Carnaval Antigo Na foto:Cliff e Gil recebem bênção de mãe de Santo no Afoxé Badauê Foto: Arquivo A Tarde Data: 26/02/1980

O Badaué não sobreviveu para contar a sua própria história, desfilou na Avenida entre 1979 e 1992, não há sequer registros de sua existência na busca do Google, nem texto, nem imagens, este post é agora a única referência, mas nenhum outro bloco carnavalesco desaparecido foi imortalizado em tantas e tão expressivas composições musicais; a sua alma, contudo, vaga ao encontro de sua identidade perdida.

O “Mensageiro do Céu” ecoou para além do horizonte na voz encantadora de Clara Nunes entoando os versos do Ijexá de Edil Pacheco e Paulo César Pinheiro: “Filhos de Ghandy/Badaué/Ilê Ayê/Malê de Balê/Oju Obá”. E foi eternizado nos versos da música de Antônio Riserio e Moraes Moreira: “Toda a cidade vai navegar/No mar azul Badauê/Fazer tempero, se namorar/Na massa do massapé”. Caetano Veloso homenageou o “Moço lindo do Badaué/Beleza pura” e em Sim/Não rendeu-se a seus encantos: “No badauê (badauê)/Gira princesa, primeira beleza/ Amor em mim/No badauê (badauê)/Os orixás nos saudaram com o sim/sim/Afoxé, jeje, nagô.”

Os novos baianos também imortalizaram o bloco do azul do mar no refrão “Malembá, Nanaué/Malembá, Badaué” da faixa “Aganju” de Baby e Pepeu e até a Banda Eva se encantou com a mística do bloco, em tempos recentes, com Saulo Fernandez cantando “Sou tambor em movimento/Se estou perto de você/Sou aberto/Sou do mundo/Vi Batuque Badauê”.

Chamado de Mensageiro do Céu, ou, Mensageiro da Alegria, o Badaué foi o afoxé mais em evidência do Carnaval baiano, um Afoxé-Pop como queria Gilberto Gil, ou, na definição de Risério um Neo-Afoxê ao lhe pontuar as diferenças em relação aos tradicionais como o não vínculo com terreiros de Candomblé, a dança mais solta, repertório próprio e a renovação do figurino ano-a-ano. Viveu alto e baixos, dias de glória e de melancolia. Em 1981 desfilou com dois mil figurantes, no seu ocaso contava-se de boa vontade 50 integrantes.

O compositor Moa do Catende foi a sua principal liderança junto com Didi. Nelsinho, Jorge Sacramento, Edinho e Tremedeira. Cabe aqui mencionar Aguinaldo Silva um dos compositores do bloco, autor de inúmeras marchas e sambas interpretadas nos carnavais dos bairros das emissoras de rádio locais.

Em 1981 Gilberto Gil convidou o cantor jamaicano Jimmi Clif para desfilar no Badaué. Ambos vestiram a camisa do bloco por baixo e mortalha do Ilê Ayê por cima e posaram para esta foto com Mãe Merinha do Portão, ela exibindo o figurino estendido no colo. No fundo, entre os felizes papagaios de pirata, o argentino Fernando Noy, agitador cultural, exibe orgulhoso o colar do bloco.(Nelson Cadena).

Afros e Afoxés da Bahia - 1988 - V.A.

Complementando meu texto transcrevo texto do escritor e jornalista Vander Prata, um trecho de seu livro sobre Clarindo Silva: “O Dom Quixote do Pelourinho”:

Quando Gilberto Gil voltou do exílio em Londres, e foi passar o carnaval na Bahia, reencontrou o afoxé Filhos de Gandhy agonizando. Filiou-se ao bloco de suas memórias da infância, e gravou uma música alinhadora de um novo tempo para a entidade e para a própria nova sonoridade na MPB. Uma canção antológica:

– Omolu, Ogum, Oxum, Oxumaré, todo o pessoal/Manda descer pra ver Filhos de Gandhy /Iansã, Iemanjá, chama Xangô,Oxossi também/Manda descer pra ver Filhos de Gandhy /Mercador, Cavaleiro de Bagdá/ Oh, Filhos de Obá/Manda descer pra ver Filhos de Gandhy/Senhor do Bonfim, faz um favor pra mim /Chama o pessoal/Manda descer pra ver Filhos de Gandhy/ Oh, meu Deus do céu, na terra é carnaval/Chama o pessoal/Manda descer pra ver Filhos de Gandhy..

É neste ambiente que surgiu o Ilê, e logo depois outro  bloco que vai ditar novos comportamentos musicais e carnavalescos, o Afoxé Badauê, fundado em 1978 por jovens moradores do Engenho Velho de Brotas, liderados por Romualdo Rosário da Costa, Mestre Moa do Katendê, um dos mais expressivos poeta-músico da sua geração, mais o percussionista Jorjão Bafafé e o apoio febril de Geraldo Badá, entusiasta do afoxé. O Badauê levou para a avenida a expressão da alegria da juventude negro mestiça de Salvador, e uma grande novidade, não precisava ser negro, como no Ilê, para sair no novo afoxé. Uma composição de Mestre Moa do Katendê, de letra curta e algo enigmática, gravada por Caetano Veloso, anunciava a boa nova:

Misteriosamente/ O Badauê surgiu/Sua expressão cultural/O povo aplaudiu/

Sem perder as raízes da religiosidade africana, o Badauê se tornou uma entidade afrocarnavalesca que incorporava sem traumas o próprio espírito da negritude baiana, rompendo com os padrões tradicionais do afoxé em aspectos básicos: não estava ligado a nenhum terreiro de candomblé. Regra geral, os afoxés procuram manter ano após anos, os mesmos modelos do vestuário, os Filhos de Gandhy até hoje só usa o branco predominante. O Badauê não, usava azul, amarelo e branco, (as cores de Ogum, Oxum e Oxalá), variando a estamparia a cada carnaval. Sua dança é mais solta dos padrões, mais livre do que a dos afoxés tradicionais. O Badauê permite a participação de homens, mulheres, de quaisquer idades ou raças. Liberou geral. Mas foi preciso ter antes o radical Ilê para que nascesse o Badauê. Foi porém no terreno musical que o Badauê mais se destacou. As letras das músicas, em vez de expressarem a porção religiosa ou histórica de heróis ancestrais da Mãe África, faziam apologia à estética negra, sintonizadas com os movimentos mundiais de afirmação racial. Ninguém cantou tão bem o Afoxé Badauê quanto o próprio Caetano Veloso, o padrinho de fé do afoxé. A música Sim e Não, parceria dele com Edu Gonçalves (Bolão) é exemplar da nova postura de orgulho da negritude baiana:

– No Badauê, (Badauê)/ Vira menina/macumba, beleza, escravidão/No Badauê/(Badauê)/ Toda grandeza da vida no/sim/não/ No Zanzibar (Zanzibar)/ Essamenina bonita botou amor em mim/ No Zanzibar (Zanzibar)/Os orixás acenaram/com o não/sim/ Afoxé, jeje, nagô/ /iva a princesa menina, uma estrela/Riqueza primeira de Salvador…

O sucesso nacional de Beleza Pura, outra composição de Caetano Veloso, consolida a sonoridade do Badauê no cenário da MPB, e a relevância dos blocos e afoxés de negros nas transfigurações estéticas e sonoras dos carnavais baianos:

– Não me amarra dinheiro não!/ Mas elegância/Não me amarra dinheiro não!/Mas a cultura/ Dinheiro não!/A pele escura/ Dinheiro não!/ A carne dura/Moço lindo do Badauê/ Beleza Pura!/ Do Ilê-Aiyê/ Beleza Pura…

Em 1979 acontecerá o encontro entre o afoxé e o trio elétrico, com a música Assim pintou Moçambique, de Moraes Moreira e Antônio Risério, desencadeando um novo processo, o afoxé eletrizado da música baiana atual. Black is beautiful. O moço lindo do Badauê, beleza pura!   (…)

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