Maino-batalha-bahia

Pintura da recuperação da Bahia de Todos os Santos de Juan Batista Maino, do acervo do Museo del Prado-Madrid

A data não é apenas referência da fundação da Cidade do Salvador. Abro um parênteses para lembrar que chegou a ser questionada por alguns dos mais notáveis historiadores do Estado em meados do século XX; durante um ano se debateu o assunto, muitas voltas e contravoltas, para chegar ao mesmo lugar, o referendo oficial da data já consagrada na literatura e na mídia desde o século anterior. Como ia dizendo, 29 de março não é apenas o marco da fundação da cidade, é marco, também, da refundação: a retomada da Bahia que permanecera em poder dos holandeses durante longos e sofridos dez meses.

Na manhã de 29 de março de 1625 os baianos avistaram no horizonte a esquadra Luso-espanhola de Dom Fradique de Toledo Osorio, Marques de Vilanueva de Valdueza, enviada pelo Rei Dom Felipe IV da Espanha, composta por 52 navios. Ostentava força, aparelhada com 1.185 canhões, prestes a desembarcar, após o cerco através de pontos estratégicos, para a retomada da Bahia. A bordo 12.566 homens, um contingente maior que o número de habitantes de Salvador, estimado em 12.000 almas, residindo em 1.400 casas.

O exército inimigo era composto por apenas 1.600 soldados holandeses, pagos pela Companhia das Índias Ocidentais, 600 mercenários e 500 escravos armados. Contudo, o poderio da esquadra de Dom Fradique de Toledo, além do contingente militar, era inquestionável: em torno de 65 mil balas de canhão de pedras; mais de 5.000 mil quintais de pólvora; 1.800 quintais de chumbo e cerca de 1.000 quintais de corda. Quintal era uma medida de peso, variável ao longo da história, no Brasil-Colônia correspondia a um pouco mais de 4 arrobas.

Soldados espanhóis, portugueses e napolitanos iniciaram o desembarque no dia seguinte, concluído o cerco completo da Barra, fechada para os navios inimigos. Os holandeses resistiram, não se renderam de imediato, apesar da desproporção dos contingentes militares, a capitulação só ocorreria em 30 de abril, assinada no quartel improvisado no Convento do Carmo. O documento previa a troca de prisioneiros e por parte dos Batavos a entrega de dinheiro em espécie, ouro e mercadorias saqueados da cidade. Não todo. A maioria já tinha sido remetida à Europa.

A esquadra Luso-Espanhola cercou a cidade pelo mar e, logo mais, desembarcou parte das tropas para o cerco por terra feito a partir do Mosteiro de São Bento, local estratégico pela sua posição elevada e com ampla vista da Bahia. No ano anterior, pelo mesmo motivo, o local tinha sido o quartel geral das tropas holandesas, após o seu desembarque no Porto da Barra, para a ocupação de Salvador. Durante o mês de retomada da Bahia houve vários confrontos no esforço de resistência dos invasores que aguardavam a chegada de reforços e acreditavam poderiam reverter a situação desfavorável, considerando a desproporção das forças.

Nenhum foi tão crítico, porém, quanto o ocorrido na noite de 05 de abril quando os holandeses, já cientes da iminente derrota, recorreram a milenar tática dos brulotes  (na Segunda Guerra Mundial popularizada a partir da ação dos kamikazes) na intenção de destruir os navios luso-espanhois mais próximos da costa. Brulotes eram navios de fogo, carregando materiais inflamáveis, lançados ao mar para se chocarem com as embarcações inimigas. A estratégia não deu certo, foram repelidos. (Nelson Cadena)

Artigo de minha autoria publicado originalmente no jornal Correio * em 19/03/20200

 

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