Carlos Henrique Lucas Lima

Vende-se uma franquia Bolsonaro. Dos interessados não se exige muito, apenas o que segue: que saibam falsear a verdade, que se associem aos mais arraigados preconceitos da sociedade e que não deem a mínima à legislação de direitos humanos. Como se vê, o investimento é pequeno diante do enorme e certo retorno: em pouco tempo, você, possível interessado, conquistará uma legião de fãs no Facebook, no Twitter e, se ralar um pouquinho, até poderá se arriscar como representante do povo em uma das milhares de câmaras de vereadores espalhadas pelo Brasil. E arriscar é modo de falar, pois não quero que pareça que o negócio oferece risco. Na realidade, há, sim, um “risco”: a resistência de feministas, gays, pretos, gente de santo, defensores de vagabundos e outros inimigos da ordem e do progresso. Se bem que, ultimamente, essa gente anda bem calada. Vai ver estejam com medo. Tomara. Interessados entrar em contato pelo inbox. Saudações!

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Talvez em momentos outros da recente história da democracia brasileira, o fictício anúncio que oferece uma franquia Bolsonaro fosse um absurdo. Um delírio talvez de uma pessoa, presumivelmente “esquerdista”, e diletante. Talvez. Contudo, e infelizmente, proliferam em nosso país pequenos bolsonaros e malafaias mirins, dentre tantas outras possíveis franquias, que, tal como seu original, o Bolsonaro e o Malafaia real, se apresentam como defensores de uma causa senão inexistente, pelo menos forçosamente inventada pela má-fé e pelo desejo de poder: a brancofobia, a heterofobia, o ataque à família, a cristofobia e outros aliens e unicórnios.

Tenho observado que as muitas franquias Bolsonaro já instaladas e em processo de instalação possuem, no mais das vezes, lideranças vazias: são como que recipientes de um discurso pronto, vindo de cima, ou seja, da Matriz. Na cidade em que moro, Barreiras, no Oeste da Bahia, há uma ou duas dessas franquias. Dia desses passei por uma delas e percebi que a arquitetura de sua sede, as cores de sua publicidade, as frases de efeito e máximas e, o mais importante, o estilo de seus consumidores, são idênticos aos da Matriz. Sugiro que estudiosos de negócios se debrucem sobre o fenômeno das franquias Bolsonaro. Seguramente coisas muito interessantes serão descobertas.

Como em um MacDonald’s, em que a padronização garante o sucesso absoluto, as franquias Bolsonaro não permitem que seus métodos e propósitos sejam questionados. Mesmo raros, há casos em que as lideranças das franquias desejam inovar, seja nos métodos seja nos produtos oferecidos, mas são rapidamente podadas em seus anseios. Vejamos um exemplo: em certa oportunidade, testemunhei um consumidor com aspiração de empresário-liderança de franquia propor que “a direita se apoderasse dos temas de gênero e sexualidade”, na opinião dessa pessoa temas “sequestrados” pela “esquerda marxista”. Imediatamente, choveram comentários enfurecidos acusando o militante de “esquerdista infiltrado”, “viado enrustido” e outras palavras e expressões que podem ser facilmente intuídas.

Ocorre que para ter sucesso, as franquias precisam seguir religiosamente as orientações da Matriz. Sem invenções. Sem pensamento. Essa é característica do sistema de franquias. Imaginem vocês uma filial do MacDonald’s que oferecesse um “MacJé” – um tipo de hambúrguer de acarajé, ou que, no lugar de coca-cola, comercializasse chimarrão! Penso até que uma dessas ideias já deve ter sido aventada e que, em algum lugar do mundo, as lojas do MacDonald’s flexibilizem seus cardápios. Mas sabemos que o que caracteriza o MacDonald’s é o hambúrguer-alface-queijo-molho especial-cebola-picles-e o pão com gergelim. E ponto.

As franquias Bolsonaro, da mesma forma, são previsíveis e, como se pode depreender do que afirmei anteriormente, podam a criatividade de suas lideranças. O que considero, por um lado, uma pena, como no caso do exemplo do menino que pensou ser possível conciliar certo pensamento de direita com pautas LGBT e feministas. Meu dedo chegou a coçar na ocasião e quase me meti na postagem comentando que, sim, as pautas de direitos sexuais e de gênero não são de propriedade exclusiva da dita esquerda. Não: ser de direita não significa ser racista, misógino e LGBTfóbico. Isso não é ser de direita. É ser burro.

Concordo com esse menino e defendo que, sim, a direita, se é que se pode falar em uma direita no sentido clássico no Brasil, deve se aproximar das pautas de direitos humanos. Isso é positivo posto que, por um lado, visibiliza tais temas e, por outro, nos obriga, a todos e todas nós, a desautomatizar a forma como convencionalmente pensamos esses temas. Nos insta a ir além. As pautas de direitos humanos não pertencem à esquerda: se é que pertencem a alguém, elas dizem respeito a todas as pessoas e, por esse motivo, bem-vinda seja a direita a contribuir nessa seara! Deixo para outra postagem exemplos de governos conservadores de direita que implementaram políticas de respeito às diversidades de gênero e sexualidade. Isso evidencia que a defesa do direito de existir de todos e todas não é coisa “de marxista esquerdista”, é, antes, um imperativo humano. Um dever de todos nós.

Mas as franquias Bolsonaro, com uma visão torta da realidade que nos cerca, não se interessam por oferecer possibilidades outras de experiência no mundo que não aquelas mediadas pela ignorância e pela violência. Como afirmei no anúncio, as características das franquias são: falsear a verdade, se associar aos mais arraigados preconceitos da sociedade e não dar a mínima à legislação de direitos humanos. Não quero me tornar cansativo, por isso deixo, também, a exploração de cada uma dessas características para outro texto. De qualquer forma, não será difícil ao leitor imaginar exemplos em cada um dos pontos. É mais fácil falsear a realidade, se associar a preconceitos e ignorar todo o acúmulo de legislação no campo dos direitos humanos que imaginar, desde uma perspectiva de direita, por mais plural que tal perspectiva possa ser, um mundo em que caibam as diferenças. E mais do que isso: um mundo em que as desigualdades sejam reconhecidas e combatidas, mesmo que de distintas maneiras.

Se você se interessou pela abertura de uma franquia, sugiro que abra uma loja do Mac, do Habbib’s ou do Burguer King. Pelo menos consumir hambúrguer não representa tanto mal quanto os produtos oferecidos pelas franquias Bolsonaro.

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