Uma das relações de doentes de febre amarela nos livros do arquivo histórico da Santa Casa da Bahia/Memorial Jorge Calmon

Uma das relações de doentes de febre amarela nos livros do arquivo histórico da Santa Casa da Bahia/Centro de Memória Jorge Calmon

Em 03 de setembro de 1849 as autoridades sanitárias de Salvador, informadas da morte suspeita de dois tripulantes do navio americano “Brazil”__procedente de Nova Orleans, com escala em Havana__ e dos sintomas de vários passageiros com febre e cor amarelada, requereram do capitão a carta de saúde, constataram que estava em dia, documentos em ordem, e liberaram o desembarque. Entre as evidências e a burocracia venceu a burocracia. Era um dia de domingo e a febre amarela, doravante denominada nos relatórios oficiais de “epidemia reinante”, aportava em Salvador para causar milhares de vítimas.

Em outubro as autoridades sanitárias constatavam três óbitos em terra e no mês seguinte o Dr. Paterson__ homenageado com um busto no Largo da Graça__ médico do Hospital Inglês, alertou sobre a doença e a sua propagação, o seu caráter epidêmico. As autoridades não lhe deram muita atenção, tanto que permitiram o embarque pelo Porto de Salvador, na barca americana “Navarre”, de vários tripulantes infectados que introduziram a doença no Rio de Janeiro, a partir das noites boemias da Taverna do Frank.

O fato é que 163 anos depois da primeira epidemia de febre amarela da cidade (1686) as autoridades sanitárias não tinham um plano de ação para uma eventual emergência. O jeito foi improvisar. Inicialmente os doentes foram transferidos para o Hospital da Caridade da Santa Casa de Misericórdia que não conseguiu atender a demanda. Várias enfermarias foram montadas para atender a emergência. Uma no Convento de Santa Tereza, onde os seminaristas solicitaram do vice-reitor permissão para assistir os doentes, conforme informou “O Noticiador Católico”.

Outra enfermaria foi improvisada no Convento do Carmo, onde faleceram treze indivíduos e ainda no Hospital Inglês, na clínica do Dr. Fairbanks e na residência do pioneiro da hematologia no Brasil, o Dr. Otto Wucherer, que perdeu quase todos os doentes e a própria esposa e diante dos reveses resolveu atender os infectados nas próprias embarcações; mais tarde, a instâncias da colônia alemã, dispôs de uma enfermaria mais ampla e arejada do que o acanhado espaço de sua casa. Como em todas as epidemias foi preconizado um remédio milagroso, o sulfato de Quinina, recomendado pelo Dr. Antônio Policarpo da Santa Casa da Bahia.

Não era uma panaceia e sim um alternativo da Cloroquina, a mesma recomendada atualmente para o Coronavirus, e pelos relatórios do médico, de fato o remédio diminuiu o tempo de internação dos doentes infectados. Era tudo que as autoridades sanitárias queriam para liberar leitos. O jornal Acadêmico dos estudantes de Medicina validou as experiências, fez ressalvas, considerou que era bem melhor do que outros tratamentos, sem resultados positivos. Estrangeiros eram a maioria dos infectados nesta primeira onda da doença. Os relatórios da Santa Cassa da Misericórdia da época nos revelam um contingente de pacientes de mais de vinte países, poucos brasileiros.

A maioria dos doentes eram jovens entre 18 e 25 anos, provavelmente marinheiros, poucos com idades acima de 30 anos e o período de internação normalmente não passava de cinco dias. Com a propagação da doença e o colapso do sistema de saúde foram criadas comissões paroquiais cuja função era identificar os doentes da região e o encaminhamento dos mais necessitados para tratamento gratuito nas suas próprias residências. Não deu muito certo pois veio uma segunda onda e logo mais outra epidemia, a de Cólera Morbus. Duas calamidades para atormentar os baianos.(Nelson Cadena)

De minha autoria, publicado no Correio * edição de 02/04/2020

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