Festa de Yemanjá. Oferendas no mar

Nelson Maleiro, carnavalesco homenageado com o seu nome na passarela do Campo Grande, era presença efetiva nas festas populares da Bahia em especial nas do Senhor do Bonfim e no Rio Vermelho. Na Lavagem do Bonfim comparecia à frente de um grupo musical, uma animada charanga, fotos da década de 60 mostram o carnavalesco tocando saxofone, na cabeça um chapéu de palha para se proteger do sol.

Maleiro também costumava participar do cortejo da Lavagem montando bicicleta, naqueles idos ciclistas, com as suas máquinas decoradas no capricho, compunham o cortejo rumo à colina. Uma fotografia do acervo da família revela o ciclista__ e também o artista__ no contexto de um carro alegórico de sua autoria, ostentando duas moringas gigantes, no meio o protótipo estilizado de uma baiana.

O folião das festas do Bonfim e do Rio Vermelho se permitia essas performances. Afinal, Maleiro na sua oficina da Barroquinha fabricava instrumentos, figurinos, alegorias (criou para o Ghandy) e carros alegóricos para o seu bloco, Cavaleiros de Bagdá, que desfilou pela primeira vez em fevereiro de 1960, por tanto, seis décadas transcorridas, e, também para Os Internacionais, o mais badalado bloco carnavalesco da época.

Maleiro (2)

Maleiro de chapéu tocando saxofone na Lavagem do Bonfim.

Com todas essas habilidades o folião da Barroquinha era presença que não passava desapercebida nas Festas do Rio Vermelho que naquele tempo ainda dividia protagonismo com a romaria marítima em homenagem à Mãe D’ Água que por influência de Jorge Amado, Odorico Tavares, Pierre Verger e os umbandistas passou a ser denominada de Iemanjá. E é ai que Maleiro assume um outro papel na festa, o de criador do presente especial, instituído em 1967, em homenagem à Rainha do Mar, apenas revelado na madrugada de 02 de fevereiro como acontece até hoje.

Foi em 1979 que Nelson Maleiro recebeu dos organizadores da festa a encomenda de confeccionar o presente especial de Iemanjá. Trabalhou não seu atelier com a reserva que o pedido exigia, ninguém podia ver o presente antes de ficar pronto. O carnavalesco confeccionou uma grande coroa de flores prateada com um metro e meio de altura e 40 centímetros de diâmetro, dentro dela um pisca-pisca com efeitos luminosos intermitentes, bem ao seu estilo na confecção de alegorias.

Naqueles idos, os Mercadores de Bagdá e Cavaleiros de Bagdá, agremiações fundadas por ele, não mais desfilavam na Avenida, este fez a sua derradeira apresentação em grupo em 1977, Maleiro sozinho desfilou até 1979, ano da encomenda referida. O Gigante de Bagdá, apelido que ganhou pelas suas performances na TV Itapoan batendo o gongo que eliminava os calouros, em programa de grande audiência, já enfrentava a velhice. Tinha 70 anos. Sofridos pelas limitações financeiras.

O presente especial para Iemanjá foi uma de suas últimas criações. Tombou no ano seguinte, vítima de um AVC, e partiu em 09 de junho de 1982, certamente sob as benções do Senhor do Bonfim e da Rainha do Mar, um dia simbolicamente coroada e iluminada por ele. (Nelson Cadena)

 

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