Carlos Henrique Lucas Lima

A cena (Numa rua de Salvador, a Roma Negra): “Posso presenteá-lo?”, e o folhetinho pendendo na mão, vontade de conversão. Não respondi. “Jesus te abençoe”, disse a prosélita, com um sorriso-baba, vontade-de-levar-pro-céu-a-todo-custo. “Exu também”, falei. E ela rosnou pragas egípcias, daquelas que dizimaram etnias inteiras no Antigo Testamento. Em Cristo, sempre. E com muito amor de “Deus”.

Penso que nós, as beeshas atraquentas, as babadeyras mesmo, não me refiro às pelegas arrivistas e que se alimentam, via sonda, das benesses governamentais, estamos sendo muito condescendentes em relação à forma como nosso país vem sendo governado nos últimos anos, bem como em relação às políticas (elas existem?) de/para/sobre pessoas LGTB’s. Nossa covardia, medo da fome que adviria de um possível corte dos parcos recursos para pífios programas de “promoção de direitos humanos”, é lamentável e nos levará, creio eu em não muito tempo, a senão um extermínio, pelo menos a uma situação de contenção, tal qual uma doença epidêmica, dos e das LGTB’s. Exagero?

Ontem, lendo o jornal O Globo, volto ao passado em que Estado e Religião andavam de mãos e órgãos genitais ainda mais unidos (uma relação poderosa, quase familiar), e me deparo com a notícia de que a aliança de partidos que pretende reeleger a presidenta Dilma, do Partido dos Trabalhadores (PT), criará um “comitê evangélico” visando a tranquilizar “os pastores” dessas religiões (que me recuso a ler como una: é um cristianismo macarrônico cuja única unidade é a perseguição àquelas identidades não heterossexuais), preocupados que estão com o avanço (oi?) de pautas – como o aborto e legalização da maconha – nos discursos públicos de certos presidenciáveis. E não apenas a aliança de partidos que pretende reeleger a presidenta Dilma está se articulando nesse sentido, mas também outras matilhas políticas: o PSB – e Miguel Arraes deve estar remoendo-se em seu túmulo – e o PSDB anunciaram uma “aproximação” de segmentos religiosos evangélicos. Isso sem contar com a candidatura própria dos evangélicos fundamentalistas, representada no Pastor Everaldo, do famigerado PSC (aquele do Marco Feliciano).

Tudo isso me levou a pensar que os estudos queer , essa linha teórica que baliza nossas pesquisas, nossas, as bees que eu estou chamando “atraquentas e babadeyras”, e que nos conduz a críticas radicais aos poderes que nos querem encarcerar e coagir, seja corpos seja mentes, (ao contrário do que aconteceu na Espanha, por exemplo) não têm sido suficientemente potente para nos mobilizar no sentido de, por um lado, criticar, veementemente, sem “apesares” e “entretantos” condescendentes, os sujos pactos do governo Dilma e aliados com segmentos sociais contrários à extensão da cidadania, e, por outro, propor caminhos, no campo da materialidade da vida, de respeito à diversidade e à diferença. (Sim, os estudos queer e demais teorias da subalternidade não apenas possuem potências para criticar, mas também de propor e de intervir diretamente nos rumos do mundo.) De fato, não são apenas os estudos queer, ainda recentes, que no Brasil não produziram críticas radicais sobre o campo das sexualidades. Inclusive as velhas perspectivas teóricas da sexualidade até agora não chegaram no centro do nosso ativismo. Basta ver como grande parte do ativismo LGTB ainda explica a sexualidade através de um viés biológico e genético, ao contrário do que evidenciam décadas de estudos no campo das ciências psi e das humanidades.

Presidenta Dilma e a pastora Ana Paula Valadão

Mesmo aquelas e aqueles que militam, que guerreiam no campo dos feminismos e dos estudos gueis e lésbicos, ou aqueles ativistas mais antigos, cuja práxis já tem cabelos brancos, pessoas essas sem uma vinculação direta com os estudos queer – que se querem mais radicais, teimam por defender projetos de existência física e simbólica que relegam pessoas não heterossexuais (não brancas, não cristãs, não ocidentais) ora à respeitável e invisível condição de “cidadãos de bem”, tolerados se andarem conforme à cartilha da heteronormatividade, ora à subcidadania do que eu chamo “estado mágico de esperança”.

Quanto à primeira possibilidade, mais fácil de sacar o sentido, diz respeito a uma adequação das pessoas “queer”, ou das pessoas do NÃO – “não heterossexuais”, “não brancas”, “não cristãs”, “não ocidentais” etc. – a um estilo de vida, que se pretende verdadeiro e normal, e que se pretende por força de lei – e esse é o desejo da macabra “bancada evangélica” –, um modo de vida contrário à diferença, cujo esforço, extremamente violento, é o de homogeneizar a tudo e a todos, sob a benção de “deus”, é claro. (Já falei sobre isso no blog, leia mais aqui.)

Sobre a segunda possibilidade, a interpretação é mais complexa e peço que as e os leitores tenham um pouco mais de atenção e acompanhem o raciocínio esquizofrênico desta beesha que escreve. A subcidadania do “estado mágico de esperança” tem a ver com o já velho comportamento brasileiro de sempre esperar o melhor, de, mesmo à luz das evidências, muitas vezes abundantes, negar os fatos e aferrar-se a um futuro no qual tudo se resolverá. “É questão de tempo”, dizem. Quer dizer, muito embora se esteja em uma situação em nada favorável às pessoas que aqui chamei do NÃO, cremos, ou melhor, os e as adeptas do “estado mágico de esperança” acreditam que o “melhor ainda está por vir” (algo notavelmente cristão, não acham?). Nietzsche explica.

Não, queridos e queridas compas dos feminismos, dos estudos queer, da subversão da noite e dos congressos comportados em que um fala em língua estrangeira e os outros escutam: não estamos em uma situação favorável; não, as coisas não hão de melhorar; não, a presidenta Dilma não tem um plano secreto para nos beneficiar no futuro, enganando os evangélicos. Temos de passar do marasmo contemplativo, da crença no “estado mágico de esperança” para o atraque queer, para uma estratégia da catreva, que, em bom pajubá, não tem a ver com acomodação e sedentarismo: é uma atitude, ou como diz a pajubeyra-amiga Clebemilton Nascimento, “uma forma de existência”, de alargamento ininterrupto das fronteiras da humanidade. O “estado mágico de esperança” fecha, quando se omite, as fronteiras da humanidade. A catreva, por outro lado, vai alargando e empurrando, o máximo que pode, os marcadores do que vem a ser um corpo que importa.

Se seguirmos nessa inércia, em breve, logo logo, quase ali, na esquina de outubro, as pessoas do NÃO passarão desse estado para outro, o da não existência. Do esquecimento.

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PS: Leandro Colling escreveu, aqui mesmo no blog, um texto que comenta os programas, mesmo que preliminares, dos e das presidenciáveis. Você pode ter acesso ao texto aqui.

 

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