Feira velha 1861 (2)

Estação de trem construída no local onde funcionou a Feira de Catuame/Dias D’Ávila. Foto de Benjamim Mudlock, 1861.

Toda quarta feira um burburinho tomava conta de Capuame, um entreposto para o comércio do gado, localizado a oito léguas de Salvador; era o dia da semana em que os fazendeiros e vaqueiros do alto sertão e de localidades mais distantes, aportavam com seus rebanhos, de encontro aos compradores e no mesmo local fiscalizava-se a compra e venda e pagavam-se as taxas estipuladas pela Coroa.

O entreposto de Capuame, denominação Tupy que designa uma árvore da região, é o hoje município de Dias D’ Ávila que nasceu como uma feira de gado, uma das mais importantes da américa portuguesa e dois séculos após, tornou-se referência de uma prestigiada estação de águas.

E foi precisamente a abundância de águas e de pastos, além da localização próxima da capital, que levou o governo provincial a estabelecer no local um ponto comercial e de regulação do comércio do gado vacuno. A localidade já era desde meados do século XVII ponto de parada e arrebanhamento das boiadas e a partir de 1727 seria oficializada como uma feira de gado que funcionou aproximadamente até 1830 quando o comércio bovino foi centralizado em outra feira, a Feira de Santana.

Capuame, naquele tempo, era um povoado com não mais de 300 casas, mas o burburinho das quartas feiras acabou atraindo uma gleba de comerciantes interessados em vender seus produtos aos fazendeiros; ganhadeiras; seguranças armados; cozinheiras; locatários de casas e quartos para pernoite e seguramente prostitutas, previsível nessas aglomerações de homens, muitos deles viajantes de duas, três, ou mais semanas pela mata adentro. De modo que a quarta feira dos negócios oficiais estendia-se por mais alguns dias.

Feira do gado em F. de Santana

Feira do gado em F. de Santana

O comércio de carne, assim como o de farinha era estratégico pela Coroa e daí as rígidas normas e a constante tentativa de regular essas atividades para se evitar o contrabando, a especulação, monopólios. Esse era o discurso. Na prática burlava-se a Lei e havia privilégios, digamos prioridades, na distribuição tanto no celeiro público como nos açougues. Por falta de carne, ou o elevado preço do produto, o povo encostou o governo contra a parede em várias ocasiões. O motim de 1858 que passou para a história como “Carne sem osso, farinha sem caroço”, é um exemplo disso.

Foi por falta de carne e de farinha, na impossibilidade de alimentar suas tropas, que o General Madeira perdeu a Guerra da Independência para os baianos, em 1823. Na ocasião a Feira de Capuame teve um protagonismo decisivo. A milícia negra dos Henriques cortou o suprimento de gado de Capuame, ao ocupar as terras altas de Pirajá, ponto de passagem das boiadas. Logo mais o General Labatut ocuparia Capuame e assim nenhuma rês chegaria ao matadouro, deixando a cidade e as tropas lusitanas sem carne.

 

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