James, Mais Amado Do Que Joyce

Último Pós-Lida de 2012//por Amana Dultra

Havíamos marcado uma entrevista filmada com James Martins, já que ele é um rapaz tridimensional: fala com as mãos e se capta nas digressões. O cinegrafista não pôde ir de última hora, os comparsas do blog se desarticularam, e eu me coloquei por adiar o encontro. A internet, no entanto, caiu, e não havia telefones. O fixo de James é todo e qualquer orelhão do Barbalho até à Liberdade, que ele usa com o auxílio de sua agenda, a saber, versos de panfleto de liquidação com números anotados. O seu último celular foi dado para uma mendiga com quem prolongou conversa e talvez pudesse prolongar mais, e desde então só usa o de sua mulher (no momento em viagem), para zanga dos que acham má vontade ele insistir que não tem número nenhum. Só me restou aparecer mesmo na hora combinada, por prevenção, sem câmera e sem gravador. Em um instante assim sem meios, só restam os fins: um homem, fim em si mesmo, e outro, com sorriso de canto: “Eu tinha uma leve intuição de que essa história de vídeo não ia dar certo”, falou ele ao surgir.

James me conhece do tempo em que eu o escutava quase mudo e já me viu esquecer presente de aniversário em banco de shopping, duas quadras atrás do destino. Se ele já se desfez dos excessos, diverte-se com as minhas tentativas de lidar com os meus. Viu-me com um caderno sem capa, uma caneta da escola, e ajeitou com cumplicidade o seu relógio amarelo que pegou da filha mais nova. Sentamos à mesa do sebo e pegamos a questão de síntese: “Qual a importância dos veículos para a mensagem?”. Eis o recital Pós-Lida, que ocorrerá hoje às 19h30 na Praia dos Livros, com orientação e apresentação de James, por exemplo. É um evento com programação quinzenal, um ou dois convidados a cada edição para declamarem poemas ou alguma prosa, e um microfone aberto ao fim. Fim: em qual pretende ser travessia? “Elevar o nível médio de debate, aumentar o leque de referências, desmistificar autores e leitores”, responde, com algumas digressões que se perderam, pelo meio que me presto.

Para a arte, a forma é tão ou mais importante que a mensagem. “Pra não dizer que não falei das flores”, de Geraldo Vandré, era um hino contra a ditadura militar, com os acordes e a melodia de uma cantiga, enquanto a Tropicália falava de sorvete na Ribeira, de margarina, de Lindoneia, mas misturava em instrumentos e trejeitos tudo o que não era previsto. Foram Caetano e Gil que precisaram ir embora, pois abriam precedentes para formas de vida que não poderiam conviver em um país de fato organizado. “Outro exemplo é o Psirico”, lembra James. A música de Márcio Vítor que mais agradou as autoridades foi “Chuá Chuá”, uma das poucas que se dirige em conteúdo contra elas, pois traz ao ritmo o verso branco esperado pelas mais altas camadas. O escândalo e a imponência das classes baixas é manifestarem-se ao modo que têm, e isso o Psirico faz na sua batida de caráter. O veículo e a forma interessam, para a cultura e para a arte. O Pós-Lida é uma ocupação cultural, mas deseja também ser uma preocupação artística: canal de poesia sim, poesia de canal.

O convidado desta noite para conversar e declamar as preferências é o maestro e compositor Letieres Leite, fundador da Orkestra Rumpilezz. Lembrei aí a campanha de Davi Boaventura para que a garota propaganda de incentivo à leitura fosse Ivete Sangalo. “Concordo totalmente”, disse James. “Muita gente tem medo de ler e se tornar chato, porque o leitor é o cara de óculos, com Ulisses debaixo do braço, professor universitário, o próprio chato. Se Ivete ou Neymar aparece lendo, faz mais que dois anos de recital de poesia”. Aliás, quem também muito atrapalha o acesso às artes ditas cultas é o intelectual, por pairar a ideia de que seria necessária uma enormidade de formações e referências para alguém se doar a uma obra. “O povo entende tudo”.  James se fascina com a vez em que foi convidado para uma feira literária em Nova Constituinte, invasão de Periperi, e declamou os mesmos poemas com que abriu as edições do Pós-Lida em 2012 e prosseguirá neste ano. “Teve uma hora que uma menina levantou o braço e pediu: ‘Recita aquela do ‘entrevistado disse, na entrevista’. Imagine, eu nunca nem tinha visto aquela menina!”. E complementa: “Eu quero ser mesmo um fenômeno pop”. O seu primeiro livro de poemas, que adia há tempos por preguiça, já tem inclusive o título programado: Hits.

Tradições, tendências populares e “alta cultura” se filiam em James e para James. Concordamos que Chico Science era maracatu, rock pesado e hip hop pernambucano, e que dificilmente escutaríamos cada um em separado sem termos ouvido juntos nele. A cisma de Ariano Suassuna dá com uma mão o que tira com a outra. “É só deixar uma tradição tal como está para que ela morra. Uma tradição só se mantém quando muda”. O artista também é aquele que se modifica a cada momento para manter-se, que frustra a espera anterior para criar outra vez. E na dinâmica de reluzir depósitos, de transformar os lixos de fora para vender lá pelo triplo do preço, de colher a realidade imponente mais repleta que a oficialidade lenta, poesia se move nos espaços, “não obscura mas rasa como os pântanos, e sim clara mas funda como o oceano”. Ele sorri com a verdade de sua pieguice: “Eu quero falar muito claro”.

Ainda anotei as frases “João Cabral não voltou à Recife para não morrer de homenagem”, “Salvador é uma terra devastada pela alegria” e “A antropofagia de Oswald e o ‘vocês vão ter que me engolir’ de Zagalo têm tudo a ver”, mas ou não lembro o contexto ou não soube encaixar. Muitas outras eu simplesmente não anotei. E ao fim da tarde, quando eu já havia derramado café sobre a camisa dele e falávamos de amores, o que indicava a hora de irmos, eu lhe pedi: “Declama o ‘entrevistado disse, na entrevista’?”. Na verdade não pedi, mas este meio também cria e a literatura também resolve:

sim

ela é um inteiro de mau caminho

o meu enfarto fulminante

o meu inferno de dante

a minha sim rosa só espinho

pó de pimenta-cominho

sim

a minha bomba H

a minha hora H

meu HCE o meu H²O

meu homem com H

sim meu THC

ela é meu Hard core

a minha bomba de cobalto

ela é o meu beijo no asfalto

é sim o meu si-melhor

é ela o meu peste-seller

a minha cássia eller

a minha rosa só perfume

humano sim demasiado humano

meu mau costume

ela é a pedra no meio do caminho do itabirano

a minha capitu

a minha molly bloom

câncer q vem no bronze

sim

ela é um sol negro de massa escura

do livre arbítrio minha ditadura

ela está perto qdo estou longe

ela ao certo sei q será o meu fim

mas meu coração dispara tiros de revólver

e sim eu disse sim eu quero sim

(Saulo Dourado)

Sobre Saulo Dourado

Saulo Dourado é escritor e professor. Ensina filosofia e publica contos em periódicos e portais. Venceu dois prêmios literários e um edital de criação. Também se envolve com materiais didáticos e com a coleta de provas para os casos que conta, os quais jura ter testemunhado.
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