Gazeta

Numa noite de verão de 1866, na tertúlia semanal organizada na sua residência pelo Dr. John Ligertwood Paterson, sócio-proprietário do Hospital Britânico e colaborador do Hospital da Santa Casa de Misericórdia da Bahia, sete médicos presentes decidiram fundar uma revista científica para divulgar suas experiências clínicas e descobertas, em especial sobre doenças características dos trópicos, pouco conhecidas pela literatura médica. Era plantada a semente da Gazeta Médica da Bahia, lançada em 10 de julho do ano referido __ com periodicidade mensal___ que viria a ser a mais importante revista científica do país no seu tempo e também admirada na Europa.

A Gazeta foi uma iniciativa do Dr. Paterson, José Francisco da Silva Lima, Otto Wucherer, Antônio Januário de Faria, Manoel Pires Caldas, Antônio José Alves (pai do poeta Castro Alves) e Ludgero Rodrigues Ferreira; os dois últimos faleceram ainda naquele ano de 1866, o Dr. Ludgero sequer conseguiu participar das reuniões de pauta. Os Drs. Silva Lima, Januário de Faria, Pires Caldas e Antônio Jose Alves eram médicos do Hospital da Caridade da Santa Casa de Misericórdia. O Dr. Paterson, no ano seguinte, 18 de março de 1867, receberia o honroso título de Médico Honorário daquele hospital pelos bons serviços prestados. Um busto do cientista foi instalado no Largo Da Graça em 1886, ainda hoje pode ser visto no local.

Busto do Dr. Paterson lo Largo da Graça

Busto do Dr. Paterson no Largo da Graça

A estreia

A Gazeta Médica da Bahia não foi a primeira publicação científica do gênero, mas, foi a mais influente e de longa vida nas suas várias faces de existência. Estreou a Gazeta sob a direção do Dr. Virgílio Clímaco Damásio, então com 28 anos de idade; ainda não tinha ingressado na política onde se destacou como senador por vários períodos e governou a Bahia entre setembro e novembro de 1890. Formado pela Faculdade de Medicina, em 1859, apresentou a tese “Emprego terapêutico da eletricidade e do galvanismo”. Tratava dos chamados choques elétricos, preconizados para o tratamento de paralisias, ataques epilépticos, etc.

No expediente de seu número inaugural a Gazeta já previa a publicação de “trabalhos originais” que seria ao longo de sua existência um dos destaques e uma das maiores contribuições científicas do mundo, naquele tempo, ao estudo das doenças tropicais. Os fundadores e colaboradores da revista, nesta etapa inicial, incluindo o próprio Damásio, eram integrantes do que se convencionou chamar de Escola Tropicalista Baiana. Outras seções eram: “registros clínicos”, “excertos da Imprensa médica estrangeira”, “noticiário, “resenha terapêutica”, “esboços biográficos”, “correspondência científica”, “variedades” e mapas nosológicos e necrológicos que hoje se constituem em valiosa fonte de pesquisa em torno das doenças e mortandade dos baianos no final do século XIX, levantamento este por extrato profissional, de raça, sexo e faixa etária.

O editorial de estreia estabeleceu o seu objetivo: “difundir todos os conhecimentos que a observação própria ou alheia nos possa revelar; acompanhar o progresso da ciência nos países mais cultos…” e abria as suas páginas para colaborações de “todos os nossos colegas, desta e de outras províncias… terão sempre francas as nossas colunas para os seus trabalhos, de preferência os de feição teórica, ou meramente especulativa, que, todavia, serão também aceitos com agradecimento”. Os primeiros números foram distribuídos a todos os médicos de Salvador com a recomendação de subscreverem a publicação ou devolvê-la, a partir do segundo número, não havendo interesse em adquirir a assinatura.

Hospital Santa Izabel em foto da primeira década do século XX

Hospital Santa Izabel em foto da primeira década do século XX

O lançamento da Gazeta coincidiu com o auge da Guerra do Paraguai e é claro que o periódico registrou a participação dos médicos baianos nas fileiras do exército. A partir de novembro de 1866 destacou o recrudescimento do beriberi na Bahia e o Dr. Silva Lima publicou um minucioso relato de suas suspeitas e descobertas, com o registro clínico, no tratamento da doença em diversos pacientes da capital e recôncavo. Tanto rendeu o assunto que os artigos reunidos foram editados em livro, pelo autor, em 1872. Outros temas como a febre amarela, a varíola e o cólera morbus, três epidemias de triste lembrança no Estado, mereceram vários artigos na gazeta.

Qualidade gráfica

Foi uma das primeiras publicações baianas (a segunda) a recorrer à litografia para ilustrar suas matérias, não o fez com muita frequência por razões de custo. Na edição de 10 de janeiro de 1867 a revista apresentou uma ilustração que mostrava a deformação no pé direito de um africano, cujo dedo mínimo excedia em duas vezes o tamanho original, a imagem contextualizava o relato médico e o tratamento realizado. Dois meses depois, edição de 10 de março, publicou, para ilustrar matéria sobre as cobras venenosas do Brasil, um desenho com 22 exposições de crânios de ofídios, produzido na Litografia de Jourdan & Wirz.

Mais tarde, na edição de 31/12/1868, registrou o desenho de dois instrumentos cirúrgicos, um irrigador de vesícula e um outro para limpar a bexiga. Em 31/01/1869 mostrou outros instrumentos, versões do litotomo duplo; em maio de 1871 revelou um raro caso de tumor escrotal e em 15/09/1872 desenhos de tumores hipogástricos, em litografias produzidas na oficina de Heráclito Odilon. Ao longo de suas duas primeiras décadas de existência, sempre que recorreu a este expediente, o fez com uma perfeita integração em relação à matéria editorial, o que não era usual, mas, neste caso imprescindível. Sendo uma publicação científica o desenho tinha de ser minuciosamente esclarecedor.

Recursos litográficos para ilustrar um tumor

Recursos litográficos para ilustrar um tumor

Na sua etapa inicial a gazeta contou com três diretores: Virgílio Damásio em 1866; o Dr. Pacífico Pereira de 1867 até 1870 e do Dr. Demétrio Cyriaco Tourinho de 1871 até 1875, ele um dos fundadores do Diário das Bahia, em 1856, o então chamado decano da imprensa baiana. Os dois últimos eram funcionários da Santa Casa de Misericórdia.  Em 1876 reassume Pacífico Pereira como redator chefe, com o Dr. Silva Lima, também um dos fundadores do Diário na função de redator auxiliar. Pacífico Pereira dirigiu o periódico por mais de 40 anos, até 1922 ano em que faleceu; ele e o Dr. Silva Lima foram os grandes alicerces desta revista, foi da lavra do segundo o editorial de estreia da Gazeta em 1866. Estreou com 12 páginas, passou para 16, mais tarde 32 e no final do século XIX já eram 48 páginas por edição.

 Redatores ilustres

Ao completar seis anos de atividades o jornal destacou os seus feitos: gabou-se de ter tido alguns artigos reproduzidos em jornais americanos, ingleses e espanhóis; relevou a importância de estudos inéditos, experimentais, sobre a beribéri, febre biliosa, febre amarela, paludismo, elefantíase, doenças parasitárias, mordeduras de insetos venenosos. Testemunhou e documentou o recrudescimento da epidemia de febre amarela em 1872 e 1873, orientando hospitais e médicos quantos aos procedimentos mais adequados. No plano sanitarista publicou inúmeros trabalhos sobre o tratamento de esgotos, coleta de lixo e condições de salubridade dentro e no entorno das residências.

Com o aumento de número de páginas foi preciso contar com um corpo redacional mais amplo. E o teve da melhor qualidade. Além do Dr. Silva Lima foram redatores efetivos os futuros presidente da província e governador, respectivamente: Drs. José Luiz D’Almeida Couto e Manoel Vitorino; o notável médico, romancista e historiador Afrânio Peixoto; o também médico e historiador Braz do Amaral; os Drs. Juliano Moreira; Silva Araújo, Pacheco Mendes; Alfredo Brito; Aurélio Rodrigues Viana (governador interino da Bahia); Bráulio Xavier Pereira. Todos eles eram funcionários da Santa Casa de Misericórdia, no Hospital da Caridade, ou no Santa Izabel, ou nos asilos que administrava. Também foram redatores Nina Rodrigues; Gonçalo Muniz; Ramiro Afonso Monteiro; Alfredo de Andrade e J. Remédios Monteiro.

Dr. Juliano Moreira, um dos redatores ilustres da Gazeta.

Dr. Juliano Moreira, um dos redatores ilustres da Gazeta.

A publicação teve três faces: a primeira entre 1866 e 1934 com o intervalo de alguns meses em 1871; a segunda entre 1966 e 1972; a terceira com periodicidade irregular, com edição de números esporádicos, praticamente anuais, a partir de 2004 até 2016.

Os pioneiros

Em 1847 a Bahia conheceu a sua primeira revista científica A Gazeta Médica, iniciativa da recém fundada Sociedade de Medicina da Bahia, porém não teve acolhida e logo desapareceu, após a publicação dos primeiros números. Em 1850 surge O Médico do Povo, tudo indica que tenha sido a primeira revista médica especializada em homeopatia do país, redigida pelo Dr. Alexandro José de Mello Moraes, o cirurgião português João Vicente Martins e Sabino Olegário Ludgero Pinho, sergipano, um dos precursores deste ramo da medicina, através da publicação de artigos em jornais e revistas.

O Médico do Povo circulou durante três anos e pretendeu ser uma revista nacional. Ainda em 1850 passou a ter uma edição pernambucana por iniciativa do Dr. Sabino que editou apenas um par de números e em 1852 passou a ser editada no Rio de Janeiro. Os mentores da publicação tinham um plano muito ambicioso, não realizado, de edições do jornal no Maranhão, Pará, Lisboa e Porto.

Ainda no ano referido de 1850 circula em Salvador o “Boletim da Saúde Pública”, redigido por professores da Faculdade de Medicina e em 1856 a Gazeta Médica, redigida pelos Drs. Antônio Barbosa de Oliveira, Inácio José da Cunha, Augusto Barbosa de Oliveira e Rutilio Palmerino de Bulhões. Em 1860 surge outra Gazeta Médica que desaparece no ano seguinte, não se tem informação sobre seus promotores. E em 1866 nasce a Gazeta Médica da Bahia, um periódico que teria extraordinária acolhida dos mais importantes centros médicos do país e do exterior e que pode ser considerada a revista científica de maior credibilidade no seu tempo.

Nina Rodrigues redigiu a revista Medicina Legal

Nina Rodrigues redigiu a revista Medicina Legal

Outras publicações

Outros títulos da imprensa médica a considerar são: Entre os especializados em homeopatia: A Gazeta Homeopática (1883) Revista da Sociedade Homeopática (1884) e o Médico do Povo (mesmo título do que circulou na década de 50) também em 1884. O Dr. Silvino de Moura, médico homeopata e um dos maiores divulgadores da doutrina espírita na Bahia, foi o redator dessas publicações. O curso de farmácia contou com O Germen, lançado em 1870 com direção de Moura Junior e Leónidas Damásio.

Os dentistas contaram com a União Dentária, em 1883, redigido por Manoel Bonifácio da Costa (redator-chefe) fundador em 1908 da Sociedade Odontológica da Bahia; João Loureiro e Cerqueira Lima. Jornal especializado em cirurgia, prótese dentária e moléstias da boca. Em 1887 circulou o Boletim Geral de Medicina e Cirurgia, com redação de Deocleciano Ramos, Bráulio Pereira e Alfredo Brito, os dois últimos também redatores da Gazeta Médica da Bahia e funcionários da Santa Casa de Misericórdia. Em 1891 surge a revista científica, com periodicidade quinzenal, Gazeta Acadêmica, redigida por Santos Silva e Duarte Gameleira.

A medicina Legal teve a Revista Médico Legal, criada em 1905 e que se manteve durante dois anos, com redação de Nina Rodrigues e outros colaboradores e obteve reconhecimento nacional pela qualidade e originalidade dos trabalhos científicos publicados. No mesmo ano surge a Tribuna Acadêmica redigida também por Nina Rodrigues e por Almachio Diniz, editou apenas alguns números. E em 1906 circulou a Bahia Médica, revista dirigida pelos Drs. Raul de Medeiros e Inácio de Menezes que circulou durante um ano. Nenhuma das publicações referidas, entretanto, teve o alcance e influência da Gazeta Médica da Bahia. (Nelson Cadena)

Artigo de minha autoria publicado originalmente na Revista Científica do Hospital Santa Izabel, edição de janeiro a março de 2019.

 

 

 

 

 

 

 

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