“Nós pessoas trans além de sermos todxs Verônica somos os dentes dela que se revoltou por ela e por nós.” Indianara Alves Siqueira, extraído do Facebook

Carlos Henrique Lucas Lima

Ultimamente tenho refletido sobre a legitimidade da violência nos casos em que ela é empregada por sujeitos pertencentes a minorias sexuais e étnicas. Haveria casos em que a violência se justificaria? Seria possível pensar em uma legitimação da violência? Defender ações violentas como um gesto político não seria incentivar a vingança no lugar de confiar na justiça?

Pensei nesse tema sobretudo após assistir ao filme Django Livre, de Tarantino, e depois de ler notícias que divulgaram o espancamento brutal e a humilhação pública da travesti Veronica Bolina por parte da polícia de São Paulo. A imagem publicizada pelos meios de comunicação a mostram jogada no asfalto com os seios expostos e com o rosto completamente desfigurado. Segundo o que se depreende da leitura de algumas dessas notícias, as agressões sofridas por Bolina seriam a resposta policial a uma mordida na orelha que ela teria dado em um agente carcerário, as quais, ainda segundo as fontes, implicaram a decepação de parte do órgão. A imagem de Bolina divulgada pelos meios de comunicação revela um corpo no qual não habita uma pessoa: trata-se de uma incompreensível carne ferida e animalizada.

No filme de Tarantino, a personagem Django, escravo negro que tem sua liberdade comprada pelo caçador de recompensas alemão conhecido por “Dr. Schultz”, parte na companhia deste em uma jornada cujo propósito é a libertação de sua amada, uma negra que pertence a um cruel “sinhozinho” organizador de lutas entre negros (uma espécie de arena da morte da qual só se sai vivo ou morto). Acompanhadas por uma espetacular trilha sonora, como não poderia deixar de ser em se tratando de uma película de Tarantino, as cenas de violência põem em primeiro plano um Django livre, que exerce o papel ao mesmo tempo de juiz e executor de pessoas que a narrativa fílmica faz questão de representar como seres desprezíveis e passíveis de serem mortos.

Django Livre e o espancamento brutal da travesti Veronica Bolina têm em comum a marcação de raça/etnia dos sujeitos que protagonizam as narrativas: são, ambos, negrxs que ocupam posições de extrema vulnerabilidade nas sociedades nas quais aparecem. A personagem de Django não só se rebela em relação aos estereótipos sobre as pessoas negras (em uma cena do filme, a personagem do sinhozinho, representada pelo ator Leonardo DiCaprio, disserta sobre a “inferioridade” dos negros, ilustrando sua fala a partir de argumentos da frenologia), como também decide, ela mesma, punir com a morte os responsáveis pela deplorável e desumana situação em que se encontram as pessoas negras. Bolina, de igual forma, rebela-se contra a desumanização que de si – e de todas as inorias – fazem não apenas a polícia, ao expô-la como homem com roupas de mulher, e isso se pode verificar sobretudo pela raspagem de seu cabelo, como, ainda, todo o aparato estatal que, teoricamente, deveria preservar a integridade de seu corpo e instaurar a justiça.

Mas Veronica Bolina transcende os marcadores da negritude e duplamente é marginaliza ao ser lida como travesti negra, um corpo que desafia a suposta fixidez dos gêneros – masculino/feminino –, embaralhando-os e problematizando o olhar de quem entende a vida como um binômio em que as partes não se tocariam. Um mundo de gente simplória, medíocre e, a cada dia que passa, perigosamente mais ameaçadora: para esses sujeitos as pessoas trans permaneceriam nas brumas da noite e/ou nas seções policiais dos jornais, de preferência mortas com requintes de crueldade; um mundo em que as pessoas negras se contentam com pouco, que para os simplórios seria o bastante, e permaneceriam servindo às mesas de sujeitos que mais parecem sinhozinhos do passado com roupas do presente.

Essas duas narrativas, a do filme de Tarantino e a da coisificação-animalização de Bolina, levaram-me a refletir acerca, como disse, da legitimidade da violência produzida pelos sujeitos pertencentes a minorias sexuais e étnicas, uma violência que é menos origem e mais reação a situações de opressão: trata-se de uma violenta resposta do sujeito minoritário às sucessivas investidas tanto da branquitude quanto da heteronormatividade, esses dois regimes políticos e do âmbito do conhecimento cujo principal propósito é a sujeição/assujeitamento do corpo e das subjetividades não brancas e não heterossexuais.

Defendo que a violência, quer dizer, a decepação da orelha do agente policial por parte de Bolina, deve ser lida aqui como estratégia de reação das minorias, e que se não se constitui enquanto a forma mais desejável de enfrentamento às opressões, aos assujeitamentos (penso que todxs concordam com esse ponto), é, em uma sociedade na qual o fascismo abunda – vejam-se, por exemplo, as caricaturas de manifestantes que povoaram os protestos “contra o PT e contra tudo que está aí” –, uma das poucas, talvez a única, possibilidade de re(ex)sistência operada pelas pessoas igualmente violentadas. Assim, tanto Django, personagem de uma ficção que pensamos distante, quanto Veronica Bolina, personagem protagonista de uma cena infelizmente cada vez mais comum, legitimamente lançam mão da violência, a violência enquanto reação, resposta do oprimido ao discurso e às práticas do opressor.

Muitas pessoas que conheço, mesmo as próximas, dizem que das travestis querem distância: nelas não se pode confiar, dizem ainda, que são elas perigosas e dadas a “confusão”. Dia desses escutei a seguinte máxima: “em casa de travesti as facas não têm ponta”, uma outra maneira de corroborar o que mais acima apontei. O que esses “críticos” ignoram é que a violência é a linguagem da qual o corpo se utiliza para enfrentar, no caso em análise, a transfobia. E é por isso que o pajubá, o repertório vocabular e performativo do qual algumas pessoas de gêneros e sexualidades dissidentes lançam mão, orbita sobretudo em torno de temas como a violência policial, os perigos da noite, o uso de drogas lícitas e ilícitas. Se o aparato do Estado que deveria proteger e promover a justiça assim não age, resta aos sujeitos injuriados, isto é, pessoas cujas identidades se fundam na injúria de variada ordem, recorrer à violência como ação legítima de enfraquecimento, e o que é melhor, de exposição das estruturas que os mantêm em uma condição de subumanidade.

Houve uma época em que a metodologia de protesto do Dr. Martin Luther King Jr. muito me agradava: vejo em minha mente as lindas e emocionantes imagens em duas cores reprisadas pela TV em que sujeitos negros passivamente apanham de brancos. É algo bonito. Cristão. E a cena de Rosa Parks, inamovível no assento reservado a brancos nos coletivos nos EUA, é disso emblemática. Formam, essas ações, os chamados “protestos pacíficos” por direitos civis. Mesmo que todo protesto seja um ato de violência, conforme sustentei em um outro momento, percebo agora que aquelas violências que vão além do âmbito do simbólico, e me refiro às violências materiais – que ferem o corpo, às vezes de maneira irreparável, não devem ser deslegitimadas porquanto supostamente perigosas à manutenção da ordem: é exatamente a ordem das coisas tal como está que permite que alguns valham – literalmente – mais do que outros; que algumas mortes sejam choradas, outras não; que algumas tirem doces fotografias com o braço armado do Estado – a polícia, e outras tenham seus seios publicamente expostos e recebam, no lugar de solidariedade, desprezo, ódio e porrada. É a brutalidade do golpe, da “lampadada”, da facada e do tiro que retorna, envernizada pelo Estado, como ação policial amplamente corroborada pelos cidadãos do mundo da normalidade, exímios comentadores virtuais, gestores que estabelecem os limites e as possibilidades das existências e das corporalidades.

Há, sim, portanto, violências legítimas. Duros gestos que se configuram como reações aos discursos e práticas materiais de subumanização de algumas pessoas. A violência mobilizada pelo sujeito minoritário tem uma potência singular: ao mesmo tempo em que expõe os sistemas de regulação dos corpos e das subjetividades, deixando patente sua materialidade, sua ação direta no campo da vida, nos convoca a elaborar estratégias de enfrentamento a essas mesmas estruturas que vão além da reação e se concentram em seu desmonte, ou, pelo menos, em seu enfraquecimento. Creio que é chegado o momento de sermos menos reativos. De qualquer forma, há ainda muitas orelhas para arrancarmos fora.

 

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