Ano passado, um senhor muito simpático chamado George Lakoff, linguista, mandou essa: “Trump sabe que a imprensa tem um forte instinto em repercutir as bobajadas mais ultrajantes que ele diz”. Até o momento que, após várias repetições, aqueles termos se tornem permanentes e façam sentido. E assim surgiram as fake news, a Crooked Hillary, o Spygate.

A cobertura do declaratório já era uma merda, mas agora nos faz mais mal ainda.

Lakoff acredita que a linguagem pode dar forma a maneira como pensamos, portanto, palavras são armas.

Bolsonaro, com o tal do vídeo, usou um exemplo que muita gente considera condenável para desabonar uma festa inteira. Tanto no texto da Folha, quanto nas respostas e menções ao tuíte, o que mais vi foram pessoas falando que era necessário denunciar aquilo como conteúdo impróprio, o que, adivinha, corrobora a tese do mandatário de que, sim, o carnaval é uma festa imprópria. E, de quebra, é como se invalidássemos todo o carnaval, incluindo as inúmeras críticas políticas que ele recebeu, feitas nas fantasias, blocos, festas, que eram apropriadíssimas.

Na Folha, título e linha fina eram: “Bolsonaro compartilha vídeo de homem mexendo no ânus e sugere que cena é comum no Carnaval” / “Presidente tem sido criticado por usuários que entendem conteúdo como impróprio para as redes”

No Estadão foi assim: “Bolsonaro publica vídeo obsceno e o liga ao carnaval” / “Na postagem, na noite desta terça-feira, 5, presidente diz que ‘temos que expor a verdade para a população ter conhecimento e sempre tomar suas prioridades’; internautas afirmaram ter denunciado o post ao Twitter por conteúdo impróprio”

A aridez dos dois títulos, dando apenas a declaração de Bolsonaro, acaba de certa forma corroborando a tese dele. Não há nenhuma menção de que o presidente está sendo desonesto e folgado.

Mas então como isso deveria ser feito? Ou deveria ser feito?

Agora vamos voltar ao artigo do Lakoff. Ele faz algumas sugestões. A primeira é que jornalistas entendam que não podem tornar seus textos propaganda.

Segunda: “Estamos numa crise, certas regras não se aplicam em tempos de crise, especialmente a regra de que a imprensa deve repercutir cada palavra do presidente, quaisquer que elas sejam.”

Terceira: “Pare de noticiar tuítes e comece cada reportagem com o contexto do que importa no momento para a nossa democracia”.

Quarto: “Não espalhe mentiras, colocando as exatas palavras do presidente nos títulos”.

Acho que o Nexo foi o mais feliz em dar a situação, com um ensaio cujo título e linha fina são: “O tuíte de Bolsonaro e as transgressões do Carnaval” / “Vendo-se como alvo preferencial da irreverência popular, o presidente da República resolveu desqualificar de forma generalizada os blocos, pinçando um episódio particular como ‘prova’ de que tudo seria daquele jeito”

Enquanto Bolsonaro tuitava, os gastos da presidência com cartão corporativo aumentaram 16% (Estadão), o PT quer apresentar proposta de Haddad de reforma da Previdência (Folha), ex-juíza eleita pelo PSL em MT —a “Sérgio Moro de saias”— usou recursos ilícitos na campanha (Folha).

Política de verdade é isso, um negócio bastante chato na verdade, sem dedo no cu e golden shower.

 

Débora Sögur Hous é jornalista. Foi repórter assistente da Ombudsman da Folha de S.Paulo em 2018 e já colaborou para Gazeta do Povo, MTV/Abril e revista Piauí.

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