Semana Santa. Aquarela de Debret

Semana Santa. Aquarela de Debret

O espetáculo era o cerne das manifestações religiosas do período da Quaresma na Bahia, no século XIX e antes disso, e que culminavam com as procissões da Semana Santa, espetaculosas tanto quanto era preciso envolver e impressionar os fiéis.

A procissão da quarta- feira de cinzas inaugurava o ciclo festivo. O historiador Silva Campos colheu de um folheto de 1861 a descrição deste evento, que a exemplo do Carnaval, contava com carros alegóricos e alas temáticas; descreve as alegorias da árvore do paraíso com a serpente enroscada; Adão e Eva arrodeados de querubins; a morte portando uma caveira na mão; os mártires de Marrocos acorrentados; o Rei David com seus vassalos, dentre outras figurações. O público participava, ora como penitente, ora carregando tochas, ou, ostentando figurino de anjo e outros símbolos.

Era uma procissão espetaculosa e irreverente como a descreveu o célebre viajante francês La Bardinais (1870) que foi além nas suas considerações: “padres e frades fazem sinais misteriosos às senhoras… Censuro a intenção dos flagelados que de um ato piedoso fazem intenção de namoro”.

Muitas eram as procissões quaresmais (Cinzas, Enterro do Senhor, Fogaréus, Senhor da Cruz, Via Sacra, Senhora das Dores, …) mas, a do Triunfo que começa a ser realizada em 1762 era a maior e mais concorrida de todas, destacava-se pelo luxo, imponência, representatividade e custos, a mais onerosa para a Ordem Terceira Dominicana e o governo que alocava uma verba no orçamento para custeio. Ocorria no Domingo de Ramos à tarde, e a partir de 1819 passou a ser realizada no Domingo de Páscoa. São João Baptista com o cordeiro, Sansão com as portas de Gaza, Judite com o estandarte do exército de Nabucodonosor, David e sua corte, a cabeça de Golias, Moisés com as tábuas da Lei, eram as representações alegóricas mais em evidência no cortejo litúrgico..

O Triunfo roubava todas as atenções. Era um personagem com o rosto coberto,ostentava capa de veludo encarnado e empunhava uma bandeira com os dizeres ‘Este é o Triunfo com o qual a nossa fé venceu o mundo”. Representava a vitória do Cristianismo. Seguiam-no os meninos órfãos de São Joaquim, anjos, sacerdotes e membros das comunidades religiosas e na sequência milhares de pessoas vestindo os seus melhores trajes, roupas feitas para a ocasião. A Bahia celebrava a sua Semana Santa da forma mais espetaculosa possível, quase carnavalesca, irreverente, foi a forma que a igreja encontrou para popularizar e difundir as liturgias de rua de inspiração lusa.

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