Carlos Henrique Lucas Lima

Há uma frase da pesquisadora australiana Raewyn Conell que diz mais ou menos o seguinte: construa sua agenda intelectual a partir de seu entorno social. Na opinião da acadêmica, todo o intelectual que se preze deve buscar seus temas e motivações na realidade que o circunda. Agindo dessa forma, o intelectual asseguraria, por um lado, o papel social da Universidade, e, por outro, o seu próprio, ao chamar para si a responsabilidade não de segurar os problemas do mundo em seus ombros, mas de, pelo menos, inserir-se nos problemas mundanos. Seria uma forma de a Universidade, e mais especificamente de xs acadêmicxs se meterem, de vez, nos problemas comuns das pessoas, naquilo que faz a vida ser vida, desde as coisas triviais e de fácil resolução até as complexas e que merecem mais de um olhar apressado.

Isso que disse até aqui é para introduzir o mesmo espanto quando escuto que a Universidade brasileira está “assombrada” com o crescimento do fundamentalismo religioso e do fascismo. Abundam nas redes notícias de eventos, seminários e outras
modalidades acadêmicas de discussão preocupadas em “entender” a ascensão do conservadorismo entre nós. Não que eu seja contrário à discussão desses temas. Absolutamente. Afinal, tem – ou deveria ter – a Universidade os melhores cérebros pensantes e as ferramentas, além da experiência, para superar problemas, para investigar inquietações. O que me perturba nessa questão é a posição de bicho assustado assumida nos últimos tempos pela Universidade. Isso, assim compreendo, é evidência de que, já há muito tempo, a Academia não está em sintonia com as preocupações da sociedade; que passou um tempo muito longo sem vê-la, e que, agora, ao olhar fundo em sua face evangélica conservadora e outras tantas identidades que povoam o tempo presente, se perturba. Já ali, nesse rosto, não reconhece a mesma sociedade que a admira(va) e sustenta (ainda!).

Nem mesmo a Capes, agência de fomento à pesquisa acadêmica, escapa da influência religiosa

Há excelentes pessoas pesquisadoras nesse exato momento quebrando a cabeça para “tentar” entender a bagunça na qual nos encontramos. Isso, mais do que necessário, é imperativo, dada a força do antipensamento entre nós. E antipensamento é uma forma bastante carinhosa para não dizer burrice. E mais do que isso: burrice e violência. Todas e todos sabemos que o fascismo carrega, em gérmen, a violência. Uma violência que prospera por diversos motivos, sobretudo pela frustração das pessoas com o Estado, o qual, há pouco tempo atrás, havia tomado para si grandes responsabilidades, como a promoção da saúde, da educação e, o mais importante nas crises em que vivemos, a segurança pública.

Me incomoda muito que a Universidade se espante com o sombrio cenário no qual nos encontramos. Penso que falhamos como Universidade, como lugar de produção de pensamento crítico, de análise detalhada da vida mesma. Falhamos em deixar a vida nua. Falhamos, também, ao não aproximarmos nossas pautas às preocupações ordinárias da população brasileira. Entendo que isso tudo está na origem do imbróglio todo que nos envolve. Vê-se, aqui, o mesmo argumento utilizado pela advocacia da Presidenta Afastada Dilma Roussef: mas se nos tivessem alertado não teríamos editado os decretos de suplementação! É isso: fomos pegos em desaviso. Surpreendidos. E isso ou revela nossa  ignorância (no sentido de desconhecimento ou falta de interesse) ou nosso distanciamento, como dizia Nelson Rodrigues, da vida tal como ela é.

Estamos assustados! É projeto de pesquisa pra cá; evento pra lá. Um artigo aqui; um livro acolá. Produções e mais produções empenhadas em decifrar o “Graal” do conservadorismo. E a maior ironia nisso tudo é que este meu texto, escrito por um acadêmico, é, também, uma resposta aos fundamentalismos. Ou, pelo menos, um profundo interesse por descobrir suas causas. Uma tentativa de escrutiná-lo, de compreendê-lo. Seria desonesto dizer que, antes de todas e todos, sabia eu o que
estava por vir.

Entretanto, é preciso lembrar, e não faço isso por vanglória, mas por justiça histórica, que algumas pessoas intelectuais, como Leandro Colling e até mesmo eu, em alguns textos publicados aqui no Blogue e também em outras mídias, como Nostradamus de nosso tempo, já indicávamos o cheiro de podridão em nossa sociedade. Lembram do famigerado projeto “Escola sem Homofobia”, rejeitado pela então Presidenta da República, Dilma Roussef? Ou dos a(rri)tivistas Lgbt mais interessados em projetos pessoais de poder e em disputas internas com outras categorias identitárias que com a construção de
solidariedades subalternas?

Contudo, mesmo que se configure como uma resposta tardia não é, este texto, uma carta-lamúria. Também não pretende ele incutir medo em quem o lê. Ou ainda não quer que  seja entendido como um “eu avisei”. Busca ele tecer uma crítica a uma Universidade que há muito se distanciou das pessoas. Do povo comum. Uma Universidade que,  diferentemente do que defende Boaventura de Sousa Santos, não procurou estabelecer elos fortes e duradouros com a dita “comunidade externa”. Uma Universidade que não trabalhou com conceitos como o de “ecologia de saberes”, para usar a contribuição crítica desenvolvida pelo professor português. Estava ela, a Universidade, tão segura em seus métodos e teorias que sequer se dignou a pedir a opinião da sociedade sobre seus
interesses!

E agora, e para MEU espanto!, a Universidade está em choque! Está em polvorosa diante dos monstros malignos que crescem vigorosos diante de nós. Ora, é de espantar mesmo. Quem não conhece seu povo, quem não dialoga com as demandas da sociedade, se  assustará, cedo ou tarde, com o que dela vier. E o que está vindo, lamentavelmente, não é nada bom.

As propaladas crises, econômica e política, e diria agora social, já que a sociedade mesma esta cindida, revelam um Brasil evangélico conservador, amante do enriquecimento fácil e de frouxos valores éticos. Revelam um país de fanáticos religiosos, que não se contentam
mais com os templos, mas pregam nas ruas, nas praças, no transporte público e, pasmem!, até mesmo na Universidade e nos corredores das agências de fomento à pesquisa!

Movimentos de suposta direita proliferam, tal qual praga medonha, nas instituições de ensino. Em sua maioria só ladram, pois lhes falta o estrado teórico, pra não dizer vontade de ler, para o debate. Mas o seu ladrar, diferentemente do que se diz, tem impedido que a caravana passe. Pelo menos têm impedido que ela passe incólume.

Eu ainda, entretanto, tenho esperança. Se há algo que certo pensamento de esquerda me ensinou foi ter esperança. E mais uma ironia: a esperança, ao que parece, se assemelha em muito à fé. Ao pensamento mágico que, em parte, explica o abismo no qual nos  encontramos. Mas minha esperança se fundamenta nas gerações de jovens universitários ingressados após a era Lula-Dilma nas universidades públicas brasileiras. Uma verdadeira “elite” pensante, no melhor sentido do termo, que se recusa a pactuar com o fascismo e com a burrice de um simulacro de extrema direita importado de alguns países do Norte Global. E esses jovens não precisam ser de “esquerda”, como penso mesmo que não o são de todo: apenas precisam opor-se ao estado de coisas por meio do pensamento crítico. O pensamento que recusa o senso comum e vai além.

Depois do espanto, e como disse Clarice Lispector, que nos levantemos como cavalo jovem. Assim espero.

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