, foi uma simples leitura. Primeiro o Altair, apelidado, contra a sua vontade, de papa-prêmios, lendo trechos de seu próximo romance, Terra Avulsa. Depois o Marcelino, contista consagrado, em sua primeira incursão na “prosa longa”, lendo o começo de Só o Pó. Donos de vozes marcantes, e narrativas idem, os dois, mesmo aos improvisos, não precisaram mais do que alguns minutos para nos renovar o nosso amor pela boa literatura.

É até inacreditável que eles só estavam lá para bater um papo. Mas fazer o quê? Quando dois escritores deste quilate se sentam para conversar, o melhor que a gente faz é ficar quieto e ouvir.

(Davi Boaventura)

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