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Semana próxima a mais antiga instituição leiga da Bahia completa 470 anos. Um documento de 14/12/1549 referenda a sua existência no mesmo ano em que Thomé de Souza fundou Salvador. É uma ordem de pagamento destinada “a Diogo Muniz, Provedor do Hospital desta Cidade do Salvador”, o correspondente a 1.800 reis em mercadorias devidos ao marinheiro Estevão Fernandez de Távora, falecido no estabelecimento. A data de aniversário foi oficializada em 1999, pela Mesa da instituição, acolhendo sugestão do Irmão e Definidor da Santa Casa, Jorge Calmon.

Chama a atenção no manuscrito da Biblioteca Nacional o pagamento em mercadorias e não em espécie. No primeiro ano de existência legal de Salvador não havia numerário suficiente para o pagamento de salários e serviços. Eram quitados basicamente com comida, roupa, eventualmente material de construção. O governo devia ao marinheiro Estevão, quando veio falecer, os soldos de junho e julho, doados por ele ao hospital.

O Hospital da Cidade foi a primeira frente de caridade da Santa Casa, mais tarde denominado Hospital de Nossa Senhora das Candeias, Hospital de São Cristovão, Hospital da Caridade, Hospital da Misericórdia e, a partir de 1893, Hospital Santa Izabel. Outras frentes de caridade e filantropia foram agregadas pela instituição: no século XVII, o Recolhimento de Mulheres e Roda dos Expostos e no século XIX o Asilo dos Alienados e Asilo da Mendicidade. Além disso, prestou assistência jurídica e material aos presos, enterrou escravos e indigentes, administrou o Hospital dos Lázaros e o Cemitério da Quinta dos Lázaros. E adquiriu as ruinas__ e reformou___ do Cemitério do Campo Santo.

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Hospital Santa Izabel em foto da década de 1920

Resumindo: a Santa Casa da Bahia cumpriu até inícios do século XX o papel de assistência social que o poder público não estava estruturado para oferecer. Os recursos para o cumprimento dessa missão estatutária vieram de legados em dinheiro e imóveis e de pequenos auxílios do poder público. As receitas do patrimônio imobiliário, no período 1871-1891, cobriam 55% das despesas. As receitas do governo cobriam 8% dos custos. A conta fechava com as receitas do dinheiro emprestado pela Santa Casa a juros (funcionava como um banco), aplicações, loterias e, a partir da década de 1850, do Campo Santo.

Com a depredação e desvalorização do patrimônio imobiliário e o fim dos legados de grandes fortunas, a instituição buscou a sustentabilidade através de práticas de gestão voltadas para esse objetivo. Viveu momentos de penúria, quitou dívidas com imóveis e quase vendeu a Pupileira (1981) para incorporadoras. Obteve o equilíbrio financeiro neste século. Tornou-se uma instituição sustentável, os lucros investidos em ações sociais no Bairro da Paz com o atendimento a milhares de crianças em 7 Centros de Educação Infantil-CEI; no Museu da Santa Casa e no Centro de Memória, acervo de mais de 1.600 livros manuscritos e 300 mil documentos históricos.

Roberto Sá Menezes, atual Provedor, incorporou uma nova frente de operações: a Faculdade Santa Casa da Bahia que abre suas portas em 2020. Nova no formato, não na tradição. A instituição foi pioneira com um Hospital-Escola, desde 1816, também em outras áreas da saúde (escolas de enfermagem) e durante mais de um século manteve creche, externato e internato para ambos os sexos. A educação sempre foi missão no compromisso estatutário da Santa Casa desde suas origens: “Ensinar os ignorantes”. (Nelson Cadena)

Publicado originalmente no jornal Coreio em 06/12//2019

 

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