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Reflexões natalinas de uma bicha pós-cristã em resistência | Cultura e Sexualidade
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Reflexões natalinas de uma bicha pós-cristã em resistência

Sandro Costa Correia*

Nessa transição entre o velho e o novo, nessa fronteira entre um passado recente e um futuro próximo, penso no lugar contemporâneo que ocupamos, de quem se quer descolonizar de estereótipos construídos exoticamente, de selvagem, erótico, herege, místico, pagão, irracional, desse lugar geopoliticamente ficcionado como terceiro mundista, tupiniquim, onde o vento faz a curva, o cu do mundo dos primitivos, canibais, prostitutas, mulatas e mestiços, de muitas riquezas naturais e misérias manufaturadas. Um lugar de explorações minerais, orgânicas, biológicas, carnais, subjugadas, adestradas, vilipendiadas, sugadas, quiçá até a última gota de água para saciar a sede voraz e a manutenção do status quo da elite branca, masculina, racional, religiosa e capitalista euro-ocidental.

Estamos nos penúltimos dias de um ano atípico, distópico, no qual as utopias dos séculos recentes, de igualdade, fraternidade, liberdade e humanidade, que tanto influenciaram a promoção e garantia dos direitos humanos para diversas populações, parecem ameaçadas de sucumbir diante do recrudescimento de autoritarismos, militarismos, etnocentrismos, racismos e sexismos. Apesar de toda luta, todo sangue, todo exílio, toda dor, toda arte, toda música, todo canto, todo desejo, tantas belas invenções humanas, tantas vacinas, coquetéis, tecnologias, pílulas, preservativos, produtos orgânicos e artificiais, parece que não aprendemos o suficiente em relação ao respeito, ao reconhecimento e à valorização da diversidade humana.

Apesar de toda Inquisição, holocausto, escravização, antissemitismos, Cruzada, Vietnã, África, Cabula, Maré, Rocinha, Carandiru, AI5, ainda há quem duvide da legitimidade e universalidade dos direitos humanos. Será que nada implodirá as cristalizações fixas de raças, classes, sexos, desejos, jeitos, formas, cores e modos de ser? Até quando o outro será abjeto ou objeto de exploração dos nossos interesses e a indiferença ou diferença serão apenas pretextos para afirmação dos mais brancos, mais ricos, mais belos, mais bélicos? Quando será possível reconhecermos a alteridade nas relações e admitirmos nossa mútua constituição em coletividade sem hierarquização das diferenças? Quando alcançaremos o reconhecimento e a valorização do outro como a nós mesmos?

Em tempos de Natal e renovação de ciclos, vale lembrar o movimento de contracultura iniciado por Jesus, que combatia o sistema autoritário e mercantilista dos governos e religiões. Impossível negar a sua fonte de inspiração para reconhecimento do valor humano do outro, dos pobres, dos ladrões, prostitutas, dissidentes, subversivos, leprosos. Impossível não reconhecê-lo como precursor dos direitos humanos. Que, como tantos outros guerreiros e militantes, teve o fim trágico sob a mão perversa de morte do Estado Soberano.

Direitos humanos como pré-requisito básico para a promoção de igualdade de oportunidades para letrados e não letrados, ricos e pobres, negros, brancos, indígenas, homens, mulheres, adultos, crianças, adolescentes, jovens, heterossexuais, homossexuais, bissexuais, travestis, transexuais, que vão desdobrar em conquistas nas mais diversas áreas: Consolidação das Leis Trabalhistas; Estatutos da igualdade Racial, do Idoso, da Criança e do Adolescente, e da Juventude; Leis do Divórcio, Maria da Penha e Contra o Feminicídio; políticas públicas para acessibilidade, cotas raciais, transexuais, populações tradicionais; resoluções de nome social, união civil e adoção para casais homossexuais, dentre outras.

Como nos explica Foucault, o direito de fazer morrer e deixar viver, ou de fazer viver e deixar morrer, sempre esteve nas mãos do poder soberano do Estado, e continuamos sob a tradição de políticas que valorizam mais a vida de uns em detrimento de outros. Nesse final de ano, período em que se anuncia o nascimento do “Salvador”, pergunto-me o que deixaremos viver desse passado recente e o que faremos morrer no futuro próximo. A impressão é que um grande ciclo se finda com muito trabalho e luta realizada, mas com um imenso e obscuro desastre sobre conquistas absolutamente importantes. Penso como em um mesmo ano coexistiram tantas forças contraditórias, polarizando ao mesmo tempo comemorações por conquistas sócio-históricas e a emergência de velhos extremismos destruidores de vida.

Penso nos 70 anos da declaração dos direitos humanos, conquistada com tanta luta por prisioneiros políticos, exilados, por tantas minorias perseguidas, marginalizadas, excluídas, mulheres, crianças, adolescentes, jovens, gays, lésbicas, travestis, transexuais, transgêneros, índios, negros e negras, proletários, pobres. Mas que, como dizia Cazuza, são mesmo é maioria. Maioria em quantidade mesmo e em qualidade pela resistência, persistência, perseverança, resiliência, pela criação de vidas solitárias e comunitárias para existência, desenvolvimento, realização e gozo.

Por outro lado, me impacta o recrudescimento de uma direita ultraconservadora, com todas as suas manifestações de essencialismos, etnocentrismos e violências sobre todos aqueles que de algum modo se afastam de sua régua hegemônica branca, religiosa, masculina, heterossexual, capitalista e classista.

Nesse sentido, pergunto-me que estado de direitos estamos redesenhando aqui nesse cu do mundo terceiro mundista, com a designação do poder soberano a um presidente eleito que promoveu uma estandardização midiática da misoginia, homofobia, racismo, classismo, que prega abertamente a subjugação das mulheres, dos direitos humanos, e a supervalorização da ordem autoritária da disciplina militar e punitiva. Para o tal, as mulheres são “vagabundas”, suas “filhas” são resultado da “fraquejada” espermatozóidica masculina e, quando trabalhadoras, “devem ganhar menos que os homens” pelas mesmas atividades laborais; “direitos humanos são esterco da vagabundagem”; “é melhor ter filho morto que gay”; “policiais que matam devem ser condecorados e não punidos”; “ou temos direitos ou temos trabalho”. Discursos como esses realmente revelam grande equívoco sobre o seu papel enquanto chefe de Estado, que deveria promover o bem-comum, mas que avilta impunemente a cidadania de diversas populações e promove a violência.

Nesse sentido, percebo como a análise de Foucault sobre o poder disciplinador e a biopolítica do poder são bem oportunos para problematizarmos o estado de direitos brasileiro nesse momento, para compreender quem os governantes farão viver ou deixarão morrer nos próximos quatro anos. É certo que, para esse falso messias, mulheres, trabalhadores, índios, negros, pobres, gays, lésbicas, trans, são alvos preferenciais do corredor da morte da necropolítica brasileira.

Mais uma vez é sempre bom lembrar quem foi Jesus Cristo. Um subversivo, dissidente, questionador das normas vigentes de disciplinamento, controle e exploração das populações mais pobres para a manutenção dos privilégios das elites religiosas e dinásticas. Assim questionou os autoritarismos e a mercantilização da igreja, a tirania dos governantes, a hereditariedade sucessória de seus poderes, a subjugação das mulheres, a exclusão e abandono dos leprosos, a condenação das adúlteras, o apedrejamento das prostitutas, o abandono dos bastardos. Do nascimento à morte de Cristo se evidencia o poder de vida e morte exercido pelo Estado sobre os indivíduos dissidentes. As subversões de Cristo, a sua punição, o seu suplício público, a sua morte como criminoso perigoso, em estacas, a contestação dos dogmatismos religiosos de virtudes, purezas, a convivência com bandidos, pagãos, prostitutas, estigmatizadas como promíscuas e mundanas, como dizem ter sido Madalena, que, entretanto, mais se aproxima do perfil de mulheres revolucionárias, por ter sido precursora da ocupação feminina dos espaços públicos, subversão dos desígnios familiares ao feminino e convivência entre os homens.

Imagino esse filho de Deus, essa criança, sua adolescência entre esses tiranos, imagino a dor de sua mãe Maria, imagino a dor de seu padrasto José, homem e mulher comuns aos olhos de seus contemporâneos, ainda que a Santíssima Trindade os tenha revelado. Será que aos olhos humanos não eram mais que uma mãe adúltera, um marido corno e um filho bastardo? Adoro pensar com a laicidade objetiva racional sobre essa família que tanto me inspira. Sei qual a dor de ter uma mãe divorciada numa sociedade machista, hipócrita, perversa e violenta ao final de uma ditadura militar em meados dos anos oitenta – “Mama África/A minha mãe/ É mãe solteira/ E tem que/ Fazer mamadeira/ Todo dia/ Além de trabalhar/ Como empacotadeira/ Nas Casas Bahia…” – Duplas, triplas, múltiplas jornadas que as feministas, agora chamadas pelos conservadores como portadoras de uma “ideologia de gênero”, denunciam até hoje e reivindicam acesso a creches, trabalho e equidade salarial.

São essas lutas que tantos estão pintando como ameaça à família. Mas à qual família? A família que encobre estupradores, abusadores de crianças, pedófilos, homofóbicos, racistas? Nesse caso, sim. O feminismo consiste numa ameaça às famílias que hierarquizam afetos pela cor, pelo sexo, pela idade, dando mais a quem consideram mais virtuosos, mais puros, mais brancos, mais dóceis, mais subservientes, famílias omissas contra a violência doméstica justificada pelo “em briga privada não se mete a colher”. Lutas que tiraram as mulheres dos armários, das cozinhas, dos tanques, da beira do fogão, da servidão involuntária na cama, do destino compulsório reprodutivo, mulheres que lutam para estudar, para trabalhar, para ocupar o espaço público antes destinado exclusivamente aos homens, mulheres que reivindicam o direito ao prazer, ao gozo, ao orgasmo, a escolha de seu tempo certo para ser mãe, o uso de métodos contraceptivos, que assumem a alternativa corajosa, solitária e livre do aborto necessário, mulheres que disseram sim à vida e venceram barreias morais e conservadores em relação ao divórcio, à viuvez, que foram mães jovens e solteiras, mulheres que não se abstiveram em nenhum momento das suas triplas ou múltiplas jornadas, ainda que não fossem remuneradas por muitas delas, ou injustamente remuneradas pelo trabalho formal ou informal. Lutas que sempre reivindicaram o direito ao próprio corpo, ao gozo, ao prazer, às suas escolhas, ao livre arbítrio, a interdição do que lhe seria opressão e violência, os enfrentamentos de assédios em casa, no trabalho, na comunidade na rua. Mulheres que ainda reivindicam proteção, respeito, afeto, reconhecimento, mulheres de todas as idades, orientações e cores, incansáveis em relação ao cuidado, à solidariedade, à sororidade, cumplicidade, ao ombro amigo, a escuta educadora, afetiva e racional.

Ah, Natal! Ah, Ano Novo! Como acreditar ainda que somos todos filhos de Deus, em meio a tantos fascistas, misóginos, racistas, homofóbicos, transfóbicos? Como acreditar que somos todos irmãos em Cristo, como renovar nossas esperanças em contextos emergentes de violência, desigualdade, injustiça, fome e dor? Como “amar ao pai acima de todas as coisas” e o “outro como a si mesmo”? Como não ver em cada rosto um inimigo diante das guerras mais cotidianas para a manutenção de soberania, riqueza e poder que nos ensinaram? Como desarmar as atitudes e renovar a fé, a esperança e fazer resistir as nossas utopias de igualdade, de liberdade, de fraternidade, de solidariedade em tempos tão distópicos? Como continuar nos fortalecendo para reivindicar outros lugares mais dignos de se viver em coletividade e individualmente?

Como acreditar em ordem e progresso com a barbárie reinando, com a defesa desse atual governante de condecoração para policiais e milícias genocidas? Como acreditar em justiça com traficantes de colarinho branco financiando helicópteros para o translado de toneladas de cocaína, impunimente livres e fartos de vida, quando, nas fronteiras das bocas de fumo, evidenciamos o extermínio da juventude negra e pobre? Como acreditar que a redução da maioridade penal será a solução para a violência urbana e rural quando quem é “profissional do crime” está no mais poderoso cargo público do país? Como ter fé com o nome de Deus sendo utilizado tanto em vão pelos Joãos ninguém, em nome do domínio patriarcal, do ódio, da vingança, da perseguição? Como bancar outra história diante da vitória da bancada da bala e da bíblia?

Ai, nosso senhor! Nossa senhora! Bendito seja o suco que vem do vosso ventre, Jesus! Bendito seja o sumo de sua fruta, goiaba, umbu ou maçã… Que a sua presença seja a cereja do bolo de nossas manifestações mais amorosas e reivindicações mais revolucionárias! Bendita seja a força mais real, transcendental e transformadora! Pois tudo que aprendi contigo foi amor e luta, as dores foram impostas apenas por outros homens. Jesus, meu eterno amor e ídolo poligâmico!! Pois antes e depois de ti fui e sou de tantos outros homens, mulheres e menines, com semelhantes intensidades reveladoras e gozosas!! Buda, Gandhi, Oxalá, Oxóssi, Oxumaré, Ogum, Nanã, Oxum, Iemanjá, Ibejis, Rei do Congo, Obaluaê, Omolu, Oyá, Exu, Xangô!! Glória! Amém! Axé!

E como o amor se manifesta de várias formas, meu primeiro beijo gay não podia deixar de ser para um rapaz a tua imagem e semelhança, pelo menos pela sua representação ficcional eurocentrada, com esses olhinhos verdes ou azuis brilhantes que variam de cor conforme a intensidade do sol ou da lua, cabelos longos e castanhos, e a primeira paixão a gente nunca esquece. Como não esqueço da minha primeira paixão hetero negra-mestiça-italiana do bairro da Saúde e da minha Cabocla de Pernambués. Meus devires afetuosos, amorosos e eróticos por meninos, menines e meninas.

Em tempos de Natal, ainda que saibamos que essa data seja uma construção ficcional a serviço bem conhecido do consumo capitalista, em estreita relação entre igreja, Estado e mercado, é importante lembrar que também representa uma pauta civilizatória para expressão de alguma humanidade que enterneça as brutalidades das relações. É sempre bom lembrar que o Deus é “teu”, ainda que seja nosso, e fé não se impõe, é libre arbítrio, é escolha de cada um, é liberdade de crença e expressão. Então, “Ama ao teu próximo como a ti mesmo”, pois como você e eu, ele também é imagem e semelhança de Deus. Lembra nessa hora das ovelhas negras da sua família e reafirme esse espaço como o lugar de afeto e proteção. Lembra dos filhos desobedientes, das meninas más, dos garotos efeminados, dos gays, das sapatas, dos maconheiros, usuários de drogas, lembra também que somos bem parecidos: buscamos a vida, a liberdade, a satisfação e não a morte. Então não os insulte, não marginalize, não os expulse de casa, de suas vidas como leprosos que devem ser exterminados da sociedade, pois a patologia está na intolerância, na discriminação, no abandono e na violência.

Ah, menino Jesus! Que teu renascimento traga vida, saúde, força e esperança não apenas aos iguais a ti, com pele branca, mas para tantos outros menines de luz de pele marrom, preta, vermelha, ruiva, amarela, mesclada, parda, morena, negra, mulata, albina, translúcida. Para aqueles de cabelo pixaim, crespos, encaracolados, Bombril e Black Power. Para menines de ambos os sexos, para menines de dois sexos, intersexuais, que a sociedade, a família e a medicina reconheçam seus direitos ao desenvolvimento. Ah, Jesus de todas as idades, que a sua sororidade com as mulheres seja alimento para a disseminação dos feminismos entre todos aqueles que crêem na vida, pelo menos.

Ah, ano novo, que sejamos dignos de amor, de paixão e de gozo, pois de intolerância, machismos, feminicídios, racismos, genocídios, militarismos, autoritarismos já estamos cheios. De vez em quando até sorrio da mediocridade deles, para não matar. Mas não sei até quando estarei isento deste ato tão amplamente incentivado pela bancada da bala e da bíblia, haja vista a proposta de revisão do Estatuto do Desarmamento e sua flexibilização de porte de arma para qualquer cidadão pelo Congresso brasileiro. Será que chegaremos a responder na mesma linguagem de morte e violência usada historicamente por eles? Será que outras manchetes serão naturalizadas em breve: “Um fascista morto por dia no Brasil”, “15 homofóbicos assassinados por mês”, “200 estupradores castrados por ano”; “5 misóginos mortos por semana”, “365 racistas assassinados por ano”, “Transfóbicos linchados em praça pública com requintes de crueldade”, “1270 agressões a heterossexistas registradas por ano no Disque Denúncia Direitos Humanos”?

Livrai-nos, Nosso Senhor, Nossa Senhora, da necessidade de pão-pão, queijo-queijo! A não ser que seja por legítima defesa, por invasão de propriedade ou por violação do direito à intimidade e liberdade. Afinal, “tudo me é lícito, mas nem tudo me convém”.

Mas não vamos antecipar os atos desse espetáculo de civilização e barbárie. Pois agora é tempo de ficcionar o nascimento do Salvador, do ano e da nação. É tempo de fruir um verão mundano, fogoso e carnal que culmina no carnaval, e depois purificarmos a alma na quarta de cinzas. E logo mais morrer na sexta-feira da paixão e renascer no domingo de Páscoa, entre ovos de chocolate ao leite de galinhas e putões. E é a vida que segue, a fila que anda, a luta que continua, o “tempo não para”, meus heróis morreram de overdose, de paixão, de amor, de fome e solidão, de perseguição. “Meus inimigos estão no poder”. “Ideologia, eu quero uma pra viver”. Ideologia de gênero queer, cristã, budista, espírita, macumbeira, ecumênica, socialista, negra, neguinha, afrodescendente, mulata, mestiça, híbrida, homossexual, poligâmica, pluricultural, multicultural, transcultural. Ideologias, eu quero algumas para viver!!!

Então é tempo de manter o bom combate. Manter a fé. Cumprir as metas e os objetivos. Também é tempo de comemorar e relembrar as conquistas desse ano contraditório: escola sem partido caiu, a escola sempre será o lugar de disciplinamento, reivindicação, subversão e liberdade; o MEC autorizou o uso do nome social nas escolas da educação básica, instrumento fundamental para enfrentar a discriminação por identidade de gênero e facilitar o acesso e permanência de estudantes travestis e transexuais à educação formal; o Supremo Tribunal Federal autorizou a retificação do registro civil de pessoas trans sem obrigatoriedade da cirurgia de redesignação sexual, sem laudos profissionais ou autorização judicial; a Organização Mundial da Saúde, na atualização do Código Internacional de Doenças (CID-11), tirou a transexualidade da categoria de transtorno mental, e passa a designar como “incongruência de gênero” a identidade trans. Ainda que existam possíveis eufemismos na nova categorização, ela marca a emergência de um novo paradigma na concepção e abordagem das políticas públicas de saúde pelo Estado brasileiro, fomentando uma nova leitura universal desta expressão da sexualidade, que certamente ajudará na diminuição do estigma e discriminação; o Senado liberou o cultivo da maconha para fins medicinais, o que representa um avanço na política de drogas no Brasil ao reconhecer seus benefícios na redução de danos em relação a doenças crônicas como o câncer, alívio de dores e usos substitutivos no tratamento da adicção de outras substâncias psicoativas mais destrutivas, como a cocaína e heroína; o Supremo Tribunal Federal, através da Audiência Pública da Ação de Descumprimento de Preceito Fundamental (ADPF 442), se reposicionou sobre a descriminalização do aborto até a décima segunda semana, sobre a interrupção voluntária da gravidez em âmbito nacional, no qual um dos principais argumentos significativos do debate foi a ênfase na garantia do direito ao aborto para o exercício pleno dos direitos sexuais e reprodutivos das mulheres lésbicas e bissexuais e de homens transexuais. A vida deve ser um direito, uma escolha, uma oportunidade, não imposição.

Nesse sentido, mesmo com sinais tenebrosos abalando nossas crenças nas instituições democráticas e conquistas de direitos no Brasil, nada disso me parece um anúncio de fim do mundo. Apesar de todas as tentativas de silenciamento, de perseguição, opressão, invisibilização de desejos, de existências e identidades, não abriremos mão de sermos subversivos quando a contestação for estratégia para afirmação de quem se é e de quem se quer ser. Mais vale a dica para não esmorecer: “Se fere minha existência, serei resistência!”.

*Bacharel em Comunicação e Artes, Especialista em Políticas Públicas e Socioeducação, Mestrando do Programa Multidisciplinar de Pós-graduação em Cultura e Sociedade e integrante do Núcleo de Pesquisa e Extensão em Culturas, Gêneros e Sexualidades (NuCuS), da UFBA.

gilmaronogueira

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  • Orgulho em ver tamanha lucidez e eloquencia. Que não só no Natal mas em todos os dias de nossas vidas sejamos mais tolerancia e menos preconceito. Texto perfeito!

  • Que lindeza, Samdro!
    Texto absurdamente necessário! Perfeito para fechar esse ano tão difícil e para esperançar 2019.
    Me emocionou.
    Parabéns!

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gilmaronogueira

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