O que pensa um homofóbico?

Gilmaro Nogueira

O que pensa uma pessoa que agride, humilha ou violenta gays, lésbicas, travestis ou transexuais? O que leva uma pessoa ao ato de matar outra, apenas porque esta não é ou não parece heterossexual? Um homofóbico é necessariamente um psicopata?

Adentrar o universo psicológico dos homofóbicos, ainda pouco explorado, é a pretensão da peça Condenados, de Felipe Harpo, que está em cartaz no Cine Teatro Solar Boa Vista, nos dias 14 e 15 de setembro, às 20 horas.

Assisti a estreia e achei audaciosa a pretensão de “entrar” na cabeça do sujeito homofóbico. O cenário é uma sombra dos pensamentos do autor – desordem, no bom sentido. Assisti Transmetrópolis, do mesmo autor, peça inclusive mais interessante, que seguia esse caminho, da não linearidade e da instabilidade.

Condenados acerta em não cair no lugar comum de afirmar que todo homofóbico é um homossexual não resolvido, embora muitas vezes o seja, mas sobre isso prometo falar em outro texto.

Foto: Bob Nunes

O texto tem a intenção de mostrar as fragilidades dos sujeitos homossexuais, das quais os homofóbicos podem se aproveitar para se aproximar e cometer os crimes. Discute as vulnerabilidades de sujeitos que, distanciados da família ou com os vínculos familiares enfraquecidos, buscam afetos se aproximando de sujeitos perigosos.  A peça pode ser um alerta aos homossexuais, para que sejam mais cuidadosos, mas esse aviso pode cair no erro de culpar a vítima, de que ela não seja suficientemente capaz de fugir da violência do agressor.

Foto: Bob Nunes

Alguns comentários diziam que a peça pode dar ideias aos homofóbicos, mas acho que a essa altura ideias é o que não lhes faltam. Também evidenciaram a possibilidade de aumentar o medo dos sujeitos que já sentem caçados – ampliar a perseguição psicológica. Esses ingredientes dão uma certa polêmica ao texto, um risco que o autor resolveu assumir.

Do lado de fora do Solar Boa Vista, os homofóbicos não são um grupo uno, com a mesma personalidade e estratégia. Não são sujeitos anormais, que só pensam em matar homossexuais. Podemos dizer que existe uma diversidade de homofóbicos, dos mais violentos assassinos a outros que agem na “cordialidade”.

Nem todo homofóbico se assume. O mais comum é que alguns justifiquem sua homofobia por esta não ser explícita. Um conjunto de crenças apresenta a homossexualidade como uma orientação sexual representada negativamente. Essas crenças quase sempre são preconceituosas e irreais.

Uma dessas crenças muito citadas por conservadores fundamentalistas liga a homossexualidade à pedofilia ou ao abuso sexual. As estatísticas mostram que 76% dos pedófilos e mais de 80% dos abusadores são homens heterossexuais. Não estou aqui associando pedofilia ou abuso à heterossexualidade, mas evidenciando como o preconceito constrói falsas ideias.

Os homofóbicos não são apenas pessoas que cometem violências físicas contra homossexuais, são sujeitos comuns. Muitos acreditam que, por terem amigos homossexuais, não são homofóbicos. Agem como se sua amizade fosse um favor e sentem-se à vontade apenas porque não violentam fisicamente outros sujeitos, mas fazem piadas e classificam os indivíduos conforme a sua orientação sexual. A grande maioria mantém a crença de que a homossexualidade é uma desgraça que recai sobre a vida humana, mas como o sujeito nada pode fazer, precisa ser aceito.

Outra crença do homofóbico, e que motiva a diferença com que trata os outros sujeitos, é a de que a heterossexualidade é um padrão da natureza e que as outras orientações sexuais são desvios ou têm uma causa de sê-lo.

É comum que os indivíduos perguntem quando alguém se torna homossexual, acreditando que a heterossexualidade é o início. Essas crenças fazem parte de uma ideologia que patologiza os indivíduos, naturaliza a sexualidade e produz uma hierarquia entre os sujeitos.

O homofóbico não é uma exceção em nossa sociedade, mas um conjunto de crenças que orienta a forma como lidamos com o outro, com as diferenças. Não divido os homofóbicos em nós e eles, acho mais prudentes considerarmos que todos, em maior ou menor grau, sustentamos ideias homofóbicas.

A homofobia não é uma ação de heterossexuais, dirigida a sujeitos não-heterossexuais. A homofobia atravessa todas as orientações. Qualquer um que trate com desigualdade ou indiferença alguém que não esteja dentro dos padrões de masculinidade e feminilidade, de certo modo, reproduz o preconceito.

A ação do homofóbico pode ser a de ferir o corpo, os laços sociais ou a auto-estima de um outro sujeito. O assassinato é o ato final, o extremo. Incomoda-me que a homofobia sempre esteja entrelaçada aos assassinatos, sem considerarmos outras implicâncias dessas violências psicológicas e simbólicas.

Diferente do psicopata, o homofóbico pode ser qualquer um de nós!

 

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4 respostas para O que pensa um homofóbico?

  1. Eduardo disse:

    “A homofobia não é uma ação de heterossexuais, dirigida a sujeitos não-heterossexuais”

    O mesmo que dizer que existem mulheres machistas e negros racistas, como se isso justificasse de algum modo a pratica do preconceito. Vítimas de um discurso de ódio enraizado por séculos são culpadas por ainda mantê-los, e os quais são/foram os percussores de tal infâmia ganham um aval para suas ideias retrogradas.

    • Gabriel disse:

      O que ele quis dizer está logo após este termo.

      “A homofobia atravessa todas as orientações. Qualquer um que trate com desigualdade ou indiferença alguém que não esteja dentro dos padrões de masculinidade e feminilidade, de certo modo, reproduz o preconceito.”

      O homofóbico odeia até mesmo os traços afeminados em outro heterossexual. Um heterossexual que fale mais “fino” ou “mole”, já é julgado por isso. Uma mulher que não seja delicada, que use roupas masculinas, já são rotuladas de “sapatão” mesmo não sendo gays. A discriminação vem da crença que “o homem deve ter jeito de macho”.

      Detalhe: homossexual = pessoa que se atrai por pessoas do mesmo sexo. Ou seja, ela pode ser masculina, ele pode ser feminino… isso não significa que curtam pessoas do mesmo sexo.

  2. Eduardo disse:

    “A homofobia não é uma ação de heterossexuais, dirigida a sujeitos não-heterossexuais”

    O mesmo que dizer que existem mulheres machistas e negros racistas, como se isso justificasse de algum modo a pratica do preconceito. Vítimas de um discurso de ódio enraizado por séculos são culpadas por ainda mantê-los, e os quais são/foram os precursores de tal infâmia ganham um aval para suas ideias retrogradas.

    Mas entendi que sua intenção é justamente ampliar o significado e sua agressão física e psicológica a todo e qualquer individuo que não se adeque aos padrões masculino e feminino que a sociedade nos impõe. De todo modo, achei que poderia haver mais ponderação à frase.

  3. jose carlos disse:

    esta besteira de homofobia sequer existe seus babacas. vão ver quantos pais de familia morrem por conta da violencia urbana. bandido não quer saber se voce gosta de dar o rabo pra te matar. vão acordar pra vida seus pulhas.
    além do que homossexualidade também é uma pratica lasciva e perversão sexual não é um tipo de ser humano diferente ou privilegiado como voces querem. tomem vergonha na cara.

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