Leandro Colling

Finalmente vou cumprir a promessa e continuar a sequência de textos que trataram sobre como determinadas partes dos nossos corpos são priorizadas ou negadas como órgãos sexuais legítimos, desejáveis e saudáveis. Meu objetivo, ao rebater o discurso médico hegemônico (que é também do senso comum), que retirou do ânus qualquer possibilidade dele ser um órgão sexual e erógeno como o pênis, a vagina, a boca, os seios, não era apenas o de valorizar o cu, mas de pensar como essa interdição também afeta outras partes de nossos corpos. Por exemplo: existem várias pessoas que adoram pés. Para elas, os pés, por vezes especialmente os mal cheirosos, são fundamentais partes do corpo para a prática sexual.


O que pretendo demonstrar hoje é que, para muitos homens heterossexuais ou não, o próprio pênis deixou de ser o órgão sexual mais importante. Ainda vivemos em uma sociedade falocêntrica, mas isso não quer dizer que sempre o falo será simbolizado pelo pênis em si, como nos lembram vários importantes psicanalistas. O falo é símbolo de poder, mas esse poder que simboliza a masculinidade pode estar concretizado em outras partes do corpo. Na atualidade, para muitos homens, por exemplo, ter um peitoral grande e definido, barriga tanquinho, bíceps e tríceps bem marcados é, talvez, mais importante do que ter um pênis ereto e grande.

Isso porque, para conseguir construir esses corpos definidos e malhados, muitos desses homens tomam drogas que os tornam praticamente brochas. Mesmo sabendo disso, eles continuam tomando as chamadas “bombas”. O que pode estar se passando na cabeça desses caras? Uma hipótese: para muitos desses homens, o mais importante não é o ato sexual “tradicional”. Não é através dele que eles alcançam o gozo. O mais importante, nesses casos, é a exibição dos seus corpos, a produção de conversas, elogios e autoelogios e, também, um tipo de sexo narcísico na frente dos espelhos.

Qualquer pessoa que frequenta ou já frequentou acadêmicas de ginástica (ou seriam elas novos campos forçados, como disse uma vez o pesquisador americano David Halperin?) sabe do que estou falando. Observem as fotos que esses rapazes postam nas redes sociais e facilmente vocês poderão identificar o que estou falando. Não estou supondo que todos os meninos que malham e adoram se olhar no espelho sejam assim, mas é bem plausível que, em uma sociedade que valoriza tanto determinados modelos de aparências corporais, isso possa acontecer com alguma parcela desses homens.

Na internet, os locais de encontros sexuais são outros bons locais para investigar essas questões. Conheço mais os sites e aplicativos dirigidos ao público gay, não sei se o mesmo ocorre nos heterossexuais. É impressionante como existe uma certa prioridade sobre quais partes do corpo devem ser mostradas para atrair mais a atenção de possíveis parceiros. O que mais chama a atenção é que raros mostram o rosto. Isso é compreensível porque vivemos em uma sociedade homofóbica e muitas pessoas ainda temem ser identificadas como gays, em especial como gays caçadores (leia-se promíscuos).

Ainda assim, vale registrar que nesses locais temos, em sua maioria, o que alguns internautas nomearam de um grande número de perfis de “mulas sem cabeça”. Que impacto isso pode causar para as relações no ambiente off-line? Uma gradual desvalorização do rosto? Não sei, talvez.

Na falta do rosto, as pessoas, em geral, fazem o possível para hipervalorizar determinadas partes dos seus corpos. E daí novamente os peitos definidos, bem marcados, os bíceps, tríceps e barriga tanquinho ganham a preferência. Quem tem, exibe, quem não tem faz o possível para encenar que tem, mas quase todos desejam as mesmas partes dos corpos alheios. Ou seja, ainda que poucos gays consigam ter um corpo sarado e definido, produzido com ou sem “bombas”, a ampla maioria os deseja.

O que quero dizer com tudo isso? Talvez muitas pessoas estejam retirando do pênis, da vagina e da bunda também, a centralidade que esses órgãos possuem na prática sexual. Ou seja, essas pessoas gozam através dos seus bíceps e tríceps. Meu desejo é que um dia as pessoas se deem conta de que gozam e podem gozar muito mais com a totalidade dos seus corpos. Assim talvez tenhamos uma sociedade que vigie menos os nossos corpos e pare de determinar quais são os órgãos sexuais que somos obrigados a usar para sermos considerados saudáveis e normais.

Mas ainda não terminei de desenvolver o que prometi em textos passados. Ainda falta falar de bundas, de como o brasileiro adora bunda e, apesar disso, continua sendo excessivamente falocêntrico e homofóbico.

Beijos e até a próxima.

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