Carlos Henrique Lucas Lima

Nos estão matando. Matando não aos poucos, em doses homeopáticas, curtas, mas aos borbotões, aos milhares. Não é de hoje que digo que há em curso no Brasil uma verdadeira política de extermínio de LGBTs. Facadas, socos, lampadadas. Quando não tiros, sangue e ferida exposta. Morte certa. Caixão fechado pela gravidade do caso. Como diz o “decano” Luiz Mott: um verdadeiro “homocídio”. Ou como quero, LGBTcídio. São assassinatos sistemáticos de LGBTs. Mortes cruéis motivadas pelo gênero e pela sexualidade dissidente. Sobretudo de travestis e transexuais que, por estarem mais expostas, por terem suas diferenças mais visíveis, se aproximam mais da violência, flertam com a LGBTfobia, dançam com o perigo. Beijam a face do demônio.

Há pessoas que afirmam que ou não é possível provar que essas muitas mortes foram provocadas pela LGBTfobia ou que se deveram, as mortes, a dívidas de drogas, a programas malsucedidos. Pura enganação. Falseamento da verdade. Os crimes de ódio, como ficaram conhecidas as brutalidades contra minorias nos Estados Unidos – os “hate crimes”, são violências fatais motivadas pelo preconceito; é quando o criminoso escolhe sua vítima ou justifica seu ato criminoso pelo fato de a vítima pertencer a um grupo minoritário, como gays, negros, latinos, mulheres etc.

Sabrina Souza Salles, brutalmente assassinada na cidade de Luís Eduardo Magalhães, Bahia

Devido a sua extrema vulnerabilidade, as pessoas travestis e transexuais, que muitas vezes têm a prostituição como destino e não como opção, são assassinadas porque seus agressores sabem que suas mortes não serão lamentadas. Eles têm plena consciência de que aqueles corpos não serão reclamados pelas famílias; sabem que o Estado não irá se importar. Esses criminosos possuem a certeza total de que seus terríveis atos serão justificados pela LGBTfobia da sociedade, a qual culpabiliza a vítima, retirando das costas do assassino o peso da morte, a culpa do tiro ou da faca que corta violentamente a carne. Expondo o sangue e a hipocrisia social.

Podem, sim, os assassinatos terem sido motivados por dívidas de drogas. Ou por motivos “passionais”. Mas os assassinos sabem que seus atos serão senão perdoados pelo menos justificados pelo preconceito contra LGBTs. Contra aquelas pessoas que não são pessoas. Que “mereceram o que tiveram”. Que “estavam no lugar errado na hora errada”. Os assassinos compreendem que seus atos são perdoados por juízes e juízas alinhadas com certo pensamento evangélico fundamentalista. Sabem que o sangue que derramaram não importa e nem importará a nada e ninguém. Sempre haverá um jornal ou site a dizer que “o travesti mereceu” o que teve.

Hoje [24 de julho] pela manhã, na cidade de Luis Eduardo Magalhães (LEM), no Oeste da Bahia, o corpo da travesti Sabrina Souza Salles foi encontrado com graves lesões no rosto e na cabeça. Sabrina, muito querida pela comunidade LGBT do Oeste, sobretudo porque dançava nas quadrilhas juninas da Região, foi rotulada pela imprensa marrom como mais “um travesti morto”.

Recentemente, a Região Oeste inteira chorou a triste morte do estudante da Universidade Federal do Oeste da Bahia (UFOB) Carlson Calmon, que foi morto a tiros por um “amigo” em uma sessão de roleta russa. Na ocasião, professores e estudantes da UFOB organizaram um protesto, uma “marcha do branco”, pedindo paz, clamando por políticas públicas (acreditava-se inicialmente que havia ocorrido um latrocínio). Professores respeitados na cidade, ocupantes de cargos públicos, se solidarizaram com o caso e endossaram o protesto.

Ao invés de assessorarem o Estado na confecção de políticas públicas para o enfrentamento da violência, esses docentes preferiram conclamar uma marcha de paz. Eximiram-se, esses servidores do Estado, de pensarem políticas para enfrentar a violência. Livraram-se de se responsabilizar pelo caos. Depositaram suas frustações ou incapacidades intelectuais em uma marcha.  Eis no que se resumem, no presente, a Universidade pública e seus “intelectuais”: em sujeitos que conclamam marchas!

O fato é que Sabrina está morta. E morta com ela estão as alegrias e esperanças de uma vida plena. Mais uma LGBT é brutalmente assassinada. Mais um número. Quem marchará por nós? Quem se vestirá de branco e empunhará uma bandeira por uma travesti? Os professores da UFOB é que não.


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Carlos Henrique Lucas Lima Talvez possa soar estranho para algumas pessoas um professor afirmar que “a educação não resolva tudo”....

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