Salvador.-Gravuros-de-paulo-Lanchemeyer

A cidade murada de Salvador, em 1549, na gravura do monge Beneditino Paulo Lachenmayer

Em 1º de maio de 1549, ou seja, 33 dias após o desembarque de Thomé de Souza no Porto da Barra, Belchior Gonçalves iniciava junto com um grupo de hábeis pedreiros a construção dos muros de Salvador, sob a supervisão do mestre arquiteto Luís Dias. Belchior era pedreiro de profissão, lhe foi confiada a empreitada de construir “muros de taipa grossa com fosso exterior”, circundado o estreito local da cidade, ao longo do mês de abril aplanado e roçado. Pronto para se traçar as ruas, construir as casas, edifícios públicos e fortificações previstas no Regimento de Almerin e levantar o muro cuja finalidade era proteger os recém chegados de uma possível invasão indígena.

Não havendo em Salvador pedra e cal__ mais tarde se fabricou em Itapagipe, Pirajá e na Ilha de Itaparica de pedra e de ostras __Belchior recorreu à primitiva taipa de barro, como matéria prima, e madeira. No decorrer da empreitada, com as intempéries do inverno, partes do muro cederam por serem muito altas. A solução foi emendá-las, mais tarde todo o muro foi rebocado por dentro e por fora. O muro original media 1.100 metros e contornava uma área calculada em 35.884 metros quadrados. Foi se arruinando, no início do governo Mem de Sá, por falta de manutenção, “com longas brechas onde as raízes das plantas bravas agiam quais outras tantas alavancas demolidoras”, assim derscreveu Teodoro Sampaio.

O empreiteiro Belchior é um personagem anônimo, desconhecido, dele só temos vagas referências, porém foi um dos baluartes na construção desta cidade. Seu trabalhou não ficou restrito à construção do muro, há outras obras de sua lavra nos Registros de Provisões Reais da Biblioteca Nacional com a rubrica de “Mandados” que vêm a ser ordem de pagamentos. Recebia entre 1.800 reis a 2.000 reis por mês, (era o correspondente ao salário do médico da Santa Casa de Misericórdia, Jorge de Valadares), nem sempre em espécie, dinheiro era escasso naqueles primórdios de Salvador.

Em 10/11/1550, recebeu em “mercadorias”: alimentos com certeza, vinhos tal vez, roupa, quem sabe material de construção. Em 19/12/1550 Belchior recebeu em torno de 13,5 mil reis, correspondente a sua remuneração como empreiteiro de duas obras na “Ribeira” (hoje área da Praia da Preguiça), incluindo ferro fornecido por ele. No mês seguinte recebeu mais 3 mil reis em mercadorias pela mesma obra. Belchior fez obras na “Casa dos Contos” e na “Casa da Pólvora”, edifícios públicos para guardar dinheiro e armas e munição, respectivamente. Construiu ainda uma grande parede de terra e barro na Estância de Santa Cruz e em 1552 a “Casa dos Açougues”, ao lado da cadeia, na atual Praça Thomé de Souza.

Entre os trabalhadores que construíram a nossa cidade, no período 1549 e 1551, há muitos anônimos a destacar: o índio carpinteiro rebatizado Antônio Gonçalves; os 62 degredados que promoveram a primeira greve de Salvador, negaram-se a trabalhar porque “andavam despidos” e foram atendidos por ordem do Rei; os ostreiros (índios que juntavam ostras para o fabrico de cal); o negro Inácio Dias que trabalhava nos taboados, no Rio Vermelho; o também negro, o pedreiro Pero de Lagos. E ainda, os índios que derrubaram arvores e aparelharam a madeira, e outros que araram a terra e semearam as hortas para garantir o abastecimento da cidade, frutas e verduras, em especial. (Nelson Cadena)

Artigo de minha autoria publicado no Coreio* em 26 de março de 2020.

 

 

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