Por Marcelo de Troi

Nenhuma indústria teve tantas benesses dos governos, à esquerda e à direita, como a indústria automotiva. A bolsa empresário para a indústria dos carros em 2019 será de 7,2 bilhões de reais, é a chamada Rota 2030. O valor é metade do orçamento previsto para o Bolsa Família em 2019, programa que beneficia 13,8 milhões de famílias com uma merreca, mas que causa indignação em nossas elites. Hipocrisia a gente vê por aqui.

Hoje estima-se que circulem pelo país 50 milhões de carros. Esse objeto fantasmagórico poluidor é naturalizado em nossa cultura. O carro é um objeto colonial que atravessa todos os corpos. Depauperou cidades pelo globo, sendo que ninguém pretende, de fato, discutir as consequências dos 1 bilhão de carros criados nos últimos 100 anos e que despejam CO2 (dióxido de carbono), causa primeira do aquecimento global. Para muitos, o fato não passa de ficção.

Há quem consiga conviver tranquilamente com essa realidade, não nós, ciclistas, que saímos todos os dias de casa e sofremos com a hegemonia carrocrata, sabendo que nossa vida não vale nada na cidade, com motoristas que acreditam que nasceram donos do espaço público das ruas. E de fato são: vejam o quanto uma sinaleira da faixa de pedestre fica aberta para a passagem de todos os corpos, inclusive os senis que jamais atravessariam uma rua nos 10 segundos de sinal “verde”, sendo que os carros têm cinco minutos ou mais ininterruptos para sua passagem.

Tem sido tarefa dos ecofeminismos queer aproximar as instituições da sexualidade das instituições que degradam o ambiente. Tudo começou com um pensamento interseccional entre o hiv/aid$ (grafo assim a partir das reflexões de Ramon Fontes) e o desmatamento na Califórnia, conexão que a feminista Jan Zita Grover começou a fazer 1977. A “natureza” é a formação moderna do espaço natural e há muitas evidências de que a destruição do ambiente está diretamente ligada às instituições patriarcais e ao heterossexismo que têm moldado não apenas a aparência da natureza rural, mas também a da cidade. Esses estudos notam que nos lugares onde a justiça ambiental é falha, também ali há opressão de gênero e das diferenças.

Ano passado as mulheres sauditas adquiriram o direito de dirigir um carro. Enquanto imaginário forjado na masculinidade e elemento constitutivo da família nuclear heterossexista, o carro não deixa de representar todas as violências que envolvem seu uso desde a infância através dos brinquedos, como afirma a psicóloga Marta Regina Paulo da Silva, e que marcam as diferenças de gênero.

Não há planeta suficiente para o projeto da modernidade, alerta o cientista do clima Bruno Latour. Nessa direção, o uso do carro se coloca como um dos empecilhos para um equilíbrio termo ambiental que permita a vida na Terra. O carro é uma arma de fácil acesso e os 700 mil mortos de 1960-2000 no Brasil, vítimas de seu uso, não deixam de revelar o seu potencial macabro e necropolítico. O atual (des)governo que está aí tem criticado o que chama de “indústria da multa” e ordenou a suspensão de oito mil novos radares nas rodovias federais, o que deve se refletir no aumento de mortes nas rodovias, mantendo o Brasil na liderança de mortes desse tipo. Também foi anunciado que o governo aumentará o limite de pontos para a suspensão da carteira de habilitação, o que significa maior tolerância com os crimes e contravenções cometidas pelos motoristas.

Tenho me ocupado de pensar quem são os corpos dissidentes que resistem a hegemonia e os motivos que levam a isso. Avanço: quem pode, quem deve, quem quer e quem abrirá mão do transporte individual? A justificativa de que o uso dele acontece em razão da péssima qualidade do transporte público é uma axiomática que esconde a verdade inconveniente por trás da lógica rasteira: o transporte público não existe porque o incentivo e a economia giram em torno do transporte individual, custe ele o que custar.

Haverá tempo para retroceder diante dos desafios que aguardam a humanidade do futuro que vem em nossa direção? Haverá preparação suficiente para suportar as mudanças climáticas que se mostram cada vez mais certas diante do cinismo dos negacionistas que utilizam de malabarismos retóricos e de pesquisas não isentas, financiadas por quem tem interesse em manter a matriz energética apesar de tudo o que já sabemos sobre ela?

Concordo com a jovem ativista do clima Greta Thunberg: é muito estranho que nós todos não falemos disso diariamente, noite e dia, e que nenhuma de nossas lideranças políticas e governamentais falem sobre isso. Sintoma da época. Não há brecha para esperança quando todos sabem onde está o problema e estão imobilizados, catatônicos com a destruição das instituições nas quais a democracia e uma política do clima deveriam estar sendo forjadas e debatidas. O clima explica não apenas o projeto moderno construído nos últimos séculos, mas ele é determinante na discussão sobre desigualdade, racismo, violência e geopolítica nos dias de hoje, mas isso é tema para outra conversa.

Marcelo de Troi é jornalista, mestre e doutorando pelo Programa Multidisciplinar de Pós-graduação em Cultura e Sociedade, no Instituto de Humanidades, Artes e Ciências Professor Milton Santos, na Universidade Federal da Bahia, e integrante do Núcleo de Pesquisa e Extensão em Culturas, Gêneros e Sexualidades (NuCuS).
Contato: troimarcelo@gmail.com

Referências

LATOUR, Bruno. Politics in the New Climate Regime. Medford: Cambridge, 2018.

MBEMBE, Achilles. Necropolítica. Revista do ppgav/eba/ufrj, Arte & Ensaios, n.32, Rio de Janeiro, dezembro de 2016, p.122-151.

MORTIMER-SANDILANDS, Catriona. Paixões desnaturadas Notas para uma ecologia queer. Estudos Feministas, Florianópolis, 19 (1), janeiro-abril 2011.

TROI, Marcelo de. Carrocracia: fluxo, desejo e diferenciação na cidade. Revista Periodicus, Universidade Federal da Bahia, Salvador, vol. 1, n.8, p. 270-298, nov. 2017c – abr. 2018. Disponível em: <https://portalseer.ufba.br/index.php/revistaperiodicus/article/view/22764>. Acesso em: 10 abr. 2019.

URRY, John. The ‘system’ of automobility. Theory, Culture & Society, Vol. 21, n. 4-5, p. 25-39, 2004.

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