Foto de 1948 do acervo da Fundação Pierre Verger.

Foto de 1948 do acervo da Fundação Pierre Verger.

Transcorridos 164 anos da terrível epidemia de Cólera Morbus que assolou a Bahia ainda não sabemos qual foi o santo de devoção que intercedeu em favor do fim do flagelo, se o glorioso Senhor do Bonfim, ou, nosso padroeiro, São Francisco Xavier? Ambos evocados pelos baianos com o mesmo objetivo. Para não brigar, digamos que foi a fé. Naqueles idos de 1856 ainda creditávamos aos santos o fim das epidemias, o que a ciência oferecia não importava  __ os médicos eram hostilizados e até responsabilizados pela propagação___ e do mesmo jeito que os santos nos libravam dos flagelos, era a falta de fé neles a principal causa das doenças misteriosas.

Dom Romualdo Antônio de Seixas, arcebispo de Salvador, deixou bem claro que a epidemia era a “Cólera Divina” enviada por Deus como punição pelos nossos pecados e, em particular, pelos “desacatos e profanações praticadas nos templos”. O bispo manipulou a situação para ressuscitar a figura de São Francisco Xavier, naquele tempo, ex-padroeiro da cidade. Como assim? A arquidiocese obteve da Câmara Municipal, em 1686, o seu reconhecimento como padroeiro de Salvador, foi lhe atribuído o milagre do fim da epidemia, daquele ano. Xavier nunca foi um santo popular e nem tinha uma igreja, ou congregação, que lhe sustenta-se a devoção. Foi perdendo prestígio, sendo esquecido, até que o mesmo legislativo que o fez padroeiro lhe retirou a honraria em 1828.

Dom Romualdo viu no flagelo do Cólera Morbus a oportunidade de reviver o culto e distribuiu santinhos impressos numa tipografia com orações e a oferta de perdoar os pecados para quem repetisse as rezas e participasse de eventos em louvor ao santo. A promessa das indulgencias atraiu fiéis. O bispo foi além e promoveu uma procissão pelas principais ruas do centro e desta vez cuidou de criar uma irmandade, foi o mentor, reunindo os mais notáveis habitantes da cidade: a elite religiosa, administrativa, cultural e econômica. Com esse respaldo da congregação e da sociedade e o discurso de “restaurar o voto de gratidão perpétua”, São Francisco Xavier voltou a ser o padroeiro de Salvador e voltou a ser esquecido também.

Ganhou o título, mas não a devoção. O Senhor do Bonfim já era reconhecido como nosso protetor, senão de direito, o de fato. Pela mesma época uma procissão, com a imagem do Senhor do Bonfim, saiu de Itapagipe, o andor conduzido por destacados membros da irmandade, transportada até a Catedral, no Terreiro de Jesus, em 06 de setembro de 1855. Ali permaneceu quase um ano até a epidemia diminuir o seu impacto devastador. Transformou-se em doença endêmica que ainda nos causou transtornos por várias décadas, em função das condições sanitárias da cidade e dos hábitos pouco higiênicos de seus habitantes.

Outros santos foram invocados, no ápice da epidemia, pelas irmandades de Bom Jesus dos Passos e Bom Jesus dos Aflitos. Devotos saíram em procissão e oraram na esperança de ver restaurada a rotina da cidade. Doravante Salvador teria de se preocupar com as endemias da província : a sífilis, o paludismo, a tuberculose, o tifo e num outro plano, a assustadora mortalidade infantil.

Pin It on Pinterest

Share This
Leia o post anterior:
De como a Bahia lidou com a epidemia de febre amarela de 1849/1850 e a descoberta de um remédio alternativo da Cloroquina

Em 03 de setembro de 1849 as autoridades sanitárias de Salvador, informadas da morte suspeita de dois tripulantes do navio...

Fechar