A micareme parisiense foi a inspiração

A micareme parisiense foi a inspiração

As fortes chuvas que quase inviabilizaram o Carnaval de 1913 foi o pretexto para a realização, naquele ano, da primeira micareta de Bahia, uma iniciativa da mídia, três jornais diários de Salvador, que em parceria com alguns clubes carnavalescos reeditaram entre nós a Micareme parisiense, embora num outro contexto. O evento ocorreu cinco anos após a realização da micareta pioneira do Rio de Janeiro, realizada em 1908, organizada pelo Clube Carnavalesco Tenentes do Diabo com apoio da revista Fon-Fon e alguns jornais diários da capital, a Gazeta de Notícias em especial.

Já se cogitava e tentava fazer Micaremes desde 1907, iniciativas sem maior pluralidade e repercussão, em Friburgo e Niteroi e, na Bahia consta que em 1912 um grupo de foliões organizou um préstito muito simples e exclusivo de uma agremiação em Jacobina. Suponho eu que o impulso definitivo para a ideia de introduzir o modismo entre nós tenha sido a exibição do filme “A Micareme em Paris” em salas de cinema de algumas cidades, em 1907.

Os jornais baianos apresentavam um discurso contraditório: ao mesmo tempo em que destacavam a origem popular da Micareme, na Europa organizada por grupos laborais, promoviam a festa entre nós para a elite baiana, tanto que lamentavam a ausência nas primeiras edições dos clubes Fantoches de Euterpe e Cruz Vermelha que não queriam arriscar um desfile menos suntuoso. A Micareme baiana nasceu com dois dias de eventos, o sábado de Aleluia e o Domingo de Pascoa e mais tarde incorporou a segunda feira.

No sábado eram realizados os bailes masquês fechados em residências, dentre elas, as do Dr. Urbano Pires de Carvalho e Albuquerque e Augusto Maia Bitencourt e, nos clubes, bailes à fantasia no Botafogo, Caixeral, Politeama e Euterpe. O cine Jandaia promovia uma revista musical. Nas ruas o ponto alto era a malhação do Judas. O boneco recheado de fogos de artifício, vestindo chapéu e casaca, desfilava pela Rua Chile até São Pedro, num carro conversível para depois ser queimado na Praça Castro Alves entre grande algaravia da multidão presente. Era o dia, também, reservado às batalhas de confetes e serpentinas e no ensejo esgotavam-se os restos do estoque de lança-perfumes, sobras do Carnaval.

A micareta de Feira de Santana é a mais antiga do país entre as que sobreviveram, realizada em 1937 pela primeira vez

A micareta de Feira de Santana é a mais antiga do país entre as que sobreviveram, realizada em 1937 pela primeira vez

No dia seguinte é que se dava o desfile dos clubes com seus carros alegóricos e em especial dos corsos e das pranchas de bonde com animados foliões. Rosas de Momo, Rosas de Abril (das famílias Tourinho e Spínola) Pierrots Lilázeis, Joqueis, Crisântemos, Violetas, Ciganas eram as pranchas mais assíduas. E entre os clubes carnavalescos o destaque era da União Japonesa que desfilava com 15 cavaleiros montados em corcéis, na guarda de honra; Trocistas Carnavalescos; Paus D’Água e há referências da charanga da União Africana que saia da Rua da Lama. E mascarados, liberados por portaria da Intendência, se multiplicavam nas ruas dando um toque original e espirituoso ao evento. Na contrapartida social os açougues, por solicitação da comissão organizadora, distribuíam até 500 quilos de carne para os pobres.

A Micareme baiana chegou a ter uma publicação com esse nome editada por Abílio Bensabath e em 1935 passou a ser denominada de Micareta após concurso realizado pela Associação dos Cronistas Carnavalescos, liderado pelo jornalista Amado Coutinho, com apoio da ABI e de alguns jornais. A escolha se deu em consulta popular mediante o preenchimento de cupons publicados na imprensa diária e na revista Única. A expressão micareta que juntou as palavras Micareme e careta, se sobrepôs às outras alternativas postas na lista: “refolia, arlequinada, carnavalito, festa outonal, mascarada, bicarnaval, precareme, brincadeira e remate”. E foi assim que a Bahia contribuiu para substituir em todo país e em definitivo o galicismo Micareme pelo baianíssimo Micareta. (Nelson Cadena).

Artigo de minha autoria publicado na versão impressa do jornal Correio* em 13 de abril de 2017

Micareta de Jacobina nos anos 30

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