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Apesar de tudo a nossa querida Biblioteca Pública ainda sobrevive, tão maltratada desde priscas eras, peço licença aos romancistas e poetas para usar tão lúgubre expressão, neste caso se aplica. Foi em 28 de setembro de 1919, um século já transcorrido, que os baianos celebraram a inauguração do prédio recém construído da Biblioteca Pública que, na data, ganhou uma sede própria. Pela primeira vez os baianos tiveram uma biblioteca para chamar de sua.

Foi inaugurada com a pompa de praxe entre discursos e salvas de uma multidão vestindo linho branco e chapéus na cabeça para se proteger do sol, se acotovelando na Praça Municipal. O prédio ficava na esquina, de frente para o Palácio Rio Branco, fundo para a Rua da Misericórdia, demolido na década de 70 para abrir espaço destinado à construção do chamado Cemitério de Sucupira, no local onde o arquiteto Lelê construiu, em 1986, a atual sede da Prefeitura do Salvador.

Escrevi primeira sede, vocês não leram errado. Fundada em 13 de maio de 1911 pelo governador Conde dos Arcos, a biblioteca viveu de favor, acredite se quiser, durante longos 108 anos. Primeiro num puxadinho do Colégio dos Jesuítas no Terreiro de Jesus, mais tarde, a partir de 1900 andou para lá e para cá; o acervo transportado de qualquer jeito foi parar no térreo do prédio do Senado na Praça da Piedade, logo a casa legislativa se livrou do “trambolho” enviando os caixotes para o prédio do Tribunal da Justiça, que também deu um jeito de se livrar do incômodo; acervo finalmente acolhido, de favor, num puxadinho do Palácio Rio Branco, do lado da balaustrada do mar, os livros expostos ao pôr do sol.

Ali permaneceu até 10 de janeiro de 1912 quando as balas de canhão do Forte de São Marcelo explodiram as paredes e queimaram boa parte do acervo de livros e quase toda a coleção de jornais, no episódio que ficou conhecido como bombardeio da Bahia. O Diário da Bahia calculou o prejuízo em cinco mil contos de reis. Durante sete anos o acervo de livros fedidos e recuperados perambulou por vários endereços, primeiro foi parar num sobrado histórico da Ladeira da Praça; voltou para o palácio incendiado; após foi transferido para uma sala do Arquivo Público e de favor em favor chegamos a setembro de 1919, quando enfim ganhou sede própria.

Era para ser a redenção de nossa biblioteca. Não foi. Faltaram recursos e a boa vontade do poder público; a esperança renasceu quando o Governador Luís Vianna Filho transferiu o acervo para um prédio novo construído com essa finalidade nos Barris, inaugurado em novembro de 1970. De lá para cá, entre altos e baixos, a biblioteca sofreu vários traumas, os mais recentes o leitor bem informado já sabe: a descontinuidade das coleções de jornais, a falta de manutenção do prédio e o sistema de ar condicionado que deixou de funcionar desde 2015, ainda hoje um problema sem solução.

Retomando o fio da meada, o prédio-sede inaugurado em 1919 era um belíssimo exemplar da arquitetura clássica, estilo jônico na sua fachada; a sua porta, magnífica obra de talha executada em peroba-rósea pelo escultor português Joaquim Pereira, hoje é exibida na sede dos Barris. O piso, escadas e forros foram construídos com madeiras do Pará (Cedro, Acupú e Pau Amarelo), obra do engenheiro Eurico Coutinho, vencedor da licitação pública. Encerradas as solenidades de inauguração os baianos celebraram a novidade, a casa própria, enfim uma sede da biblioteca para chamar de sua. (Nelson Cadena)

Publicado originalmente no jornal Coreio * em 27 de setembro de 2019

 

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