O hotel se gabava de oferecer os melhores sorvetes da Bahia

O hotel se gabava de oferecer os melhores sorvetes da Bahia

Na noite de 7 de abril de 1912 o Palácio da Aclamação abriu suas portas para recepcionar o corpo legislativo com um magnífico banquete dançante encomendado pelo recém empossado governador José Joaquim Seabra, presente a mais alta sociedade baiana, mais de uma centena de senhoras e senhoritas e do lado de fora outro tanto de curiosos. Destacavam-se no ambiente os carrinhos de sorvete que o Dr. Mario Imbassahy, responsável pelo buffet, encomendara na Alemanha para servir dois mil sorvetes, doces finos e chocolates. O maestro Mário De Vecchi, ao piano, revezava-se com as duas orquestras que animaram o baile até as duas horas da manhã.

Naquele tempo festa no capricho deveria ter sorvetes finos, serviam-se junto com os doces e chocolates que nunca faltavam na sobremesa. E Seabra, pelo visto era um apreciador, desde o tempo em que residia no Rio de Janeiro; empossado Ministro do Interior, em todas as recepções de sua pasta os jornais sempre destacavam o bom serviço de sorvetes.

carrocinha de sorvetes em 1919

Carrocinha de sorvetes em 1919 no Rio de Janeiro

O hábito dos baianos de degustar sorvetes tinha um horário, assim como o chã das cinco dos ingleses. O nosso era no por do sol. Os famosos sorvetes do Chalê Parisiense, no Campo Grande, eram servidos pontualmente às 18 horas. Os sorvetes servidos aos frequentadores do Cinema Ideal (1915) ou do Kursal baiano (1919) que depois se tornou o cinema Guarany, também tinham esse horário como referência. Era hábito muito antigo: em 1840 o Hotel da França no Comércio servia sorvetes aos frequentadores do espaço, às 18 horas também. Penso que a dificuldade de conservar o produto, sugeria esse final da tarde, tempo mais ameno e ares mais frescos.

Em finais do século XIX o Restaurante Ferreira na Rua do Palácio, famoso pelas suas gemadas, caprichava nos sorvetes de creme (preparados com leite de Itaparica) e de frutas da estação, no início da noite, antes do pianista da casa iniciar a sua apresentação. Pela mesma época o Restaurant Cosmopolita que oferecia deliciosas cajuadas e finos vinhos do Porto passou a vender sorvetes no início da noite. O Coronel Ulysses de Castro, proprietário do Hotel Paris que ficava do outro lado da rua do Hotel Sulamericano na subida de São Bento, era um entusiasta do produto, servia-os no fim de tarde, sorvetes de diferentes frutas, na melhor tradição baiana.

O Chalê Parisiense no Campo Grande servia sorvestes às 18 horas.

O Chalê Parisiense no Campo Grande servia sorvetes às 18 horas no seu andar superior.

A chegada das primeiras máquinas de preparar sorvetes na década de 1860, fabricadas nos Estados Unidos, e mais tarde na década de 1890, das chamadas geladeiras portáteis, impulsionaram a fabricação e venda de sorvetes. O sorvete de rua, no século XIX, era vendido na Rua do Corpo Santo e outros pontos próximos do Porto, e em inícios do século XX pelos sírios que dominavam boa parte do comércio ambulante na cidade. Depois foi assumido pelos baianos. Não era higiênico. Usava-se um mesmo copo e uma mesma colher, “lavados” em um balde de água, a cada novo freguês. Sorvetes de duvidosa procedência como os geladinhos de gelo raspado que mais tarde fariam a alegria de muitos jovens e adolescentes.

Os africanos nos legaram a culinária baiana a sal, os portugueses as sobremesas, uma variedade de doces imensa, e os sorvetes? Os de creme e morangos podem ter tido influência francesa e portuguesa, nessa ordem de prioridades, mas os de frutas da estação servidos nos melhores hotéis, restaurantes e cafeterias da cidade tinham com certeza um toque baiano, esse meu sentimento de leigo. O sucesso mais tarde de A Cubana (1930) e da Sorveteria da Ribeira (1931), nossas primeiras sorveterias de fato, decorreu justamente dessa incorporação da tradição do preparo artesanal com variedade de frutas. (Nelson Cadena) 

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