Terno de Reis da década de 1970

Terno de Reis da década de 1970

A Festa de Reis é uma das mais populares da Bahia no seu sentido original de povo, seu pertencimento sempre foi das camadas mais humildes da população de Salvador e Ilhas em redor, uma das poucas do chamado ciclo de verão que não se originou dos homens do mar: pescadores, jangadeiros, marujos, capitães de barco e traficantes de escravos/proprietários de embarcações. Três das maiores Festas da Bahia (Bonfim, Santo Antônio da Barra e Conceição da Praia, nasceram e foram impulsionadas por este último extrato “empresarial”, se cabe a expressão.

A Festa de Reis era a legítima festa do povo, compreendia um ciclo que se iniciava com a Festa de Natal e, no contexto, as primeiras apresentações dos Ranchos e Ternos e se prolongava até o Carnaval. O marco geográfico e cronológico era a Lapinha, na Epifania. “É o tempo das mangas, das músicas e das mulatas”, assim definiu o período o cronista Mello Moraes Filho. Para não deixar dúvidas quanto a seu caráter popular o folclorista qualificava a composição étnica dos grupos, segundo ele afrodescendentes levavam vantagem sobre o resto e explica porquê: “as ondulações no andar, as mulatas lascivas, o seio por baixo das rendas finíssimas”.

Mello Moraes menciona ainda a participação de Cucumbis na Lapinha, qualifica como Rancho e desqualifica a sua performance musical: “Negros e negras vestidos de penas, rosnando toadas africanas e fazendo bárbaro rumor com seus instrumentos rudes. Dos Cucumbis não sabemos o rumo”.  O que o cronista quis dizer na sua descrição pejorativa, própria da mentalidade da época, é que era um grupo formado exclusivamente por africanos, diferente dos Ternos e Ranchos que eram grupos mestiços; que usavam apenas instrumentos de percussão e não de sopro e de cordas; que não seguiam o figurino dos versos pastoris tradicionais, provavelmente executando cantos de origem Nagó. Quanto à expressão “não sabemos o rumo”, quis dizer não se sabe de que bandas eles vieram, seguramente que dos subúrbios e roças urbanas.

Um dos paineis da Exposição Festas Populares, de minha curadoria, realizada no Shopping da Bahia em 2015

Um dos paineis da Exposição Festas Populares, de minha curadoria, realizada no Shopping da Bahia em 2015

 

Manoel Querino confirma o caráter eminentemente popular das Festas de Reis na Bahia: “É gente de poucos recursos e de humilde condição social. O povo propriamente dito é quem se reserva de celebrar com certo brilhantismo essa passagem da Bíblia tão cheia de ensinamentos e de encantos”. Era a elite que financiava as apresentações de Ternos e Ranchos contribuindo com doações para os figurinos, alegorias, instrumentos, transporte e alimentação, despesas decorrentes dos ensaios e premiações nos concursos promovidos pelos organizadores das festas.

Os grupos se apresentavam em sobrados particulares, coretos e desfilavam nas ruas, para entreter os veranistas, nas festas do Bonfim, Santo Antônio da Barra, Nossa Senhora da Guia, São Gonçalo, Nossa Senhora de Santana no Rio Vermelho, Nossa Sra. Dos Mares de Amaralina, Nossa Sra. da Purificação…

Os Ranchos precederam os Ternos, desapareceram no final do século XIX. Os Ternos Sol do Oriente do Garcia, Estrela do Oriente da Saúde __ que em 1902 desfilou com carro alegórico alusivo ao Egito__ e Estrela D’Alva de Itapuã sã os precursores. Este último inovou introduzindo no desfile o estandarte de veludo, ou de seda, bordado ao ouro, no que doravante foi imitado por outros grupos. A partir de 1910 os baianos viram surgir o Arigofe, dezenas de títulos conquistados, e em 1918 o seu rival, o Bacurau. A torcida, bem ao estilo BA x VI, assumia um lado. Quem não era Arigofe era Bacurau e viceversa. (Nelson Cadena)

Publicado no Correio * em 03 de janeiro de 2020

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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