heteroEssa foi a frase que chamou minha atenção na virada de ano 2016/17. Foi dita por um homem gay de uns 25 anos, mas endossada por um grupo de uns 5 ou 6, de mais idade. Pude compreender melhor a trajetória desses homens e como se relacionam com outros. Homens que desde cedo sofreram as agruras da homofobia. Segundo a mãe de um deles, seu esposo disse, ao constatar que o filho, ainda criança, era afeminado: “ou ele ou eu! ”. A mãe escolheu o filho e, desde então, tem sido muito próxima dele. O fato, no entanto, revela uma trajetória de violências, muitas das quais, pelo que pude perceber, os sujeitos sequer têm noção.

Nessas narrativas há muitas histórias de desilusões amorosas, algumas relembradas com risos ou piadas, isto é, uma forma de dar um novo sentido a tais sofrimentos. Histórias que evidenciam que ser gay, há tempos atrás, era muito mais difícil, muito embora a predileção por homens heterossexualizados não é uma exclusividade de homens mais maduros.

Essas vivências dividem as pessoas em: homens (heterossexualizados); viados (os gays) as sapatonas (lésbicas) e as mulheres (heterossexuais). Nessa concepção, os homens são disputados por mulheres e viados, talvez um dos motivos pelos quais há sempre falas misóginas e lesbofóbicas. Os homens heterossexuais formam o grupo mais valorizado.

Esses homens não se colocam como vítimas, ao contrário, há um certo gozo nas relações que estabelecem com esses ditos “muleques”, que relevam um outro marcador, a predileção por garotos mais jovens e, de certo modo, estereotipados como marginais, pois são jovens que, gostando ou não de homens, mantem relações em troca de dinheiro ou algum tipo de benefício, por alguns chamado de “agrado”. Se esse jovem não pede nada em troca, então não é um “autêntico muleque”.

Um desse sujeitos disse: “o muleque (com quem mantém uma relação) só falta me levar a alma, mas bicha tem que pagar mesmo, tem que sustentar – viado nasceu para sofrer! ”. Essa fala denota não apenas o lugar que a bicha ocupa na relação afetiva, mas um certo pensamento cristalizado de que gay precisa necessariamente pagar por afeto, seja com dinheiro ou sofrimento. Importante dizer que não era uma fala vitimista, pois havia um certo poder em pagar, conseguir, ter, sustentar etc.

Tais frases e atos relevam que a primeira grande violência que esses sujeitos sofreram foi, e ainda é, a heteronormatividade. A exigência social de que ser homem signifique ser viril ou até mesmo de que ter um pênis signifique ser homem. Há de fato uma crença na naturalidade do ser homem ou mulher e de que ser homem significa ser viril e macho.

A violência da heteronormatividade é tão rígida que vejo que muitos gays, que falam das normas de gênero e reclamam dos padrões de masculinidade, não aceitam gays afeminados como parceiros. Sob a justificava de estar subvertendo, ao se relacionar com homens heterossexuais, excluem os gays afeminados de relações afetivas e sexuais. Ou gays afeminados que também não desejam outros afeminados. Por se relacionar com outros gays, um amigo é chamado por esses homens de lésbica, ou seja, na visão deles, são duas mulheres se pegando! Até parece que ser lésbica é um problema.

Mas do que isso, quando esses homens rejeitam os afeminados, estão rejeitando a si mesmos, de certo modo, ainda que inconsciente, colocando-se no mesmo lugar que colocam “as gays”. As normas não apenas ditam quem deve ser desejado, mas também quem deve ser rejeitado ou até mesmo autorejeitado. São as violências simbólicas de nossa cultura, que impelem muitos meninos a odiar o que é socialmente considerado feminino, inclusive odiar a si mesmo.

Por essa e outras que nossos desejos jamais podem ser considerados como naturais, mas construídos a partir de posições hierárquicas. Não adianta estudarmos, problematizarmos a heteronormatividade, se não questionarmos não apenas o que desejamos, mas principalmente o que repelimos, como se isso não tivesse nenhuma relação com nossas subjetividades.

[1] Escrevi muleques, em vez de moleques, para se aproximar da pronuncia utilizada pelos gays.

[2] Uso o termo marginal, da mesma forma como foi dito pelo sujeito, mas compreendo que é um termo essencialista, que supõe existir um sujeito marginal, desconsiderando questões sociais e históricas e os usos ideológicos do termo.

Por Gilmaro Nogueira

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