Foto de Voltaire Fraga. 1950

Foto de Voltaire Fraga. 1950

A imagem do Senhor do Bonfim permaneceu quase dois séculos restrita ao âmbito geográfico de Itapagipe, saiu da península algumas vezes, sempre em procissões pontuais. Em tempos recentes passou a ser incorporada ao cortejo da Lavagem, em 2017 e, neste ano que se inicia, a um préstimo marítimo, conforme já noticiado pela imprensa, coincidentemente, ou não, com saída do mesmo lugar onde o capitão e traficante de escravos, Theodozio Roiz de Farias, aportou em 1745 com a imagem que deu origem ao culto. Cabe lembrar que o capitão residiu num sobrado próximo ao local__ e na mesma rua__ onde foi construído o Elevador Lacerda. Em 1752 fixou residência em Itapagipe.

A primeira vez que a imagem do Senhor do Bonfim saiu da península foi em janeiro de 1823, por imposição dos portugueses, conduzida em procissão até a Igreja de São Domingos, no Terreiro de Jesus. Os livros da Irmandade registraram o evento como um ato de penitência. Naqueles idos, a cidade tinha sido evacuada em função do acirramento da Guerra da Independência e da falta de alimentos, com o bloqueio das linhas de abastecimento. Após a vitória do exército libertador, em 02 de julho do ano referido, a imagem retornou à Colina Sagrada. O episódio inspirou a narrativa de Santos Titara que serviu de base para o poeta Arthur de Salles compor o Hino ao Senhor do Bonfim.

Em 1842, a imagem saiu pela segunda vez, conduzida em procissão até a igreja de São Francisco de Assis, o povo orou pelo fim da seca que atingia os sertões, um flagelo de fome que atingiu parcialmente a capital.  A evocação do Santo para interceder em favor dos baianos provou que a população já considerava o Senhor do Bonfim o seu verdadeiro e legítimo padroeiro, apesar de São Francisco Xavier ser o padroeiro oficial. Mais tarde, em 1855, a imagem foi conduzida pelos fiéis em procissão até a Igreja da Sé, requerendo a intervenção do orago para por fim à epidemia de Colera Morbus que assolava Salvador e o Recôncavo.

Em 1923 a imagem saiu mais uma vez de Itapagipe, em procissão marítima comemorativa do Centenário da Independência da Bahia, transportada na Galeota Gratidão do Povo, em 03 de julho do ano referido. Uma missa solene na Igreja da Vitória foi o ponto culminante do evento.  Anos depois, 1942, a imagem do Bonfim foi transportada durante a Pascoa até a Igreja da Conceição da Praia onde permaneceu cinco dias para o povo orar em favor do fim da II Guerra Mundial, cujos efeitos já se faziam sentir entre nós com o desabastecimento e o impacto do bombardeio de submarinos alemães na costa.

Se deslocou ainda em outras ocasiões solenes: Jubileu de Ouro do Cardeal da Silva, em 1961; no quatricentenário da devoção da Conceição da Praia, em 1965; no tricentenário da Arquidiocese de Salvador em 1976; na visita do Papa João Paulo II, em 1980; nos 250 anos da chegada da imagem, em 1994, e no encontro das imagens do Senhor do Bonfim e Nossa Sra. da Aparecida, na Fonte Nova, em 1996. Todos os deslocamentos da imagem fora da Península ocorreram em datas fora do contexto da festa, apenas em 2017 o Senhor do Bonfim de fato se incorporou ao cortejo.

O transporte do orago em procissão marítima e junto a imagem de Santa Dulce dos Pobres, às vésperas da Lavagem do Bonfim, anunciada para este ano, é novidade e de alguma maneira resgata a tradição do culto que se originou dos homens do mar. (Nelson Cadena)

Artigo de minha autoria publicado no jornal Correio** em 10 de janeiro/2020

 

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