Leandro Colling

Nas andanças por alguns países, para a realização de minha pesquisa de pós-doutorado, uma das tantas coisas que chamou a minha atenção foi o fato de ver que a imprensa de alguns países, como Argentina e Espanha, incorporaram a expressão “violência de gênero” quando tratam sobre casos em que homens matam mulheres, em geral suas esposas. Nos últimos dias, na Espanha, foram noticiados dois crimes deste tipo, ambos tidos por vários meios de comunicação como “violência de gênero”.

Esta forma de cobrir os crimes difere muito do que estamos acostumados a ver no Brasil. Eu poderia dar vários exemplos, mas vou ficar apenas em um deles, que também me chamou atenção por um outro motivo, como explicarei a seguir. Em julho, um enfermeiro de Salvador matou a sua companheira com golpes de faca depois dela ter revelado a ele que estava grávida de outro homem. O caso foi noticiado como “uma triste história”, mais um assassinato, motivada por o que se considerou como “traição”, sem a imprensa perceber a explícita motivação machista do ato.

Não sou daqueles ativistas que pensam que qualquer crime cometido contra uma mulher, ou homossexual, é motivado necessariamente por machismo ou homofobia. A violência, cada vez mais crescente no Brasil, também atinge mulheres, LGBTs e outras ditas “minorias”. No entanto, alguns casos são explicitamente motivados por violência de gênero e/ou homofobia. O caso citado acima nos mostra que a violência de gênero pode ser gerada pela tal “traição”, outra ideia que precisa ser muito bem problematizada e desconstruída caso queiramos que estes crimes deixem de acontecer.

Enquanto muitos (eu arriscaria dizer a maioria) dos casais possuem, em algum momento das suas vidas, uma relação afetivo-sexual com outra pessoa e, apesar disso, defendem publicamente e de forma hipócrita que são “fiéis”, essa mulher baiana, grávida, agiu com sinceridade e foi brutalmente assassinada. Ela preferiu a verdade, rejeitou a hipocrisia de muitas outras pessoas, notadamente homens, e teve sua vida interrompida. E o que mais este caso nos diz?

O caso nos diz várias coisas, vou elencar apenas duas que, via de regra, são menos percebidas quando se fala em “traição”: 1) as pessoas, mais significativamente os homens, no alto do seu machismo, consideram as mulheres como suas propriedades. A outra pessoa que compõe o casal não é vista como um ser humano que tem os seus desejos próprios, mas os seus desejos devem, obrigatoriamente, ser canalizados apenas e exclusivamente para o/a outro/a; 2) na ideia de “traição”, além do outro ou outra ser propriedade, existe uma ligação automática entre amor e sexo. Ou seja, se eu amo uma pessoa, eu não posso, em hipótese alguma, em algum momento, desejar sexualmente outra pessoa. Se consumar algum ato sexual fora do casamento ou, em alguns casos, apenas imaginar, automaticamente pensamos que esta pessoa não ama mais aquela com quem mantem uma relação.

Como é possível perceber, as duas coisas estão completamente entrelaçadas e fazem parte de ideias completamente internalizadas e naturalizadas pelas pessoas. O que quero dizer com isso: as pessoas acham que só existe esta forma de amar e de se relacionar com alguém, como se a humanidade, em sua história antiga ou recente, não possua também outras formas de amar e de manter vínculos afetivo-sexuais. Uma mera pesquisa na internet bastaria para verificarmos que determinadas sociedades não criminalizam a poligamia.

Quero concluir falando de outro caso, que também chamou minha atenção nestas andanças. Em Portugal, como em outros vários países, existem os chamados movimentos poliamorosos (no Brasil, além de Poliamor também temos a Rede de Relações Livres), que reúnem pessoas que são simpáticas ou praticantes de relações nas quais existem mais de duas pessoas envolvidas. Pois esse movimento, no caso português, tem sido atacado por determinados setores do país, inclusive por parte do movimento LGBT, que não quer ver essas pautas vinculadas com as suas bandeiras. O pesquisador Miguel Vale de Almeida, muito conhecido no campo das sexualidades e gêneros do Brasil, diz que não critica a poliamoria em si, mas é um dos que entendem que a ligação de pautas do poliamor com o movimento LGBT torna mais difícil a aprovação de marcos legais que favorecem as pessoas LGBT (leia texto aqui), como se não houvessem relações poliamorosas também entre LGBTs. Daniel Cardoso, um dos principais ativistas do poliamor de Portugal acaba de publicar um texto acadêmico, em inglês, em resposta a Almeida (leia aqui)

Além deste rechaço de parte do movimento LGBT, outro dia o médico português Manuel Damas teria proferido, em um programa de rádio do país, declarações que inclusive incitavam à auto-mutilação ou suicídio das pessoas poliamorosas, tidas por ele como doentes e criminosas. Ao ler a carta aberta do PolyPortugal contra o médico (subscrita por outra parte do movimento LGBT que apoia a causa), que circulou nas redes sociais e pode ser lida na íntegra aqui, fiquei cá a pensar sobre as relações entre as pautas poliamorosas e assassinato da jovem baiana e reafirmei algo que já pensava: o ideal de monogamia que temos em nossa sociedade também mata. Não estou defendendo que todas as pessoas sejam obrigadas a ser poligâmicas. Quem estiver feliz com apenas um parceiro/a, continue na sua felicidade. Estou propondo que as pessoas sejam menos hipócritas e quem desejar montar outras formas de relação não seja considerado doente ou criminoso.

Portanto, pensar nas causas das múltiplas violências de gênero implica em, também, repensar nossos conceitos de amor, sexo, traição, fidelidade, casamento, monogamia etc etc.  Isso sem falar na necessidade de entendermos que a violência de gênero não se restringe aos crimes que homens cometem contra as mulheres.  Nela também devem ser incorporadas todas as violências sofridas pelas pessoas que não se conformam com as normas de gênero criadas em nossa sociedade e mantidas à base de muita violência. E esses casos não são considerados “violência de gênero” pela imprensa da Argentina e Espanha e nem por boa parte do movimento feminista destes países, do Brasil idem. Mas esse é um tema para outro texto.

 

Share This
Leia o post anterior:
Do marasmo contemplativo ao atraque queer: o que as beeshas têm feito para enfrentar o fundamentalismo religioso?

Carlos Henrique Lucas Lima A cena (Numa rua de Salvador, a Roma Negra): "Posso presenteá-lo?", e o folhetinho pendendo na...

Fechar