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Um homem homossexual pode ter desejo sexual por uma mulher?

Gilmaro Nogueira

 

Pensei em fazer esse texto, a partir de algumas críticas que li sobre o personagem Roni, da novela Avenida Brasil. Um dos temores dos críticos é que o autor resolva “heterossexualizar” o personagem, tal como foi feito na novela A favorita, com o personagem de Orlandinho (Iran Malfitano) que “viveu” parte da trama no armário, mas no fim se transformou em heterossexual.

Tais abordagens sempre abrem brechas para que os fundamentalistas religiosos e profissionais terapeutas descomprometidos com as abordagens científicas sustentem ideias de cura dos sujeitos que não são heterossexuais.

Mas, sem essa pretensão de conversão da homossexualidade, é possível pensarmos que um homem homossexual possa ter desejo sexual por uma mulher? Para responder essa questão, vou citar parte do texto do escritor e militante Guy Hocquenghem, no livro: A contestação homossexual, publicado no Brasil em 1982. Numa entrevista perguntaram ao Guy se ele achava possível que um homem homossexual pudesse amar uma mulher, e ele responde:

“Não sei. Primeiramente isto supõe que eu me identifique com um conjunto de homossexuais, o que não é o caso. Sou “um” homossexual, mesmo admitindo que eu possa ser definido unicamente assim, o que me parece algo muito limitado.
Acho pessoalmente que um homossexual pode não somente amar uma mulher, mas amar milhares de mulheres.
Esqueçamos um pouco o homossexualismo (sic) e pensemos em uma espécie de polimorfismo, isto é, na capacidade de se entregar a impulsos muito diversos e que não passíveis de serem rotulados em termos de homossexualismo, heterossexualidade, mulher, homem, etc. (p.79).”

Gosto das teorizações do Guy. Ele pensa uma homossexualidade singular, isto é, cada sujeito é de uma maneira. Na maioria das vezes pensa-se os homossexuais como um grupo homogêneo, então, se um rejeita totalmente a possibilidade de sexo com mulher, fica estabelecido que todos façam a mesma coisa. Se um dos sujeitos manifesta desejo por alguma mulher, passa a ser considerado mal resolvido, sempre colocado em desconfiança.

Outra questão levantada por Guy é: um sujeito não é definido apenas por sua sexualidade ou homossexualidade, isto é, ninguém é apenas homossexual. Na grande maioria das vezes, achamos que ao dizer que alguém é gay ou lésbica, dizemos tudo desse sujeito.

Não estou supondo que todos sejam bissexuais, mas concordo com a ideia de Guy: de um polimorfismo e uma possibilidade de um sujeito homossexual ou heterossexual se entregar a impulsos diversos, não passíveis de serem rotulados.

Assim, é possível que um homossexual tenha satisfação sexual com uma mulher, e hoje muito mais comum, que um sujeito heterossexual tenha experiências sexuais satisfatórias com outro do mesmo sexo.

Na grande maioria das vezes, se um homem heterossexual tiver uma experiência sexual com outro homem, o consideramos gay enrustido, mas se um homem gay tiver experiências com mulheres, não o consideramos heterossexual. Assim, mantemos uma ideia que a heterossexualidade é uma orientação pura, incapaz de permitir o desejo de um sujeito por outro do mesmo sexo. Na prática não é assim. Diversos sujeitos têm desejos e experiências sexuais para além dos rótulos de hetero e homo.

Esses rótulos por sua vez revelam-se impositivos, restritivos e mantém uma suposta oposição entre sujeitos. É como se fossemos divididos em dois grupos estanques. Heterossexuais que sentem atração física/sexual pelo sexo oposto, e homossexuais pelo mesmo sexo.

O desejo não se orienta apenas por rótulos. Embora alguns sujeitos tendam a não desejar determinadas práticas sexuais por essas não serem aceitas, nem sempre é possível limitar o que queremos e com quem queremos. Embora alguns sujeitos mantenham a culpa por desejar outros do mesmo sexo, os sentimentos negativos não impedem a permanência e força desse desejo.

Dessa forma, não desconsidero que diversos sujeitos que adotem uma identidade homossexual possam ter desejo sexual por uma mulher. O desejo não atua na lógica de isso ou aquilo, mas às vezes de isso e aquilo. Não é o desejo um ponto final, mas reticências. O que desejamos hoje pode não ser o que desejemos amanhã.

Mas, assim como acredito que o personagem Roni possa ter desejo sexual com Suelen, é perfeitamente possível que o personagem Leandro, até então heterossexual, possa ter desejo por Roni. Cabe ao autor, aproveitar das experiências cotidianas de homens e mulheres que experimentam a sexualidade para além dos rótulos de hetero e homo, possibilitar a esses personagens “experimentarem” suas sexualidades para além dos nossos preconceitos.

 

gilmaronogueira

View Comments

    • Qué santa ignorancia!........... Meu Deus!....... Cara, para de falar tonterias. Você sempre será gay. E ser gay, não é doença e sim uma opção sexual.

      • ...Edy,ninguem em sua sã consciência, opta por ser homossexual.E deixo claro que não estou falando que ser gay seja bom ou ruim.Apenas acho que é uma condição do ser humano,a pessoa nasce assim e pronto.Optar, optamos por uma calça, um sapato, louro ou moreno, baixo ou alto,skol ou schin,acarajé ou abará, e por aí vai...

      • Meu filho. Não acredito seja uma boa forma de viver, julgar os outros através de nossos proprios sentimentos. Não somos uma "manada", mas temos inumeras possibilidades dentro do livre arbitrio do qual somos dotados.

      • Se é uma "opção sexual" , como você disse, então como você pôde afirmar anteriormente que "Você sempre será gay" , se referindo ao comentário de Vitor Dias ? Se é uma opção há uma escolha, então não se pode afirmar que sempre será.

    • ..."homossexualismo tem cura sim"...
      O amor e o amar têm cura? Podemos exilar sentimentos, desejos, sonhos, maneiras de amarmos mas não exterminá-los em nós mesmos. A afirmação do amigo destacada acima é fruto muito mais do medo, finamente elaborado e construído por mecanismos sociais e religiosos perversos, do que uma crença genuína nessa "cura". E o medo é 'fazedor' de trincheiras; muitas delas impenetráveis. A busca não deveria ser por estarmos felizes e vivermos essa felicidade? As caixinhas do que somos e do que DEVEMOS ser são... caixinhas! Fica mais fácil assim, para os poderes estabelecidos - religiosos, políticos, econômicos, militares, sociais - gerenciar a liberdade. A sua liberdade, a minha liberdade, a nossa liberdade de viver, ser, amar, sonhar, escolher, desejar, pensar... Acho que importante mesmo é amar e ser amado e não importa se esse amor venha de um homem, de uma mulher ou de ambos. A vida é curtinha, breve. Vamos viver e deixar viver mas, sinceramente, não acho uma boa idéia depositarmos nossas existências em certezas dogmáticas. Quando isso acontece o final não costuma ser feliz.

    • Quanto desconhecimento do Guy dizer homossexualismo e no entanto, politicamente correto para ele, heterossexualidade. Então, no seu desconhecimento também não seria correto (?) o termo heterossexualismo? Ou como muito bem diria o respeitado antropólogo professor Luiz Mott heterrorsexualidade?

      • Oi amigo. Na época de Guy tratavam como homossexualismo. Somente após a década de 70 com a despatologização da homossexualidade é que o termo vai mudar.
        O Guy usa o termo corrente, mas faz muitas críticas.

      • Cara, o termo homossexualismo não está nem um pouco errado. O movimento LGBT que ficou ofendido e relacionou o sufixo -ismo com doença. (Baixa estima? Vai entender...)
        O sufixo -ismo também representa doutrinas, ideologias, filosofias. O que se aplica ao homossexualismo.
        Budismo, Cristianismo, Darwinismo, ateísmo etc. São doenças?
        Procura estudar um pouco assim você não vai ficar repetindo o que dizem por aí a toa... A pior coisa que existe é pseudo-intelectual.
        "Haja (santa e tanta) paciência!"
        Abraços.

    • Quem disse q é doença,eu sim sou doente,nao consigo sentir atraçao por homems heteros so por gays preciso de ajuda

    • Não tem cura,pelo simples fato de não ser uma doença.
      Logo você voltará a se questionar sobre e verá que somente ocultou o que você é.

      • Bem, a maioria dos estudos hoje mostram que a homossexualidade tem ligação genética, na maior parte dos casos.
        Sou gay, não por escolha, não precisaria nenhum estudo pra me provar isso. Mas não vou me iludir e dizer que estou feliz assim, seria hipocrisia minha. Não é fácil você ser uma minoria, fugir do padrão etc.
        Quando criança eu sonhava casar com uma mulher, engravida-la, ter um casal de filhos e dar continuidade ao nome da minha familia. Na adolescência isso foi tirado bruscamente de mim, eu ainda sofro quando penso nisso. Mas o que posso fazer?
        Enfim, genético ou psicológico se um dia a ciência avançar a ponto de "curar", creio que eu não pensaria 2 vezes, ou pensaria... rs
        O importante é viver com o que temos e sermos felizes.
        Abraços.

        • Eu já fui intimada por dois gays que são bem resolvidos e conheço um outro que as vezes namora homens, as vezes mulheres é complicado entender !

    • Acho que se você mudou seus desejos é só sinal de que concorda com o texto, mas não entendeu o conteúdo. Pois o texto fala justamente das possibilidades da sexualidade. Se você foi ou é homossexual, foi ou é heterossexual não importa. O desejo não tem rótulos!
      Agora dizer cura foi o grande estrago da fala - e muito preconceito junto!

    • Cura???
      Vc ainda está retrógrado assim; achando que o homossexualismo é uma doença???
      Lamentável!!!
      O que vc acha de um bissexual???
      Esse sim, é o melhor, pois "nada falta para ele"!
      Um homossexual verdadeiro não sente nenhum desejo por mulher! " O prefixo "homo" (quer dizer igual) ou seja: aquele cujo desejo sexual só pende para seu próprio sexo; tendo ainda aqueles que não fazem sexo com outros homossexuais.
      Entretanto, um homem que se diz "macho" e faz sexo com um homossexual, mesmo que aquele se ache um "machão", não chega a isso!
      Esse chama-se bissexual!

  • Acredito plenamente , que um homen homossexual; tenha desejos,e, realize um ato sexual com uma mulher em perfeitpo estado de prazer e vontade de ambas partes. É uma prática nornal, vai depender do clima que rolar.

    • Concordo. Tenho uma desconfiança de que meu marido seja homossexual, mesmo não tendo relacionamentos homossexuais (apesar de que creio que houve no passado). Sei que ele gosta de sexo comigo, mas sinto que o casamento comigo foi apenas por conveniência.

  • Gostei do texto Gilmaro (e adoro o livro citado de Hocquenqhen). Vi que vc está além e aquém da Teoria Queer (sem traumas com a pronúncia).

  • Claro que pode!!!! Realmente definir a pessoa, enquadrá-la em uma orientação, hetero, homo, bi, limita as possibilidades. Há muitas mulheres hetero que se envolvem sexualmente com outras em certa fase da vida, há lésbicas que fazem sexo hetero, etc, etc... Nada é estático no ser humano, apenas a ignorância religiosa e a necessidade de enquadramento limitam nossa sexualidade...

  • Também concordo com a ideia "de um polimorfismo e uma possibilidade de um sujeito homossexual ou heterossexual se entregar a impulsos diversos, não passíveis de serem rotulados". Acredito que essa ideia de rótulo só serve para criar um "status" de qualquer coisa que seja. A verdade é que somos seres também instintivos e passíveis a estímulos, tanto hetero quanto homossexuais.

    É engraçado quando você diz "Na grande maioria das vezes, se um homem heterossexual tiver uma experiência sexual com outro homem, o consideramos gay enrustido, mas se um homem gay tiver experiências com mulheres, não o consideramos heterossexual. Assim, mantemos uma ideia que a heterossexualidade é uma orientação pura, incapaz de permitir o desejo de um sujeito por outro do mesmo sexo." Ser gay para grande parte das pessoas é uma zona intocável na qual, se você pisa uma vez não há mais volta. Há casos onde é permitido para mulher ser "curada", mas nos ciclos sociais se o homem pisa nessa zona já era, será gay para sempre.

    Ótima reflexão!

  • Discordo completamente do texto.
    As pessoas que dizem não haver e não apoiarem "rótulos sexuais", eu sinceramente não consigo acreditar no que essas pessoas dizem, fazem o que sempre reprovo: ficam com esse papo de que não existe orientação sexual, que é um esteriótipo ERRADO dizer que alguém é GAY, HÉTERO ou BI, pra no fim das contas ser algum deles e se recusar a dizer que é….e ainda chamam os outros de hipócritas.

    Se você morasse em uma ilha deserta mesmo assim você ainda estaria sendo "rotulado", e eu NÃO VEJO PROBLEMA NENHUM COM ISSO.

    Até os médicos caíram nessa conversinha politicamente correta de não querer rotular,ao invés de chamar o cara de gay, criaram a execrável sigla "HSH(Homens que fazem sexo com Homens)", pra não correrem o risco de darem nome aos bois ou serem muito "preconceituosos".

    Que tremenda bobagem!!!!

    Qual é o problema em ser tachado de GAY,HETERO OU BI?

    Sexualidade e rótulos sexuais não limitam pessoas que são bem resolvidas, eles apenas definem perfeitamente os sentimentos humanos.

    vamos parar com esse blá blá blá de eliminar os rótulos sexuais, chega dessa liberdade sexual falsa.

    Que anula quem vc realmente é,e não te liberta PORRA nenhuma.
    Falácia de gente que quer transar com homem mas não quer se sentir culpado se for chamado de GAY,me poupe.

  • E possivel sim, me apaixonei por um gay e fui corspondida, depois dele nao consegui me relacionar com mais ninguem ele era perfeito por q era tao mulher como eu.entendia todos os meu gostos foi maravilho ate q o cancer o levou.
    Se tiver q me relacionar de novo nao vou querer um hetero

  • Boa tarde, Gilmaro.
    Você sabe me dizer quando foi que a heterossexualidade se tornou normativa? Quando começou isso de acharmos que só é normal quem é hetero? Li seu texto intitulado "Por que a heterossexualidade não é natural?" e não ficou claro a partir de que ponto da história isso aconteceu... Ainda não li todos os seus textos, pode ser que esteja em algum deles, mas até onde li, parabenizo os senhores pelos escritos. São recheados de termos e preceitos científicos. Estou a par das leituras acadêmicas e faço parte de um grupo de estudos sobre o tema, mas ainda estou iniciando nessa trajetória.
    Att,

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gilmaronogueira

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