Carlos Henrique Lucas Lima*

A novela “Amor à Vida”, novo folhetim das 9 da Globo, está dando um enorme destaque para a personagem Félix Khoury, um homossexual no armário que se alia a um casamento de fachada, à paternidade e ao sucesso nos negócios a fim de dar sustentação para sua imagem pública de bom moço heterossexual.

No entanto, e o que muitos leitores e leitoras assíduos de nosso blog já devem ter percebido, é que Félix, ao contrário de não poucos homossexuais no armário – e lanço mão propositadamente da palavra “homossexual”, já que quero chamar a atenção para, de um lado, o caráter privado da homossexualidade, e, de outro, a publicização do gay e de todo o orgulho que isso acarreta, mas disso não me atenho agora, deixemos para um outro momento – não se furta de uma performance pública pautada por certa fexação.

E é sobre isso que quero falar neste breve texto, minha estreia no Cultura e Sexualidade, este blog loosho total e já referência nos estudos sobre homossexualidades, de maneira específica, e sexualidades, de maneira mais ampliada.

Talvez, muitos leitores e leitoras devem, agora, estar se perguntando o que é fexação. Mas antes de acenar com uma possibilidade de resposta, cabe um parênteses: opto, por motivos acadêmico-políticos, por uma grafia indisciplinar e indisciplinada, que faria o picumã de muitos professores de língua portuguesa ficarem em pé! Portanto, a partir de agora, e até que as guei – assim mesmo, sem concordância – decidam pelo contrário ou por uma outra coisa que não sabemos o que é, porque é puro devir, escrevemos assim: fexação.

Mas vamos ao termo. De maneira rasa, mas não menos significativa, pode-se dizer que a fexação é um conjunto de signos e atos de linguagem marcados por uma performance do exagero e da afetação. Quanto aos signos, estamos falando aqui basicamente de roupas e acessórios; em relação aos atos de linguagem, e este é o sentido que quero mobilizar neste texto, a fexação se configura como um vasto repertório vocabular cuja força repousa, não sem ruído, em um entendimento performativo das palavras, quer dizer, na fantástica capacidade de as palavras nomearem e, nesse mesmo momento, criarem o mundo e as coisas que nele habitam. É quase que um poder demiúrgico que a liguagem possui: um poder, como queremos os pós-estruturalistas – e aqui já saio de minha cristaleira teórica! (sim, alguns estão no armário, outros, em cristaleiras), capaz de “criar” a matéria e materializar os desejos.

Dito isso, qualquer leitor e leitora, após assistir a uma cena de Félix Khoury, perceberá que certas marcas da fexação, mesmo que discretas, ali estão presentes: sua preocupação com a indumentária, alguns trejeitos ditos femininos e, o que mais me interessa aqui, suas engraçadas e muito comentadas expressões que, querem nos fazer entender, típicas de homossexuais, notadamente da tal “bicha má”, uma categoria inventada pelo fantasma heterossexual do medo do sucesso de viados e lésbicas. Mas deixemos isso de lado, isso também é assunto para um outro texto, e nos detenhamos nas tais expressões exóticas e engraçadas de Félix.

O questionamento que mais me intriga, e que me leva à escrita deste texto, é o seguinte: como um “homossexual no armário” pode expressar-se nessa “gíria gay“, que prefiro entender simplesmente como chavões cunhados pelo mercado do entretenimento, se, e essa é minha defesa, a fexação e tudo o que dela advém, são marcas de uma homossexualidade pública, erigida em certo orgulho gay?

E aqui uma ressalva: o orgulho gay que mobilizo como necessário à constituição de uma cadeia linguística da fexação, não se restringe necessariamente a uma compreensão identitária de homossexualidade, que desemboca em um estilo de vida gay, de viés estadunidense e mercadológico, ele vai muito além disso. O que aqui chamo orgulho gay transcende o já caduco dualismo “identitários X pós-identitários”, para pousar, não sem coceiras e incômodos, em identidades beeshas não fixas, mas que se estabilizam por momentos, cujo movimento encontra sua força no solapamento da heteronormatividade, sobretudo a partir da suscitação de incômodo na heterossexualidade que se quer una e imperativa.

Em meu projeto de doutorado, busco compreender o pajubá, repertório vocabular mobilizado pelas comunidades LGBT’s, notadamente por beeshas, esses homens homossexuais “fexativos e baphônicos“, como gostamos de dizer. Como uma das hipóteses de trabalho, mobilizo a noção de “ética beesha“, que seria uma postura calcada no combate às opressões e no estabelecimento de redes de solidariedade.

O pajubá, que é como nomeio esse repertório vocabular das guei, transcende os jargões de Félix, já que é resultado da partilha de uma série de valores e compreensões particulares sobre o mundo e sobre as coisas que nele estão; é um ato político calcado na ideia de performatividade da linguagem, no anseio que as beeshas têm de criar uma realidade outra, onde a diferença não seja empecilho para a dignidade humana, e na qual o Estado empregue uma nova forma de fazer política, sem violentar as diferenças ao encapsular as pessoas em identidades sociais, jurídicas ou médicas; é o ruído na episteme, e a prova de que o mundo nada mais é que contingências, e que a verdade das coisas, se é que há uma verdade, reside na pura diferença e na precariedade da aparente tão sólida estrutura social vigente no Ocidente.

As expressões da personagem Félix, nada mais que comicidade e produtos da indústria cultural cujo dono é certa hegemonia heterossexual, não são o nosso pajubá, o nosso eh, bunita! gostoso que ousa, atrevido e pródigo na fexação, interpelar a normatividade heterossexual. Os bordões de Félix, por mais engraçados que sejam, veja-se o famoso “Eu salguei a Santa Ceia!”, beiram à artificialidade – em um sentido negativo, já que, lato sensu, toda a linguagem é artificial e portanto arbitrária –, ao forçarem a barra colocando na boca da personagem uma frase como “Ela deu a Elza no celular”, que é nossa expressão-máxima, em pajubá, pr’as guei larápias e truqueras.

O pajubá, na esteira de Foucault, encontra sua força na resistência, na problematização do poder e de suas insidiosas artimanhas de codificação e controle dos corpos. O projeto do Pajubá é político e busca solapar, sobretudo por meio do escárnio e do estranhamento da linguagem – e daí poderíamos pensar no pajubá enquanto uma “língua queer” – a autoridade das normalizações, sejam elas de cariz identitário ou sexual, e até mesmo aquelas de aparência sólida e quase que sacramental que é a língua, os discursos, pra ficar no repertório focaultiano, esses grandes adversários quando o assunto é: quais são os corpos e coisas no mundo dignas de legibilidade e inteligibilidade.

O melhor do pajubá, e talvez muitas manas não tenham percebido, é que ele consegue ser poderoso na resistência aos discursos de normalização e normatização sem ser maçante, é algo do qual qualquer uma e um de nós pode, a qualquer tempo e lugar, usar e abusar, provocando risinhos aflitos nos censores da normatividade sexual e, como diz uma trava-irmã minha lá das bandas do Rio Grande do Sul, sambar bunito na cara da sociedade.

 

Glossário

As guei: não embolei os dedos não, bunita, gay é para as gringas, as guei é em pajubá mesmo, uma maneira de marcar certa produção teórica e ensaística brasileira, cujo principal precursor é João Silvério Trevisan. É uma provocação ao gênero e a capacidade gregária das beeshas, quando andam em bando dando baphão por onde passam. “A guei“, de maneira geral, é uma maneira pejorativa de referir outra beesha, sobretudo se ela está disputando o mesmo bophe que você.

Baphão: o mesmo que confusão, gritaria. De maneira genérica, uma altercação, que pode ser positiva ou negativa, ou simplesmente um boy-magya tudo que passa e as guei, comentando com as amigas: “baphão, bunita!”.

Beesha: o mesmo que bunita. O termo beesha, escrito por intermédio de uma grafia não ortodoxa, o usual é “bicha”, remete à ressignificação, que defino como pop, que as comunidades LGBT estão dando a processos fonético-fonológicos da língua inglesa. Essa grafia é de uso mais comum pelas beeshas do/no Rio Grande do Sul.

Bunita: o mesmo que a guei. No entanto, essa expressão é mais usada quando da interpelação carinhosa a uma amiga ou conhecida.

Bophe: o mesmo que macho. Ligeiramente diferente do sentido impresso a essa palavra na primeira onda do movimento homossexual brasileiro, que dizia respeito ao ativo da relação, àquele não-afeminado. No pajubá, contemporaneamente, bophe refere-se a qualquer boy que a beesha esteja interessada.

Cristaleira: palavra relacionada ao “armário”. Da mesma maneira que o armário consititui-se em um dispositivo político de cerceamento das identidades não-heterossexuais, a cristaleira também busca aprisionar as identidades, a diferença é que sua força de contenção é muito menor e, facilmente, a beesha arrebenta as paredes e as portas do fino vidro que a compõem.

Eh, bunita: saudação entusiástica. Esta expressão pode ser usada também para fazer referência a certo espanto entre uma guei e outra, que pode ser de cumplicidade, elas se olham e pelo “Eh, bunita” confidenciam algo, ou de estranhamento, quando uma das guei faz algo não esperado pela amiga.

Elza: Elza: é a beesha bandida, aquela que “bebe e roba” (assim mesmo, sem o “o”). Para a Beesha Elza não tem situação mais propícia para roubar que o próprio momento para roubar. Ela passa a mão mesmo. Pode ser desde a maquiagem da amiga, quanto aquele vestidinho tudo que a guei usou na última baladinha. Não importa, ela dá a elza mesmo. Por outro lado, a Elza pode se referir a uma situação genérica de roubo: beesha, cuidado, olha a Elza!

Elza Truquera: o mesmo que a Elza, só que com mais intensidade. A truquera é bandida mesmo. Vive do truque e para o truque cotidianamente. A palavra truquera, no entanto, pode ser usada separadamente, não significando, de maneira necessária, roubo, como quando, por exemplo, a beesha mente demais. Nesse caso, diz-se que ela é truquera.

Picumã: é o cabelo da beesha. Pode ser cabelo natural ou peruca.

Deixo vocês com um vídeo que é babado e aquendação, esta última uma palavra que vocês verão o significado no vídeo. Divirtam-se e fexem tudo. Até a próxima!

 

*Carlos Lima é doutorando do Programa Multidisciplinar de Pós-graduação em Cultura e Sociedade, integrante do grupo de pesquisa Cultura e Sexualidade (Cus) e seus interesses de pesquisa são a cultura, a sexualidade e suas imbricações com o Pajubá.

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