Avenida Bonocô

Avenida Bonocô/Mario Leal Ferreira.

Os baianos não fazem a menor questão de gostar das denominações de ruas e avenidas e mesmo praças e equipamentos urbanos que ostentam nomes de personalidades, preferem os toponímicos, ou, nascidos da verve popular, ou, então, popularizados pela mídia antes mesmo do início das obras, com raras exceções. Temos dificuldades em assimilar essas certidões de batismo conferidas através de Lei Municipal em algum tempo cronológico e circunstâncias que assim recomendavam. Homenagens, estas, algumas justas, outras apenas para puxar aquilo dos poderosos de plantão, ou, no ensejo de uma comoção coletiva pelo falecimento, quase sempre inesperado, de alguma personalidade.

Me parece que a primeira rejeição dos baianos foi ao nome da Rua José Joaquim Seabra, que então homenageava o ministro de viação e obras do governo Hermes da Fonseca. Mesmo Seabra sendo o mais poderoso político baiano das duas primeiras décadas do século XX, os baianos continuaram a chamar a rua de Baixa dos Sapateiros e fim de conversa. Ary Barroso, com a sua música em referência, contribuiu mais tarde para cristalizar essa escolha. Após quis se homenagear um dos mais queridos governadores da terra, Octávio Mangabeira, com certificados de batismo da Avenida Oceânica, a Orla, e do Estádio da Fonte Nova. Nem um, nem outro, pegou, a despeito de sua grande popularidade. Ficou Orla e pronto e Fonte Nova e nada além.

Início da construção da Avenida Paralela/Luis Viana Filho

Início da construção da Avenida Paralela/Luis Viana Filho

A partir da década de 70 construiu-se a Avenida Paralela que já era Paralela, nas reportagens dos jornais, desde a primeira basculante no canteiro de obras e não adiantou homenagear o ex-governador Luís Vianna Filho, que continuou a ser Paralela. Do mesmo jeito a Avenida Contorno que já era Contorno desde quando Theodoro Sampaio imaginou fazer uma ligação entre o Comércio e a Barra, continuou a ser, de nada valendo a homenagem a Lafaiete Coutinho. E pela mesma época tentou se reconhecer tardiamente o mérito do competente urbanista Mario Leal Ferreira, rebatizando com o seu nome a Avenida Bonocô; esforço em vão, continuou sendo Bonocô. E bem mais tarde gorou a tentativa de popularizar o nome do mestre Afrânio Peixoto, como nova denominação da Suburbuna que já era Avenida Suburbana desde antes da sua construção.

Se os baianos rejeitam nomes de personalidades da terra que dirá os de personalidades de outros estados, ou, países. Homenagear Simon Bolivar na rua principal de acesso ao finado Centro de Convenções para agradar aquele cidadão, campeão de antipatia e truculência, Hugo Chavez, foi um acinte e o povo assim entendeu. Foi despropositado também homenagear Mario Andreazza e Leonel Brizola, com nomes de viadutos importantes, ainda bem que ninguém lembra disso e os ditos viadutos são apenas viadutos, para o povo, sem nome, melhor assim. E nem vingou a tentativa de denominar o Campo da Pólvora de Praça D. Pedro II. Continuou a ser da Pólvora.

Uma exceção que não encontrou resistência dos baianos foi a denominação da Avenida Garibaldi em homenagem a Anita, um personagem muito distante de nossa história. Estranho que isso tenha ocorrido na década de 70, entre legisladores bem informados, não sei as circunstâncias, se foi para puxar aquilo dos Italianos como se puxou o dos chilenos quando em 1902 se mudou o nome da Rua Direita do Palácio para Rua Chile. Seja o que for, essa qualificação deu certo. Se o nome Avenida Garibaldi ficou é porque não tinha referência Toponímica anterior. Era rua do nada e por tanto poderia ser Garibaldi como qualquer outra coisa. (Nelson Cadena)

Publicado originalmente no jornal Correio em 28/04/2017

 

 

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