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A Prefeitura de Salvador anunciou na semana passada o início de obras do Museu da Música, uma boa notícia para os soteropolitanos pelo que representa como valor agregado: mais um espaço cultural e diferenciado para a cidade com impacto direto no turismo e na requalificação do Comércio. O museu, segundo se sabe, terá dois andares para exposição, um foyer, auditório, oficinas e espaços para ensaios (individuais e de bandas), restaurante, loja e uma lutheria para a fabricação de instrumentos, dentre outros itens de ocupação.

Pena que o prédio não tenha um histórico de sua construção, ou ocupação, mesmo sendo um imóvel tombado individualmente pelo IPHAN em 1969, também é tombado o prédio dos fundos, que a Prefeitura pretende recuperar para instalar o Arquivo Público Municipal. Em levantamento feito pelo IPAC, em 1974, o sobrado já tinha sido descaracterizado, com intervenções que alteraram todo o interior do edifício e parte de sua fachada.

Duas perguntas são pertinentes ao tema? Quem mandou construir e residiu no local? Ninguém sabe até hoje quem foi o proprietário e meu sentimento é que aquilo nunca foi residência e sim um imóvel comercial. Toda a vizinhança era. Quem em são juízo construiria um prédio com 60 janelas voltadas para os fundos da Alfândega, com largura entre 12 a 15 metros apenas, sem área de serviço? Naquela época, os homens ricos de Salvador não moravam mais no Comércio e sim na Vitória, Santo Antônio, Graça. Se fosse residência de um potentado, hoje saberíamos.

Na internet circulam já algum tempo informações inverossímeis sobre o suposto proprietário. Atribui-se a José da Silva Lisboa, Visconde do Cayru. Não faz sentido, o Visconde faleceu em 1835 e a construção é do final do século XIX. Atribui-se também ao Comendador Antônio dos Santos Coelho. Também não faz sentido. O Comendador jamais residiu na Bahia, viveu na Paraíba e no Rio de Janeiro, na capital paraibana foi chefe de polícia e no Rio delegado. O engano se deve ao fato de Santos Coelho ter morado da Casa dos Azulejos de João Pessoa.

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Sobrado dos Azulejos entre 1910 e 1913 e o prédio do fundo (colado) onde funcionou na década de 1920 a Livraria Castro Alves.e onde será instalado o Arquivo Público Municipal.

Então, quem construiu o prédio? Esse é o desafio para os pesquisadores agora que o imóvel terá um uso qualificado. A foto mais antiga do local, do francês Camille Vedanni, 1860, em torno de três décadas antes da construção, nos revela um conjunto de casas de dois andares, e ao lado um hotel, um restaurante e outro estabelecimento que parece um bar. Essas casas foram derrubadas em 1867 para construir a Rua das Princesas, hoje Rua Portugal, esquina do prédio dos azulejos.

Em 1914 foi construída a Praça Cayru, arborizada em 1920 e, em 1934, reformada para a instalação do monumento ao Visconde do Cayru, obra do escultor Pasquale de Chirico. O prédio dos azulejos então já tinha ocupação comercial, provavelmente desde suas origens, vocacionada para os negócios portuários. No sobrado funcionavam a representação da linha italiana dos navios Andrea Zanchi; a linha holandesa Haven Line; escritórios diversos dos vapores Augusta; Cervino, Johshaven, Mar Blanco, Norge, Tara, Towa, e Zitella.

E ainda os escritórios dos despachantes Manuel P. Azevedo, N.F. Macedo, Octavio A. Gomes, Orlando Mattos, Synd Despachos Aduaneiros, agência Machado Vapores e o Instituto de Aposentados Marítimos. Em outras áreas de negócios encontramos os escritórios de Affonso R & Filhos, Felix Veiga, Pharmaclínica e o bar Tic Tac. E na década de 40 a representação da Revista Diretrizes e outra da Gazeta de Notícias. Então, a vista era outra: um conjunto de belos e frondosos ficus que faziam sombra e refrescavam as tardes ensolaradas do verão. (Nelson Cadena)

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