A luta entre a festa popular e a quaresma durou 300 anos. Com a vitória da quaresma, Peter Burke descreveu como a longa reforma cultural, ocorrida de 1500 a 1800, foi responsável pela repressão de uma grande quantidade de manifestações e saberes ligados à cultura popular. O carnaval, como manifestação popular, era visto como ameaça ao pleno estabelecimento da modernidade com seu poder colonial, disciplinador, hierárquico e normatizador.

Apesar da higienização pela qual passa o carnaval, ele não deixa de continuar a esboçar uma ameaça ao projeto da modernidade, pois é o palco de dissidências, de corpos desobedientes, golden showers, desejos incontidos, afrouxamento das normas. O carnaval, com todas as suas contradições, seus componentes racistas e discriminatórios, induz a muitas emoções e epifanias. Tive uma epifania na Praça Castro Alves e percebi como o carnaval é um acontecimento que coloca todos os corpos em contato com a cidade. Observando o trio elétrico, pensei que aquela poderia ser uma das maiores invenções do mundo, “do mundo não, da Bahia!” (como minha amiga, a antropóloga Goli Guerreiro e eu nos divertimos parodiando Gilberto Gil colocando a Bahia como centralidade de pensamento). A criação da Fubica, em 1950, por Dodô e Osmar, a partir de um modelo antigo da Ford, ouso dizer, é o primeiro caso de inversão carrocrata lograda na cidade da Bahia e que substituiu o tradicional desfile dos automóveis da elite pela participação popular.

O Ford Bigode foi um marco da carrocracia com suas duas marchas e o conforto herdado das carruagens da era napoleônica, sendo um dos primeiros modelos produzidos em escala industrial: 5 milhões de unidades fabricadas entre 1927 e 1931. Transformado em instrumento colonial, desde então, o carro se transformou em um dispositivo que atravessa a tudo e a todos. O Brasil foi um dos primeiros e mais bem-sucedidos laboratórios da carrocracia, pois governar por aqui sempre foi sinônimo de construir estradas. Dodô e Osmar, ao criarem a Fubica, ressignificam e subvertem o uso do objeto mais bem-acabado da modernidade.

A Fubica é o anticarro. O carro velho, modelo 1929, anacrônico para os anos 50 sob o governo do príncipe da carrocracia Juscelino Kubitschek, descodifica o carro em sua função. Desde sua aparição na Praça da Piedade em direção à Praça Castro Alves, andando em marcha lenta, colocava o motorista em contato com todos, funcionando como um abre alas para os movimentos das multidões ocuparem as ruas. Em sua estreia, com o motor pegando fogo, foi empurrado pela própria gente da rua, a nau dos loucos, quebrando as divisões da cidade, evidenciando suas temporalidades submersas no espaço urbano, em camadas às vezes pouco visíveis a respeito de nossas subjetividades, gêneros, sexualidades, classe, raça e mobilidade.

O francês Henri Lefèbvre reformulou o paradigma socioespacial ao demonstrar que o espaço é responsável pela formação dos sujeitos, mas que os sujeitos também formam o espaço. A prática social seria o componente responsável pelas mudanças na sociedade e na própria cidade, e estaria indissociável do uso corpo. No cotidiano, sabemos que as ruas e becos do carnaval dão lugar a áreas restritas da cidade. O filósofo Paul Preciado, em sua etnografia zorra, mostra como a cidade pode ser mais ou menos acessível a depender de seu gênero e performatividade. Os estudos desses movimentos têm o poder de revelar a ordem social, as sociedades e suas épocas.

Era a Fubica e hoje é o trio elétrico quem conduz a multidão de caminhantes, cadeirantes que, nessa curta semana de festa, deslocam seus corpos pelas ruas da cidade. Um fluxo de calor, libido e energia que percorre as avenidas do Centro Antigo de Salvador, reativando sua importância. Os centros das cidades, exceto pelo setor comercial, estão quase sempre esvaziados pela especulação imobiliária e pelo depauperamento provocado pela carrocracia que privatiza e monopoliza o espaço público da rua. Durante o carnaval, contraditoriamente, o elemento ícone do carnaval baiano que teve início com um carro velho arrastado pelo povo e conduzindo a multidão, recupera muitas vezes os sentidos históricos e essenciais das cidades: local do convívio da diferença absoluta e da loucura.

Marcelo de Troi – Jornalista, mestre em Cultura e Sociedade, doutorando no Programa Multidisciplinar de Pós-Graduação em Cultura e Sociedade e pesquisador do NUCUS – Núcleo de Pesquisa e Extensão em Culturas, Gêneros e Sexualidades > troimarcelo@gmail.com

Referências

BURKE. Peter. A vitória da quaresma: a reforma da cultura popular. In:_____. Cultura popular na Idade moderna. São Paulo: Cia das Letras, 1989. pp. 231-265.

LEFEBVRE, Henri. O direito à cidade. São Paulo: Centauro, 2001.

PRECIADO, Paul. Cartografia Queer: o Flâneur Perverso, a Lésbica Topofóbica e a Puta Multicartográfica ou Como Fazer uma Cartografia ‘Zorra’ com Annie Sprinkle. E-revista Performatus, Inhumas, [S.l.], ano 5, n.17, jan. 2017. Disponível em: <https://performatus.net/traducoes/cartografias-queer/>. Acesso em: 21 jan. 2018.

TROI, Marcelo de. Carrocracia: fluxo, desejo e diferenciação na cidade. Revista Periodicus, Universidade Federal da Bahia, Salvador, vol. 1, n.8, p. 270-298, nov. 2017c – abr. 2018. Disponível em: <https://portalseer.ufba.br/index.php/revistaperiodicus/article/view/22764>. Acesso em: 29 mai. 2018.

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