Carlos Henrique Lucas Lima*

O dia 20 de novembro marca o Dia da Consciência Negra, momento em que negras/os de todo o País celebram e afirmam a negritude. Contudo, depois de tantos séculos de escravidão e racismo institucional, amparado juridicamente pelo Estado Brasileiro, não podemos afirmar que o racismo, e quem sabe talvez sequer a escravidão, tenham chegado ao fim.

São constantes, e amplamente noticiados, os casos de discriminação por raça/etnia. Numerosas também são as notícias de descoberta de trabalho escravo em pleno século XXI. Todas essas notícias nos chocam, mas, ao mesmo tempo, chamam a atenção para o fato de que discursos e práticas racistas não cessam à simples dança da caneta presidencial que firma uma lei. Tais discursos e práticas são poderosos pois representam a perpetuação de uma metodologia de coisificação/abjetificação do outro – nesse caso do negro – inaugurada com o colonialismo europeu do século XVI.

Por exemplo, muito embora muitas pessoas compreendam que somos-todos-iguais-e-que-ninguém-deve-ser-discriminado, máxima que é repetida quase que como um mantra, os sistemas de representação e a própria linguagem que utilizamos para nos referir aos/às negros/as, mantém, e o que é mais grave e crucial para o argumento deste texto, ajuda a perpetuar um entendimento que termina por essencializar os corpos/subjetividades de negros e negras. E é sobre isso especificamente que quero falar agora.

Flanando pela internet, me deparei com esta notícia “No dia da consciência negra, festa de sexo com homens bem dotados agita São Paulo”. É preciso dizer que já o título da matéria toma como premissa a ideia de que homens negros têm pau grande; em segundo lugar, vale também dizer que a notícia, ao supostamente apenas informar um conjunto de festas para celebrar o Dia da Consciência Negra, parece que tem como público leitor os homossexuais brancos e, no mínimo, de classe média, clientela que mais se interessaria pelas “peças” negras. Segue-se ao título do texto, a foto que reproduzo logo abaixo.

Festa com "negões pauzudos" agita noite do Dia da Consciência Negra

Mas qual é o grande problema de tudo isso? Haveria alguma coisa de ruim ao apenas noticiar uma festa cujo mote é a comemoração do Dia da Consciência Negra em um clube de sexo para homens gays? Seria este texto mais um exemplo do chamado politicamente correto norte-americano? Quero, para responder a essas e outras questões, invocar algumas ideias da crítica cultural contemporânea, mais especificamente aquela de orientação pós-estruturalista.

Em primeiro lugar, a identidade e a diferença são produções culturais mediadas por relações de poder. Nunca dados a priorísticos da “realidade”. Quando afirmo isso, o que quero dizer é que não há uma essência na negritude que informe sua predileção pelo sexo desenfreado e a presença de uma virilidade sem-fim. Sustentar isso é reeditar o racismo científico que alimentou as proposições de sujeitos como Nina Rodrigues e Euclides da Cunha, para os quais raça e meio eram cruciais para a definição da subjetividade.

A negritude, como todo construto cultural, é exatamente um construto, resultado de intrincadas operações, cuja origem se encontra nos sistemas de diferenciação, ou seja, o negro é a minha diferença, ele é aquilo que eu não sou. E não é preciso marcar quem é o referente de afirmações como essas.

Em segundo lugar, se já combinamos que a negritude, ou apenas a identidade negra, assim como toda e qualquer identidade, é resultado de operações linguísticas de diferenciação, sempre mediadas por relações de poder, ao repetirmos ideias prontas sobre negros e negras indefinidamente, em um movimento linguístico que o filósofo argelino Jacques Derrida chamou citacionalidade, ao contrário de tão só indicarmos uma “realidade”, um “fato” da vida, acabamos por produzir a mesma realidade que pensávamos apenas estar descrevendo. Retiramos a sentença/ideia “negros são pauzudos” de um repertório cultural já cristalizado, e, portanto, naturalizado, pela repetição, e o inserimos em um novo contexto que imaginamos ser fruto de nossa plena vontade, de nossa ideia original sobre os corpos negros.

Em terceiro e último lugar, venho pincelando que a instituição da identidade e da diferença é mediada por relações de poder. Dizer isso é constatar que não é qualquer pessoa e/ou grupo social que pode, ao seu bel-prazer, produzir identidades e diferenças. São aqueles grupos em posições privilegiadas de poder que dispõem das condições materiais e simbólicas capazes de produzir, de modo mais eficiente, identidades e diferenças. Assim, não são os negros, no exemplo de nosso texto, que produzem suas identidades, que formulam a ideia “somos pauzudos e viris”, mas sim discursos racistas, e às vezes disfarçados de “fetichistas” – mas que não deixam de ser menos racistas, como é o caso da matéria que “noticia” a festa com homens negros pauzudos –, os quais terminam por retomar e reforçar estruturas racistas conhecidas por nós de longa data.

Na mesma página dessa notícia, há uma chamada para um link externo em que são anunciados vídeos de “homens negros metendo a vara sem dó”, em que um dos primeiros vídeos a estampar a home do site tem a seguinte frase por título: “Uma gangue de negros favelados metendo sem parar”. Parece que começamos a enxergar, assim, como que a linguagem, longe de supostamente apenas relatar/descrever uma “realidade” da vida, uma “verdade” do mundo, qual seja, “os negros são pauzudos, comedores e são todos favelados”, ao fim institui a própria realidade, reforçando estereótipos racistas, e, no caso em questão, também classistas.

Mas é possível subverter os estereótipos. A despeito de sermos subjetivados, quer dizer, produzidos como sujeitos pela linguagem, devemos ter presente que essa mesma linguagem nem sempre é firme e constante. Ela escapa. Desliza constantemente. Como assim? Se nossas identidades são resultado de processos de diferenciação, de constantes repetições linguísticas que terminam por se naturalizar, elas podem, de igual forma, serem construídas de outras e renovadas maneiras, subvertendo e complicando as representações que se querem “originais” e “verdadeiras”.

Por exemplo, homossexuais negros também podem ser passivos! Homossexuais negros não necessariamente terão picas grossas e enormes; não necessariamente farão sexo a todo o momento, só se assim o desejarem! É preciso que tiremos as lentes racistas, ranço e espectro da colonização, e invistamos em renovadas e variadas formas de viver nossas sexualidades e desejos. Mas esse não é um movimento descomplicado: os sistemas de representação são fundamentais nessa questão toda. Esses sistemas, como a TV, os jornais, as revistas, os sites etc., da mesma forma que anteriormente afirmei, antes de supostamente apenas representarem a “realidade” em suas linguagens, ao cabo terminam por instituir verdades e realidades sobre os corpos de negros e negras. De homossexuais e também de heterossexuais.

Neste Dia da Consciência Negra, comece por desconstruir os estereótipos sobre a negritude e sua(s) sexualidade(s). Talvez esteja aí uma ideia bacana para compreender a noção de “consciência”.

Beijos afrogueis!

* Professor no IHAC-UFBA, doutorando no Programa de Pós-graduação em Cultura e Sociedade e membro do CuS – Cultura e Sexualidade.

Share This
Leia o post anterior:
Qual é o desejo da nação brasileira? As igrejas evangélicas e a unidade nacional

Carlos Henrique Lucas Lima* O título deste texto é uma referência a um livro de nome O desejo da nação...

Fechar