Por Djalma Thürler, bossanovista.

“Coisa mais linda” não é sobre o país da delicadeza perdida cantado pela bossa nova. Esqueçam os diminutivos de suas canções leves e descompromissadas, esqueçam o amor, o sorriso e a flor. É sobre cultura, menos sobre cultura musical – embora ela esteja lá –, mas sobre a cultura de violência contra as mulheres. E tem violência pra tudo que é lado, no ambiente de trabalho, em casa, vindo de outras mulheres, abuso sexual e psicológico e, também, feminicídio. Mas o lado B da Bossa Nova também é interseccional, porque também aborda o racismo, classe, gênero e sexualidade num dos diálogos mais contundentes da série entre Maria Luíza e Adélia, a empregada doméstica negra e analfabeta.

Diferente de empatia, que segundo Djamila Ribeiro, “não é um sentimento que pode te acometer um dia, outro não, mas sim uma construção intelectual que demanda esforço, disponibilidade para aprende e ouvir” (apud BERTH, p. 29), o que anularia a tensão social, preferimos pensar pelas palavras de Rolnik, o que acontece em “Coisa mais linda” é tranverberação, “que alude a reverberar, traslucir, disseminar” (ROLNIK, p. 117). Para explicar esse conceito, Rolnik recorre à Santa Teresa de Ávila, para quem, há seis etapas para se tornar Santa, e a sexta, é justamente a transverberação. Ela descreve sua experiência através de um sonho que ela teve: um anjo veio até ela e perfurou seu coração. Ela sentiu uma dor gigantesca em seu corpo, seu corpo queimava, mas ela dizia o tempo todo que essa dor não era apenas corporal, mas também espiritual. E aí, ela diz que Ele habitou totalmente o seu espírito. Se deixamos a linguagem católica de lado, tiramos a Igreja, Deus, etc., transcrevemos sua experiência em nossa língua a partir do que essa experiência traz: o conhecimento do corpo, nossa condição de vida.

coisa-mais-linda-netflix-0319-1400x800-3E assim, Rolnik diria que a ética de uma vida consiste precisamente em habitar cada vez mais nossa condição de vida, portanto, a tranverberação, nessa perspectiva, não seria um devir-sagrado, mas para cumprir o destino ético de uma vida, honrando-a. Honrar a vida é habitá-la da forma mais completa possível. Isso é a transverberação, para Rolnik, o “trans” refere-se à transversalidade, uma espécie de ressonância intensiva ou ressonância entre afetos, conceito que já fora desenvolvido no princípio dos anos 1960 por Félix Guattari e Gilles Deleuze.

Essa bússola ética do conhecimento do corpo (ROLNIK, 2018) atravessa as contradições individuais e coletivas de Malu (Maria Casadevall), Adélia (Patrícia Dejesus) Lígia (Fernanda Vasconcellos) e Thereza (Mell Lisboa) e traz para o centro das discussões a forma como as opressões econômica, racial e de gênero se materializavam simultaneamente em suas vidas e vai em direção ao que hoje se pensa por “empoderamento”, esse giro decolonial de superação de certas opressões, de emancipação possível de mulheres e, por extensão de outros sujeitos sociais oprimidos.

Ao falar sobre as questões do feminino e das diferenças sexuais, “Coisa mais linda” acena também para as masculinidades frágeis e provisórias que pululam nos sete episódios da série nos oferecendo um grande teatro de gênero, um gender role onde se destacam vários aspectos sociais adquiridos que forjam e ratificam a identificação binária do que pertence ao masculino e ao feminino, como profissão, postura, gestos, vestimentas, comportamento erótico, maneira de falar e tantos outros.

Mas não esperem de “Coisa mais linda” uma ode à lacração e à “fexação”. Sem “abalação” ou “tombamento” (sic), termos forjados dentro dos movimentos e das estéticas LGBTQI+ para a hiper-representação e o arrombamento das sutilezas. Os produtores da série entenderam que poderiam se aproximar das pautas identitárias com maior receptividade, com público mais amplo e criaram um documento importante, espécie de corpo-política do conhecimento para que todos possam entender a preocupante indiferença que os homens mostram em relação às violências que sistematicamente recaem sobre as mulheres.

BERTH, Joice. O que é empoderamento. Belo Horizonte: Letramento, 2018.
ROLNIK, Suely. Como hacermos un cuerpo?. In: GAGO, V., GUTIÉRREZ AGUILAR, R.; DRAPER, S.; DÍAZ, Mariana Menéndez; MONTANELLI, Mariana; ROLNIK, Suley. (Org) Cúal es tu lucha? Cúal  es tu huelga?. Dão Paulo: Hydra, 2008.

Djalma Thürler
Diretor, dramaturgo e professor na UFBA

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