Em 25 de setembro de 1849 Lucas da Feira, o mais célebre bandido de seu tempo, foi enforcado num patíbulo erguido no campo do gado de Feira de Santana. A justiça baiana cumpria assim a pena de morte, instituição que vigorava para situações excepcionais; uma delas era a convicção de que o condenado, pela extensão e gravidade de seus crimes, não tinha mais como ser recuperado para a sociedade.

A pena de morte tinha antecedentes extrajudiciais em nossa terra, oficialmente realizada pela primeira vez em 1549 quando Thomé de Souza, num rito sumário, determinou que o índio a quem se atribuía o assassinato de um branco fosse despedaçado em praça pública. O nosso primeiro Governador não hesitou em ordenar que o baiano-tupinambá fosse amarrado à boca de um canhão para ser explodido pelos ares, cruel execução que impressionou os gentios e esse era justamente o propósito.

Lucas da Feira foi condenado à morte, não tanto pelos crimes a ele atribuídos, mas principalmente pelo que representava no imaginário das elites de seu tempo: um bandido no estilo épico que sertão adentro, durante vinte anos, brincou de gato e rato com a justiça, rompendo cercos policiais enquanto roubava gado, assaltava fazendas, sequestrava e estuprava moças. Uma delas, Maria Romana, estava com ele quando o comparsa Cazumbá informou à policía seu esconderijo nas matas à margem do Jacuipe. No interrogatório do delegado Leovegildo Filgueiras, Lucas admitiu o rapto de inúmeras donzelas, mas garantiu nunca ter matado as meninas.

“O Salteador” era a sua alcunha, característica de um estilo de atacar as vítimas de surpresa. Segundo testemunhos de época liderava um bando de quatro facínoras e na sua longa vivência pelas matas teria cometido crimes bárbaros. Em juizio, porém, declarou que “não se lembrava que de caso pensado  matasse alguém senão a dois individuos que andavam com falsidades e fortuitamente a um moleque que acompanhava a dois homens sobre os quais com o seu companheiro atirara; fazendo fogo outras vezes logo sobre pessoas de que desconfiava que o perseguissem, ou em represália aos tiros disparados por viandantes mais ousados e zelosos da bolsa”.

Lucas da Feira foi preso na mata, enviado para Cachoeira onde teve o braço ferido amputado e em seguida removido para Salvador. O braço espetado por espinhos de mandacarú foi exibido como troféu e o crânio enviado ao respeitadíssimo Dr Jonatas Abott para estudos sobre o DNA do crime a partir de análises osteológicas.

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