Leandro Colling

Estava em dúvida sobre o tema do meu texto desta semana. Três assuntos pediam para ser desenvolvidos: a denúncia de estupro no caso da banda New Hit, o anúncio publicado em um jornal de Pernambuco, sob o título de “Pernambuco não te quer”, assinado pelo Fórum Permanente Pernambucano Pró Vida, e a Parada Gay da Bahia, que ocorre no próximo domingo em Salvador. Optei por escrever um pouco mais sobre as paradas, mas sem deixar de citar os dois outros temas porque não os entendo como separados.

Os três temas têm a ver com uma mesma questão: a sexualidade está em todos os lados e a sociedade ainda discute e sabe pouquíssimo sobre ela. E, neste sentido, as paradas poderiam ser mais exploradas, como momentos de produção e difusão de conhecimentos sobre as sexualidades, sejam elas de homossexuais ou não.

Nas proximidades das paradas, sempre me perguntam coisas do tipo: você acha que as paradas ainda cumprem alguma função política? Não se transformaram em Carnaval? Ainda vale a pena promover essas atividades? Vou tentar dar algumas respostas.

No próximo domingo, ocorre a “11ª Parada Gay da Bahia”. Coloquei entre aspas o nome porque, assim como vários outros ativistas, considero o nome adotado aqui um equívoco político. Outras cidades intitulam as suas atividades como Parada LGBT, Parada do Orgulho Gay ou Parada Livre. De todos os nomes, prefiro o último. Por que?

Primeiro porque a palavra “gay” está muito longe de expressar a variedade de identidades sexuais e de gênero que são discriminadas e que precisam ser respeitadas. Exclui todas as pessoas lésbicas, travestis, transexuais, transgêneras, intersexos e todas as outras que não se identificam com nenhuma dessas categorias e também se sentem discriminadas pelo modo como se comportam em relação às suas sexualidades e gêneros. Por isso, o nome Parada Livre, adotado em Porto Alegre, por exemplo, é muito mais aglutinador, contempla até as pessoas heterossexuais que vivem a sua sexualidade de forma diferente da maioria, do convencional.

Contempla também os simpatizantes que, como eu já disse em outro texto, muitas vezes são chamados de “suspeitos” por muitos gays. Um movimento que enfrentou e ainda enfrenta tantos obstáculos precisa do apoio do maior número de pessoas. Tratar os simpatizantes como suspeitos, ou como dizem alguns, como “produtores de novos homossexuais” é, em suma, um grande tiro no pé.

Além disso, cresce a cada dia o volume de pessoas homossexuais que não se sentem contempladas com o que se constituiu em nossa sociedade como uma identidade gay. Para boa parte das pessoas, ser gay hoje é ser malhado, másculo, branco, classe média-alta, universitário, morador de área nobre, e jovem, muito jovem, sempre jovem, admirador de música eletrônica, baladas etc. A questão é que pouquíssimas pessoas homossexuais preenchem todos estes requisitos, e muitas delas nem os querem preencher. E isso fica visível em nossas paradas, em particular a de Salvador, para o horror dos gays que se identificam com a identidade acima descrita e que gostariam que todos fossem iguais a eles.

São esses mesmos gays que, via de regra, criticam as paradas porque elas teriam sido tomadas pelas “bichas afeminadas, fechativas, pão com ovo, baixo astral” etc e etc. A lista de adjetivos pejorativos é longa. Como eu já disse aqui em relação ao desfile do Dois de Julho, a fechação também é um ato político. Portanto, viva a fechação!

Outra crítica que muitas pessoas fazem às paradas é que elas não teriam nada de política, mas apenas de festa, um Carnaval. Os promotores da parada de Salvador (e não “da Bahia”, como consta no nome de nossa parada), este ano fizeram um esforço de politizar mais a parada através da Semana da Diversidade, com a retomada de debates com militantes e acadêmicos.  Isso era realizado nas primeiras paradas e é elogiável a retomada deste conjunto de ações, de forma a mobilizar as pessoas e colocar os temas em debate.

Mas, mesmo concordando com os debates, em geral, as pessoas que defendem a “politização das paradas” ainda dizem que elas se transformaram em um mero Carnaval. É aí que eu começo a discordar e devolvo com outras perguntas, a exemplo: e quem disse que não se pode fazer política com festa? Quem disse que existe apenas uma forma de se fazer política?

Eu concordo que as paradas não conseguiram produzir os resultados que esperávamos, que as atividades não se traduziram no fim da violência e na conquista de direitos, que elas deveriam ser organizadas de forma mais democrática, que as paradas se transformaram em mais um atrativo para a indústria do turismo e do pink money, mas ainda assim entendo as paradas como uma das mais importantes manifestações políticas que o mundo vivenciou e vivencia nas últimas décadas.

Mas é raríssimo ver algum cientista político considerar algo similar a isso em relação às paradas. E na maioria das vezes isso é feito com a anuência e concordância dos próprios LGBTs, sejam eles considerados militantes ou não. E continuo minhas perguntas: qual o movimento político recente que conseguiu colocar milhares de pessoas nas ruas em tantas cidades?

As pessoas não consideram a festa uma atividade política. Eu tenho muita dificuldade de concordar com isso, pois entendo que a política não acontece apenas pela lógica do discurso racional e objetivo. Um heterossexual homofóbico, ao ir à parada (muitos deles vão, já me deparei com muitos deles), vai com alguma margem de desconforto, algum tipo de cuidado que produz reações. E isso é uma ação política da parada sobre essas pessoas. De qualquer forma, esse homofóbico irá se deparar com pessoas diferentes, ver que elas existem e são muitas. Na subjetividade dessas pessoas, duvido que a médio prazo não se produza algo muito difícil de quantificar, medir.

O mesmo acontece com as pessoas LGBTs, simpatizantes e demais pessoas que vivenciam a sua sexualidade de forma diferente da considerada “normal”. É só ouvir o que dizem estas pessoas. Vou dar o meu próprio depoimento, mas eu poderia entrevistar dezenas de pessoas que poderiam dizer algumas coisas similares. A primeira “Parada Gay da Bahia” também foi a minha primeira parada. O número de pessoas foi pequeno e no final ocorreu um show na Praça Castro Alves. Nos anos posteriores o número aumentou significativamente. O fato de ver que você não está sozinho, que existem milhares de pessoas que também precisam esconder a sua orientação sexual e que sofreram ou ainda sofrem algum problema por causa disso, causou em um profundo impacto na minha subjetividade.

E naquela época eu já frequentava, a muito tempo, lugares de sociabilidade LGBT, já tinha ultrapassado as dificuldades que todo LGBT passa em função da sua sexualidade. Mas ver a multidão na rua, gays se beijando no Campo Grande, em plena luz do dia, gerou um outro tipo de sentimento, uma certa sensação de liberdade, ainda que momentânea mas nem por isso insignificante. Tenho certeza que muitas pessoas ainda devem sentir isso a cada parada. Enquanto sentimentos similares forem gerados, as paradas devem ser realizadas, de preferência pensadas e repensadas coletivamente e antecedidas de bons debates, para além das questões de saúde e Aids, pelo amor de Rogéria!

imagem da campanha

São em debates como esses que poderíamos discutir a fundo o que leva alguma associação a lançar uma campanha como “Pernambuco não te quer”, que vincula o turismo sexual e a pedofilia com o “homossexualismo”. Alguém aqui imaginaria alguma associação lançar uma campanha similar no Carnaval vinculando a heterossexualidade com o turismo sexual e a pedofilia? Em comparações como esta é que fica evidente como uma orientação sexual é colocada como respeitável e outra deve ser abolida.

Para além das discussões sobre questões LGBT, a sociedade precisa discutir mais a sexualidade em geral e as paradas também poderia dar a sua contribuição neste processo, dada a visibilidade que alcançam. Considerar as vítimas de estupro como responsáveis pelo crime, como chegou a ocorrer no caso envolvendo a banda New Hit, é apenas mais um exemplo de como o gênero feminino ainda é violentamente subjugado pelo gênero masculino. A forma é distinta, mas é esta mesma hierarquia de gênero que impera na resistência na mudança de nome da parada em Salvador e no horror de muitos gays másculos às minhas queridas gays e travestis fechativas. São para elas que dedico um trecho da música composta por Lazzo Matumbi e Jorge Portugal: “Apesar de tanto não, tanta dor que nos invade, somos nós a alegria da cidade”.

 

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