Carlos Henrique Lucas Lima

Estou passando as férias acadêmicas na capital do México desde o dia 16 de junho. Nesses nove dias, além de muita tequila e mezcal, essas bebidas típicas desse acolhedor País, tenho conversado com muitas pessoas lgbt, ou como dizem por aqui, “lgbttti”, em um esforço para abarcar identidades que, de outra forma, seriam invisibilizadas. Além de conversas, tenho participado de atividades culturais no âmbito do Mês do Orgulho LGBTTTI, que se constitui de um mês inteirinho de festas, exposições, debates, mostras de cinema e outras ações por demais interessantes e, como discutirei a seguir, super politizadas. O cúmulo dessas atividades foi a realização da 39ª Marcha do Orgulho LGBTTTI da Cidade do México, que rolou dia 24 de junho. Quero apresentar a vocês algumas reflexões que fiz a partir da Marcha.

Monumento El Ángel de la Independencia em uma das cores da Bandeira LGBTTTI

Monumento El Ángel de la Independencia em uma das cores da Bandeira LGBTTTI

Começo pelos nomes, pelas palavras, minhas paixões: na Cidade do México não há uma “parada”, seja “gay” – que seria um horror, seja lgbt, mas sim uma “Marcha”. Quem me conhece de perto sabe que tenho uma atração pelo bélico, pela guerra. A guerra como mentalidade e a guerra como ação política. Considero que o diálogo tem um quê de burguês, algo de salvação: é um privilégio com o qual as beeshas, as sapatonas e sobretudo as trans não contam. Sim: o diálogo é um privilégio, ou o foi por muito tempo. Sentar-se à mesa do debate pressupõe, em primeiro lugar, ter um convite. Coisa essa que, infelizmente, nos dias atuais, as pessoas sexo-gênero dissidentes não possuem. Então nós forçamos a porta, violentamos as estruturas sociais igualmente violentas. Excludentes. A palavra “marcha”, assim, aponta para esse sentido, nos lembrando que ainda precisamos avançar, mesmo que seja um pouco de cada vez, mas sempre para frente.

E não é apenas uma marcha: é uma marcha cuja bandeira é o orgulho lgbttti. Um dia antes da Marcha, no dia 23 de junho, participei de uma atividade igualmente relevante, que foi o acendimento das luzes do Anjo da Independência, um monumento histórico da capital mexicana, com as cores da bandeira lgbttti. Foi um momento espetacular! Em meus trinta e dois anos de vida, completados no dia 25, nunca havia sentido tamanha emoção. Cheguei ao monumento um pouco antes de o dia escurecer e pude conversar com muitas pessoas que aguardavam ansiosamente o início do ato. Elas estavam ali “apenas” para acompanhar o acendimento do Anjo! Para mim, sem sombra de dúvida, essa cerimônia, de demarcação de espaços, gesto importantíssimo em uma guerra, foi tão relevante quanto a Marcha em si. Senti um orgulho enorme por pertencer àquela comunidade, àquele grupo de pessoas que celebravam e afirmavam a diferença como valor humano fundamental. Nesse momento no qual senti um orgulho imenso também entendi que o custo do orgulho é um estado permanente de guerra. A Marcha aconteceria no dia seguinte.

Na Marcha teve de tudo: a festa, a celebração da diferença, que é importante e, sim, precisa continuar, mas, além disso, muita política, aquela política em estado bruto, sem maquiagens, sem medo de parecer política: gritos e palavras de ordem se ouviam pelo Paseo de la Reforma, vozes de transexuais e de beeshas do interior; rostos de travestis idosas e viados a cavalo se misturavam harmônica mas, ao mesmo tempo, perturbadoramente, já que deslocam os modos como, de maneira habitual, se veem e, consequentemente, se classificam os corpos humanos. Beeshas não só pela Avenida principal da cidade e pela Zona Rosa, bairro lgbttti da capital, mas também pela cidade toda: no metrô, nos cafés, nos ônibus. Uma proliferação de corpas estranhas. Beeshas e mais beeshas. Bailando. Cantando. Chorando. Fazendo política.

Não estou afirmando, contudo, que a Marcha do Orgulho LGBTTTI da Cidade do México é perfeita. Absolutamente. Ela não é perfeita, mas foi efetiva. Explico: ela provocou – e segue provocando – danos substanciais nas normalidades. Todas elas: de gênero, de sexo, de capacidades corporais, de geração, de procedência etc. Ao olhar para o que chamei de política em estado bruto, escutava apenas o gemido da norma. Eu via o enfraquecimento de um adversário extremamente cruel e que não hesita em tirar as vidas das pessoas dissidentes. Aprendi com a Marcha mexicana que precisamos mais dessa política bruta, visível, sem reparos ou escamoteamentos: um política crua, mas que, ao mesmo tempo, também é festiva, é celebratória.

Ao final da Marcha, já no Zócalo, no Centro Histórico da cidade, a norma mostrou sua face mais cruenta: neonazistas entraram em conflito com grupos anarquistas que participavam do evento. Um semana antes da Marcha, também no Centro Histórico, presenciei o discurso de ódio de uma mulher evangélica que, aos gritos e com uma suposta autoridade divina, condenava as pessoas lgbttti a um horrível lugar (como se muitas de nós já lá não vivêssemos). Curiosamente, tanto os neonazistas quanto a sombria pregadora escolheram o mesmo lugar para suas ações. Talvez porque ambos tenham a plena consciência do caráter político da Marcha.

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