Carlos Henrique Lucas Lima

Talvez possa soar estranho para algumas pessoas um professor afirmar que “a educação não resolva tudo”. Estranho porque, de uns tempos pra cá, passamos a crer como sociedade que a educação é a melhor forma para o enfrentamento da ignorância, da violência, e, no extremo, das desigualdades. Antes de mais nada, preciso dizer que eu, por um longo tempo, acreditei nisso também. E a palavra que uso não é gratuita: “acreditar”. Sim, tratava-se de uma crença, de uma percepção quase que mágica da educação a dobrar os corações e mentes de protofascistas inveterados. Sei que parto de um entendimento extremamente reducionista da educação, que não é efeito imediato, mas sim processo, ação no mais das vezes lenta que atua em distintas frentes e de distintas maneiras. De qualquer forma, o que desejo evidenciar é que a ladainha da educação-tudo-resolve nos impediu de refletir seriamente sobre os sentidos da educação e, mais do que isso, produziu uma extrema simplificação da história.

Em alguns outros textos aqui no blogue, defendi que existem violências legítimas. Afirmei isso em referência às reações das minorias em relação a ataques de ódio sofridos. Sempre quando coloco essa tese em discussão em minhas aulas na Universidade Federal do Oeste da Bahia (UFOB), gera-se um imenso burburinho. Certa vez, em uma mesa sobre minorias, violências e direitos, na mesma UFOB, defendi que os sujeitos minoritários deveriam lançar mão de terrorismos culturais como forma de escandalizar as normas sociais excludentes e violentas. Um professor que me sucedeu a fala, “com todo o respeito”, disse que era “irresponsável” fomentar o “terrorismo” (sic), mesmo que cultural, diante de uma plenária de estudantes. Não quero agora refazer os argumentos utilizados à ocasião, pois o leitor pode ter acesso a eles aqui, mas trazer alguns outros com vistas a defender não que abandonemos a educação como forma de superação da ignorância e das desigualdades, mas sim que não apostemos exclusivamente nela, e mais: quero defender o direito de grupos discriminados de se organizar coletivamente visando a enfrentar o ódio que não teme dizer o seu nome.

Trailer de Check It, documentário estadunidense que mostra a história de uma gangue de adolescentes gays e trans naquele país

Levando em consideração o crescimento do fascismo, ou seja, do desejo de poder via a aniquilação da diferença, é razoável e recomendável que as pessoas pertencentes a comunidades historicamente discriminadas se organizem coletivamente para enfrentar violências. Me refiro ao fortalecimento de coletivos e associações de viados, de sapatões, de travas. Um fortalecimento não apenas institucional, mas também ético, estético, político: redes amplas de beeshas, de pretxs, de mulheres, nas quais as pessoas não apenas se empoderem, quer dizer, se sintam fortes para enfrentar o tranco da vida, mas também se mostrem como fortes diante daqueles que lhes querem tomar a felicidade e a existência. A imagem da bichinha solitária que anda pelos corredores das faculdades, das escolas fortalece o fascista em gestação e alimenta o fascista já adulto. Penso na criação de frentes amplas de professorxs pela diversidade, de intelectuais, de juristas, de policiais; na criação de grêmios estudantis tomados de sapatas, de travas, de gueis: LGBTs por todos os lados guetizando a vida e tornando-a vivível.

Participo de grupos de what’s de professores e professoras que não temem se mostrar racistas, misóginos e LGBTfóbicos. Gente que não se envergonha de agir com má-fé. Intencionalmente com má-fé. São pessoas que erram não por desconhecimento, mas porque desejam errar: falseiam a realidade, torcem os fatos, mentem, atacam, vilanizam o outro. Mesmo diante de argumentos sólidos, de evidências robustas, preferem se aliar ao engano. Infelizmente também já tive o desprazer de ter tido alunos assim. Há muito pouco tempo esse povo se escondia na bruma da covardia. Mas já não temem mostrar os seus rostos: destilam “opiniões” cujo propósito é reduzir a identidade das minorias a um vazio, a uma sensação de desesperança total, e, no extremo, destruir o corpo por meio da violência física. Contam com a leniência das leis. Mas não só: contam com o apoio de pessoas que pensam como eles em postos de poder, seja na delegacia que suspeita do estupro, da homofobia ou do racismo, seja o/a juíza que nega a alteração do sexo nos documentos de travestis e transexuais.

Pra esse povo, saibam vocês, a educação não resolve. Não há diálogo. Há, apenas, um ódio quente que se derrama sobre a vida. Por isso é que os sujeitos minoritários precisam se fortalecer. Reativar o gueto como um lugar não a serviço do capital, mas como instância de proteção e cuidado de si. Não se enganem: já passamos do tempo em que “tão-só” nos queriam heterossexuais, nos querem, agora, aniquilar. Há em curso hoje em nosso país uma política de extermínio de LGBTs. Ou alguém pensa que comentários como “órgão excretor não reproduz”, “morreu porque provocou”, “viado tem que apanhar”, “alguém precisa ensinar a esse viado a ser homem” etc. etc. etc tem por objetivo a convivência democrática com as diferenças? Ficam pra outros textos a discussão sobre os sentidos em torno à educação e sobre as ações que penso o Estado deveria tomar para garantir a proteção das minorias. A máxima “unidos somos fortes” nunca foi tão verdadeira como agora.

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