Fábio Fernandes

A família perfeita. Será?

A inspiração para esse post veio de um filme bem antigo, assistido recentemente, chamado “Esposas em conflito/As Esposas de Stepford” (The Stepford Wives, EUA, 1975). Fiquei instigado com a ideia provocativa e o charme da história, mesmo achando-a um pouco datada e a produção já com um certo cheiro de naftalina (até existe uma refilmagem de 2004, mas esqueçam, é uma porcaria). Eu comecei a refletir sobre como as pessoas, ainda hoje, são fortemente persuadidas de inúmeras formas a serem submissas, aprisionadas a “tradições” opressoras que pareciam superadas, mas se revelam ainda enraizadas nas sociedades. A gente às vezes fica com a visão turva pra algumas coisas…

Stepford é uma cidade pequena, limpa e pacata onde a vida é tranquila, segura, calma e as pessoas são amistosas. Na história do filme, as mulheres são esposas atenciosas e mães exemplares, além de muito belas, perfeitas donas de casa, gentis, submissas, doces, excelentes anfitriãs, cozinheiras irretocáveis e muito, mas muito gostosas, furacões na cama. Joanna Eberhart, fotógrafa freelance, seu marido Walter, advogado, e seus dois filhos mudam-se para essa região de pessoas atipicamente domesticadas, em busca de uma vida mais sossegada e fugindo do caos e confusão da grande metrópole Nova York.

Joanna logo estranha esse mundo de plástico, mas rapidamente faz amizade com Bobby, outra recém-chegada ao “paraíso”. Ambas possuem experiências com discussões e grupos feministas, debates que estavam em ebulição na década de lançamento do filme. Ao perceberem a existência de uma Associação de Homens na cidade, uma espécie de clube do Bolinha, elas resolvem criar um grupo de conscientização para as mulheres discutirem esse mundo inexplicavelmente arcaico, ultrapassado, “old fashion”: nenhuma das mulheres aceitam, preferem continuar com suas vidas e rotinas de donas de casa perfeitas e máquinas de prazer sexual subservientes aos seus maridos e… donos.

Com muito esforço, Joanna e Bobby conseguem reunir as mulheres e iniciam uma discussão sobre relacionamentos, a mulher na atualidade, entre outros temas, mas as esposas de Stepford só conseguem falar sobre afazeres domésticos, receitas culinárias e como ser A dona de casa, sempre sorrindo como em um comercial de TV. Todas são estranhamente felizes, uma felicidade artificial… essas mulheres parecem viver em outra dimensão. As novas moradoras investigam sem sucesso o motivo dessa “tranquilidade” e submissão fora do comum, algo que as aterrorizava.

Cena do filme "Esposas em conflito/As esposas de Stepford".

A protagonista logo se vê encurralada ao encontrar sua amiga Bobby “transformada” em um modelo de esposa de Stepford. Totalmente diferente e exatamente igual a todas as outras. A “perfeição” é exagerada e reproduzida com simetria: elas são tão perfeitas que na verdade se revelam… robôs. Os homens da cidade substituem suas esposas por máquinas e esse pode ser o fim da “rebelde” Joanna. O líder da Associação de Homens da cidade, e também a mente por trás do projeto Stepford, tenta captura-la e anuncia com um tom sádico de vitória: “Veja, pense nisso de outra maneira. Você não gostaria de um cara perfeito esperando por você em casa? Adorando você? Servindo você?”.

Há na película, uma atmosfera sombria, assustadora e claustrofóbica, em uma metáfora perversa do machismo que se opunha com força aos movimentos feministas da época. Engano mesmo foi eu achar que algumas discussões levantadas pelo filme estão datadas. Fiz essa longa introdução para discutir sobre duas cenas contemporâneas que me fizeram refletir sobre como esse mundo de Stepford não está tão distante de nós…

A primeira cena é a de um vídeo que encontrei no youtube, postado em 2012, chamado “Como ser submissa a uma pessoa omissa? – 2º Congresso de Mulheres Diante do Trono”. Nesse pequeno vídeo, essas referidas mulheres diante do trono (?) discutem e valorizam o valor da mulher submissa em contraponto a mulheres com “atitude” demais, que sequer consultam os maridos antes de tomar qualquer decisão. Em certo ponto do registro, a Pra. Ângela Valadão, sempre com um belo sorriso no rosto, defende seu argumento sobre a ideia da submissão:

“[…] eu tenho visto hoje algo muito sério acontecendo nas famílias. É que sem perceber, as mães, os pais estão criando as suas filhas não para o lar, não para serem esposas, não para serem mães, mas criando para a sua carreira profissional. Então, as mães se alegram: a minha filha passou em primeiro lugar no vestibular, ah ela passou no concurso… eu já ouvi pais, pais maduros e irmãos nossos, líderes dizendo assim: não, minha filha não vai namorar até formar, até terminar a faculdade. Aí o que acontece, passa a fase mais linda da menina, passam os momentos mais bonitos, a menina estuda excelente, mas não sabe cozinhar, não sabe pregar um botão numa camisa, não sabe passar uma camisa, não sabe organizar, nunca arrumou uma cozinha… então, ela não está sendo preparada para o lar, ela está sendo preparada para competir com o homem no mercado. Aí ela forma e o pai fala assim: “olha, eu gastei muito pagando faculdade, agora você tem de trabalhar”, aí ela vai trabalhar, e aí ela tem de trabalhar e a primeira coisa que ela faz é comprar um carro, […] agora ela vai comprar… um apartamento, aí ela descobre que ela está com seus 32, 33 anos e está no sucesso total, ganha um dinheirão, é formada, ela diz: eu quero casar, eu quero ser mãe, eu quero ter filhos… mas aí já não tem os rapazes solteiros, livres, muito difícil, que ganham o mesmo que ela, que tenham o mesmo nível intelectual, então aí ela vai atrás de qualquer um, é um divorciado, é um cara esperto que vê a menina ter um carro, ter um apartamento, ter um bom salário e ele casa por conveniência. Mas lá atrás, quem provocou tudo isto? Uma educação mal direcionada! Então eu vejo que a submissão é um princípio que abrange algo muito mais profundo, muito mais maravilhoso, as consequências, elas são muito fortes […] é muito importante que as meninas que estão aqui sonhem em ser esposas […], sonhem em se realizarem como esposas, sonhem em ser mães e que nós possamos preparar as nossas meninas para o casamento”.

Precisei transcrever essa extensa fala porque ao ouvi-la, me perguntei se essas mulheres não foram programadas, robotizadas/substituídas como as esposas de Stepford. Não pretendo aqui discutir escolhas nem crenças religiosas, muito menos impor um modo de pensar, viver e existir, mas sim refletir sobre como alguns discursos são tão opressores e limitam outras muitas possibilidades de existência a determinados corpos e sujeitos; trato especificamente, nesse caso, do corpo feminino e da mulher cisgênera (cujo gênero se adequa à imposição social exigida pela materialidade de seu corpo, ou seja, aquela que nasce com vagina segundo essas mesmas normas deve se comportar e ser mulher, heterossexual etc.). É mais do que perceptível nessas falas o peso do que é ser essa mulher, uma “mulher diante do trono”, cujo rei é um macho supremo e há todo um encaminhamento para tornar-se submissa ao marido e ao lar, mesmo diante de tantas conquistas e revoluções realizadas com muita luta durante décadas.

O que acontece com as meninas que não se enquadram dentro do universo tecido por essas pessoas? Há que se ponderar o quanto o nosso mundo, voltado para produzir “pessoas realizadas”, que devem conquistar o suce$$o no mercado de trabalho e batalhar incessantemente para atender a inúmeras expectativas, é muito opressivo tanto para homens quanto para mulheres, mas para a mulher, parece que há um fardo ainda maior na exigência do alcançar esse status de pessoa bem sucedida e, ao mesmo tempo, de boa mãe, esposa e dona de casa. Essa opressão ainda ecoa fortemente em discursos e práticas reproduzidas em nossa sociedade ocidental, capitalista, cristã e “higienizada” (notem que nem vou tratar de outros corpos ainda mais estigmatizados/invisibilizados, como o de lésbicas e mulheres trans).

Marcha das Vadias (São Paulo, 2012)

Em tempos de uma chamada liberdade sexual, tão gritada como uma conquista feminista e de outros coletivos sociais, inclusive debatida com vigor no recente movimento internacional Marcha das Vadias, que discute a liberdade das pessoas sobre o próprio corpo e também combate a violência contra mulher, gostaria de discutir outra cena que me deixou instigado: a do concurso Belas da Torcida, realizado pelo portal UOL Esporte. O público-alvo desse site é o típico macho brasileiro aficionado por futebol e por mulheres… com essa pequena descrição acho que dá pra se ter uma noção das figuras idealizadas pelo portal.

Concurso "Belas da Torcida". Semelhanças com a clássica TV de cachorro não são meras coincidências.

Nesse concurso, havia tópicos de votação para eleger o melhor decote, as melhores pernas, a melhor barriguinha, o melhor bumbum, a melhor garota de lingerie, a melhor de biquíni, entre outros como o sorriso, olhos e a mais simpática (?). As categorias enquadravam as partes do corpo das candidatas como pedaços de carne exibidas numa “TV de cachorro”, com direito aos singelos comentários e avaliações dos leitores discutindo qual parte é mais gostosa, qual moça merece ser a musa etc… percebe-se, na escolha das imagens e na própria formulação do discurso, uma mulher que, assim como as esposas de Stepford, são também máquinas de prazer, produzidas para fazer os machos gozarem.

O corpo e a identidade femininas são ainda produzidas/construídas/oprimidas por discursos que as limitam a serem robôs, objetos domésticos e sexuais. É um discurso violento que ainda não foi superado mesmo depois de tantas décadas de debates e reflexões, reproduzindo e ramificando-se de outras formas, muitas vezes por ângulos que supõem uma liberdade falsa, seja na insana busca por uma “carreira promissora” ou da segurança pela constituição de uma família feliz de comercial de TV, ou os dois no mesmo pacote.

As normas sociais parecem operar para estender e transformar o mundo em uma grande Stepford, um lugar onde não é possível ser diferente de alguns modelos pré-estabelecidos, pelo contrário, pois só haveria a possibilidade de pertencer a uma linha de produção: limitada, homogênea, padronizada. E até mesmo as “peças defeituosas” são absorvidas, disciplinadas e não escapam desse controle. A grande luta do ser humano ainda seria pela destruição desses chips e programações que nos tornam automatizados, robôs sem liberdade de escolha. Um confronto pela possibilidade de sermos plurais, sem sofrer tantas sanções ao fugirmos de um conjunto de normas impiedosamente rígidas.

Me despeço com uma música da Pitty sobre como é sentir-se nesse sistema:

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