viviane v.

[nota inicial: ‘cis’, prefixo latino oposto ao prefixo ‘trans’, refere-se a ‘não trans’ quando pensamos identidades de gênero. Uma ‘pessoa cis’ é, assim, simplesmente uma ‘pessoa não trans’, para os efeitos desta análise. Cissexismo, por sua vez, se refere a uma miríade de discursos institucionais e sociais, de cunho supremacista e discriminatório, que inferiorizam identidades de gênero trans*, ou ‘não cis’.].

Este post é uma tentativa de reflexão sobre um recente produto comercial veiculado pelo grupo ‘porta dos fundos’, um vídeo denominado ‘casal normal’ (não fornecerei links, mas o produto é facilmente encontrado ao se buscar ‘porta fundos casal normal’), e os principais motivos para que ele valha tal investimento de meu (nosso) tempo são as possibilidades que ele traz de (1) analisar (mais uma) instância transfóbica e cissexista, e (2) perceber algumas formas pelas quais certas violências se revestem de uma capa de humor que passa despercebida, inclusive, por pessoas ditas aliadas no movimento GGGG e (infelizmente) por algumas pessoas trans*.

O casal trans* discute sob o olhar confuso de uma pessoa (cis) profissional.

Pontuarei alguns argumentos centrais para pensar estas duas possibilidades de reflexão:

(1) Não, não se trata de ‘somente’ uma piada.

Piadas são discursos, e discursos têm efeitos, têm poder: é através de discursos que constituímos, por exemplo, as ‘sacrossantas’ noções de homem e mulher, de moral e imoral, de ordem e progresso, de ‘humildade’ papal, de ‘vandalismo’. Piadas se inserem como mais um entre inúmeros instrumentos para construirmos o mundo, e infelizmente construímos (ou talvez tenham construído para nós) um mundo fodido de merda.

Sendo assim, torna-se necessário analisar que mensagens estas supostamente ‘inofensivas’ piadas estão transmitindo, neste caso particular sobre vivências trans*, ou vivências de gêneros inconformes.

(2) Instâncias de transfobia e cissexismo no vídeo.

(2.1) Comecemos pelo título, ‘casal normal’. Trata-se de uma evidente ironia com a qual a posterior ‘confusão’ gerada pela presença de um casal trans* (propositalmente exagerada no roteiro com os equívocos cometidos pelo casal e pelo personagem) trata de ‘brincar’, em uma onda de ‘hoje tudo é normal só que confuso’. Pensemos na chamada do vídeo, disponível no insuspeito site ‘kibeloco’, do qual faz parte ao menos um dos integrantes do ‘porta dos fundos’:

“Sabe quando tua mãe te flagra aos nove anos dançando Madonna escondido, te dá uma surra de toalha molhada, chora, se arrepende, diz que você pode ser quem você quiser, e quando você completa vinte e três anos, te espera no aeroporto voltando da Tailândia com peitos e se chamando “Paloma”? Normal.”

Normal. O ‘só que não’ fica por conta de quem assiste e se diverte com a ‘confusão’ instaurada no vídeo.

(2.2) Algumas pessoas contrapuseram que o vídeo seria positivo por mostrar o despreparo do personagem profissional em lidar com questões trans*. Eu começaria rebatendo isso com a simples constatação de que praticamente todas as pessoas profissionais estão despreparadas para lidar com questões trans* de maneira crítica (posso elaborar este ponto posteriormente), e que é bastante evidente que discursos como “então você é homem” (dirigido à mulher trans* do vídeo), “não estamos acostumados com esse tipo de coisa [sic]” e “então vocês são um casal gay” (dirigido ao casal trans* hetero) são percepções comuns da sociedade dominante. Sim, já passei por ocasiões do tipo.

O esquema problemático feito pelo personagem (cis) profissional.

O riso, inequivocamente, advém do choque gerado pelo ‘casal [sarcasticamente] normal’ à normatividade de gênero. “Não estamos acostumados com esse tipo de coisa”, diz o personagem e diz a sociedade em geral, e é na confusa explicação que o casal tenta dar que reside a piada. Como confirma um comentário de facebook ao vídeo, “Pois eh, Tá ficando complicado mesmo entender” esse tipo de ‘coisa’.

Essa hipótese também se desmonta quando assistimos ao ‘making-of’ do vídeo (http://bit.ly/145K9m7 — aviso de conteúdo transfóbico). Quando uma das pessoas da produção fala em “de repente ter uma última confusão de quem é a mulher” (em 2′ 15”, sobre o fechamento do roteiro com a questão da gravidez), fica explícito que o objetivo ‘humorístico’ é a confusão que pessoas trans* causam, e não qualquer apontamento sobre a incompetência do profissional — que, repito, é o arroz com feijão mundo afora.

A pessoa da produção explicando sua sugestão de como estabelecer uma “última confusão de quem é a mulher”.

(2.3) Precisamos também analisar a violência que existe na banalização do desrespeito aos nomes escolhidos por pessoas trans* neste produto. Todo o esquema que o profissional faz dos nomes sociais e de registro das pessoas trans* (desenhando ‘Mauro é Solange’ e ‘Cláudia é ‘Waldir’, bem como uma figura de seus corpos) retrata (problematicamente) desrespeitos cotidianos por que passam estas pessoas. Novamente, o alinhamento discursivo está na ‘justificada’ confusão do profissional, afinal “não estamos acostumados com esse tipo de coisa”. A ‘graça’ estaria em saber que aquela mulher chamada Cláudia (interpretada por uma mulher cis) é o Waldir, e que aquele homem chamado Mauro (interpretado por um homem cis) é a Solange — conforme indicado pela produção, é precisamente nesta confusão que está o cerne do ‘humor’.

Algo que talvez seja engraçado até que alguém de nosso convívio próximo passe por diversos constrangimentos e problemas devido ao fato de acharem que ‘ela é o Waldir’ ou que ‘ele é a Solange’. Até que alguma pessoa querida se depare com familiares e instituições negando a todo o tempo o respeito a seu nome escolhido, e não um nome imposto no nascimento, até que esta pessoa tenha de se submeter aos olhares invasivos das instituições jurídicas e médicas para ter concedida a oficialidade do nome escolhido — concessão que é algo muito diferente de direito consolidado.

(2.4) Finalmente, para além das tentativas de dizer que a mulher trans* é na verdade um homem, e que o homem trans* é na verdade uma mulher, existe uma promoção dos estereótipos de gênero que é baseada no que estas pessoas seriam ‘de verdade’ — ‘homem’ e ‘mulher’, respectivamente. É assim que, ao final, surge a ‘verdadeira essência’ destas pessoas: a mulher trans* se torna agressiva e impositiva, e o homem trans*, frágil e sensível.

Talvez a parte dos estereótipos de gênero seja mais facilmente criticável, afinal esta é uma luta também encampada por pessoas cis diante dos modelos de gênero dominantes. ‘Por que homens têm de ser assim?’, ‘Por que mulheres têm de ser assim?’ são questionamentos relativamente comuns. Mas também é preciso notar a transfobia que está presente na essencialização das identidades e expressões de gênero a partir do que os corpos supostamente diriam, isto é, na pressuposição de que mulheres trans*, por serem ‘corporeamente homens’, teriam comportamentos ditos ‘masculinos’ que, no máximo, são camuflados e disfarçados.

Um pouco além disso, temos também de refletir sobre o estereótipo constante de que pessoas trans* necessariamente se alinhem ao binário de gênero — ou seja, que necessariamente almejem serem homens e mulheres à imagem e semelhança das pessoas cis. Isto é uma simplificação grosseira do conceito de gênero como um todo, e um apagamento de diversas identificações fora deste binário. É provável que esta discussão, entretanto, seja complexa demais para quem sequer notou a evidente transfobia e cissexismo do vídeo.

(3) O surreal como problema.

Representações de pessoas trans* na mídia, de uma forma geral, são associadas ao deboche, ao abjeto, ao falso, ao fantástico e-ou ao hipersexual, seja nas representações supostamente humorísticas (onde tanto este produto do ‘porta dos fundos’ quanto o ‘zorra total’ e tantos outros se encaixam), seja nas representações supostamente ligadas à visibilização de pessoas trans* (pensando, por exemplo, em programas de auditório e documentários). Evidentemente, e apesar da baixíssima qualidade que a esmagadora maioria destes produtos midiáticos têm, há alguns elementos a serem aproveitados — a percepção de que pessoas trans* existem talvez seja uma delas (iupi). Entretanto, permito-me estimar que o saldo geral está longe de ser positivo: muito pelo contrário.

Se é verdade que existências trans* passaram a ser visíveis e a configurar identificações e identidades em diversos lugares através dos produtos midiáticos (há, por exemplo, diversos relatos de pessoas trans* que passaram a se compreender no mundo a partir de histórias midiatizadas como as de Christine Jorgensen e Roberta Close), também é muito marcante que a constituição destas vivências, identificações e identidades seja permeada por uma luta constante contra estereótipos desumanizantes, degradantes, e inferiorizantes.

Pessoas trans* convivem com a ideia constante de que suas identidades são falsas, um mero devaneio ou imoralidade.

Pessoas trans* convivem com a ideia constante de que não há lugar para si em lugares tidos como ‘normais’ (mesmo lugares GGGG), a não ser que sua presença seja monitorada por olhares e comentários inferiorizantes.

Pessoas trans* convivem com a ideia constante de que, se não acreditam na verdade natural de que são homens e mulheres, devem ser doentes mentais ou pessoas confusas que, no máximo — e via patologização médica — devem almejar serem mulheres e homens mais estereotípicos que mulheres e homens cis, e detestar seus próprios corpos.

Acima de tudo, finalmente, o vídeo, ao retratar com escárnio um casal trans* hetero, passável, de classe média e cuja grande preocupação é sobre como falar de sexo para sua criança, é um tapa na cara da grande maioria das vivências trans* que lutam para terem suas identidades reconhecidas (e não debochadas), que lutam contra o desemprego, o subemprego e sobrevivem a prostituições em condições degradantes, que lutam contra a disforia corporal, a depressão e o suicídio que a sociedade provoca, que lutam contra a babaquice das representações midiáticas, das exotificações acadêmicas e das conivências de movimentos GGGG e de pessoas ‘confusas’ e ‘bem intencionadas’, que sobrevivem a assassinatos brutais que envolvem torturas, estupros e espancamentos. Sinceramente, explicar para uma criança como trepamos não está no primeiro lugar da lista — em realidade, poucas são as pessoas trans* que têm o privilégio de cuidar de uma.

O vídeo, em suma, é um tapa na cara da luta antiopressiva que, por todos os meios necessários, procura humanizar as pessoas trans* em toda sua complexidade, diversidade e resistência.

Não daremos a outra face.

*viviane é integrante do grupo de pesquisa em Cultura e Sexualidade – CUS – e mestranda do Programa Multidisciplinar em Cultura e Sociedade da UFBA. Ela também é blogueira e sempre posta em http://porcausadamulher.wordpress.com/

Share This
Leia o post anterior:
“Jesus é babado!” A aventura das “bichas pintosas” nas igrejas evangélicas

Gilmaro Nogueira As igrejas evangélicas contam com muitos fiéis homossexuais. Alguns testemunham “a cura” e esses sempre estão falando do...

Fechar