20170616_124256Para Jorge, Ramiro e Abrahan

 


 

 

Carlos Henrique Lucas Lima

Andei de mãos dadas essa semana. Andei de mãos dadas e abracei um rapaz em público essa semana. Penso que andar de mãos dadas com alguém que se quer bem deveria ser um direito, não um privilégio. Algo constitucional, sabem? Assim, gravado em letras douradas na Carta Magna: “é direito de todos e todas o exercício público do afeto, sem distinção de qualquer natureza”.

Essa semana, como dizia, andei de mãos dadas em público. Beijei em público também. Como se comesse figos ou bebesse uma caneca de cerveja gelada no verão, gulosamente beijei uns lábios belos em público. E enquanto beijava, pensei nos beijos e nos abraços e nos carinhos que não dei porque nem o beijo, nem o abraço e nem o andar de mãos dadas me são permitidos, a mim que a muitos olhos desejo e amo torto.

Enquanto andava de mãos dadas, sorri. Sorri e pensei que devem ser felizes as pessoas que podem beijar e abraçar e andar de mãos dadas em público. Porque o amor e o afeto são coisas públicas, que pedem para ser vistas. Quem ama no escuro até pode amar gostoso, mas só os que amam no claro podem dizer que a vida mesma foi o seu voyeur.

Pra não dizer que não falei o óbvio: amar sob as vistas de todos é um ato político. Porque demarca lugares, finca bandeiras. Estabelece possibilidades. É um ato político porque desafia a hetero e a cisnormatividade. A demonstração pública de afeto entre pessoas LGBTTT é uma reivindicação, um usucapião do espaço colonizado pelas normas. Mas para mim, pra muito além do ato político em si, que não desprezo, a demonstração de afeto em público entre pessoas LGBTTT ajuda a viver. E a viver bem. Faz feliz o amar em público.

Apenas em dois dos muitos lugares que conheci pude demonstrar afeto em público: em Buenos Aires, na Argentina, e aqui, na Cidade do México, de onde agora escrevo. Em todas as cidades brasileiras em que morei, a LGBTfobia espreitava, como um ladrão astuto, toda e qualquer possibilidade de emergência de afeto dissidente das normatividades. Por isso, entendo que a não demonstração de afeto em público por pessoas sexo-gênero dissidentes produz tristeza. Direi até mesmo infelicidade, já que a primeira é passageira, e a segunda, o cúmulo de um espírito abatido e amedrontado.

Expressar publicamente afeto tem sido prerregotiva, desde há muito, dos heterossexuais. Por isso que privilégio, como disse anteriormente. E o privilégio, com o tempo, se banaliza. Se normaliza. Já nem é percebido como tal. Seu exercício, como o ir e vir, é direito sobre o qual não se reflete, gangorra tediosa, apenas se vai e se vem. Mas para nós, pessoas LGBTTT, é a alegria de andar pela primeira vez de bicicleta. É a mordida no quindim amarelinho exposto na padaria no final de uma tarde de chuva. Um pequeno, porém intenso, prazer.

Há muitos ativistas que centram seus esforços políticos no que poderíamos chamar macrodireitos. Direitos de cidadania. Como o direito de se casar, de adotar crianças, de confeccionar um documento. Isso está bem e assim deve continuar. Mas eu penso que os microdireitos, que entendo como direitos de humanidade, precisam, também, de ativistas. Quando um dos maiores literatos do Brasil, Antonio Candido, defendeu a literatura como direito humano muitos franziram o cenho. Direito, diziam esses, deveria ser a comida, a saúde, a moradia, a educação. E um longo etcétera. E não a literatura! Não entendiam que sem a fantasia, a imaginação, não haveria humanidade. Que a humanidade, mesmo que alimentada, sadia, educada e abrigada, sem a fabulação, não passaria de um amontoado de carne, “cadáver adiado que procria”.

Me faz feliz amar em público. Me faz sorrir andar de mãos dadas, beijar e abraçar enquanto caminho. E pelas longas avenidas da Cidade do México amei em público. Esses dias nessa cidade têm me trazido muitas alegrias. A alegria simples, porém poderosa, de amar em público. Como o título de um filme mexicano que assisti, sinto que hoje “Yo soy la felicidad de este mundo”. Sim, eu posso dizer que sou a felicidade do mundo inteiro e desejo que você, neste mês do Orgulho LGBTTT, também o seja. A felicidade do mundo inteiro.

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