Sem título (2)

O jornal “A Verdadeira Marmota” de Próspero Diniz, editado inicialmente em Salvador e após no Rio de Janeiro, em meados do século XIX, dava lições de moral aos baianos. Pontificava sobre a castidade que no seu entender deveria ser praticada no dia a dia e dizia não se trata apenas de evitar a libidinagem. O redator elencava alguns costumes e hábitos que julgava inadequados:

“Há falta de castidade andarem algumas senhoras em público com vestidos muito decotados aparecendo as raízes dos peitos e ainda maior falta de castidade irem aos bailes e funções com barriga crescida de prenhez”.

“É falta de castidade algumas pessoas indiscretas pedirem aos conhecidos, na sala diante de gente, que emprestem o seu cachorrinho de raça para cobrir uma cadelinha que tem em casa e está no cio”.

“É falta de castidade andarem alguns petimetres sem vergonha de calças muito justas e sobrecasaca bem apertada para parecerem bem feitos de corpo”.

“É falta de castidade e muito estupida pedir tabaco às crianças”.

“É falta de castidade e muito franciscana tomar banho salgado nu em praias onde há casas na vizinhança”.

“É falta de castidade irem senhoras ao toilette de um baile e urinarem de longe muito alto que ouve quem está por perto”.

“É falta de castidade, que infelizmente se usa entre nós, por causa dos infames introdutores de africanos, surrar escravos nus em pelo, diante de meninos e moças de família”.

“É falta de castidade estender nas ruas para enxugar camisas de mulher, ceroulas e meias curtas de homem, tudo no mesmo lugar, misturado”.

“Também é falta de castidade as tais valsas puladas onde qualquer bigorrilha agarra uma senhora, e vai rodar com ela, tendo o gostinho de apalpar-lhe a cintura”.

“Outra falta de castidade bandalhesca, usam os frades que vão dizer missas pelo Natal nas casas do Recôncavo, pondo-se de timão sem ceroulas, deitados a fio cumprido nas marquises e bancos, entre as famílias”.

“É falta de castidade muito tola estarem certos maridos que querem se inculcar ternos e bem casados, a darem beijos nas mulheres, diante dos filhos já crescidos e dos escravos da casa”.

O redator também enquadrou na categoria de falta de castidade os chamados jogos de prendas onde os castigos eram beijos e abraços e alertava: “O inconveniente que há é terem  nesses brinquedos já algumas moças saído prendadas demais e outras tem saído tão boas discípulas que ainda depois de casadas dão prendas aos maridos”. E concluía com o mesmo espírito de ironia:: “esses jogos são excelentes para se entreter, uma noite alegremente, e de patuscada, e muito mais quando os donos da casa estão fora, ou, estão dormindo”.

O redator não imaginou que no seu século XXI e bem antes disso o seu breviário moralista seria motivo de riso, na melhor das hipóteses de curiosidade da moral vigente no seu tempo.(Nelson Cadena)

 

 

Pin It on Pinterest

Share This
Leia o post anterior:
Nos 470 anos de Salvador os 470 anos da primeira diáspora

A primeira diáspora dos habitantes da futura Cidade da Bahia ocorreu na última semana de abril de 1549 ; então, Diogo Alvarez-Caramuru,...

Fechar