Por Jana Viscardi,

Eu ontem assisti um vídeo que me emocionou. O nome? “Gorda”. Produzido por Luiza Junqueira, do canal Tá, Querida, o documentário dá voz a três mulheres gordas que relatam suas histórias com seus corpos, com o entorno, consigo mesmas e com o outro. Ou outros.

Em tempos em que o termo “empoderamento feminino” (também leia: Empoderamento feminino – podemos dirigir a nossa história) está tão em alta, um vídeo como o “Gorda” deve ser considerado de utilidade pública. Explico-me. Você sabe, eu sei. Só se fala em empoderamento feminino. Sua colega feminista, aquele canal no Youtube, o artigo no jornal e as propagandas das empresas. Até os homens estão falando. A moda pegou.

E como tudo nessa vida, há o lado bom e o lado ruim da moda. Um exemplo do aspecto positivo é a popularização de algo antes pouco conhecido ou usado. As pessoas se sentem mais confortáveis e confiantes em explorar aquela novidade, agora na boca do povo. O produto se torna conhecido e isso é maravilhoso. Já o lado negativo, na minha opinião, inclui o fato de que muitas pessoas acabam usando o ‘produto’ sem ter com ele qualquer afinidade ou nutrir por ele qualquer interesse. Já que é moda, vamos posar de bacanudos.

Você já deve ter se deparado com algum episódio desse tipo. A mana fala de empoderamento, mas acha que as mulheres magras são mais interessantes. Fica implícito na fala, que vem reforçada de um “vamos empoderar todas as mulheres”. Mas, no fundo, a mana está mesmo é emparedando a outra mana. Tem também a mana que fala que um tema já foi exaurido, discutido à exaustão, mas esquece de trazer o ponto de vista das mulheres negras, ou trans. Ou então o inverso. O diálogo e a discussão estão restritas a alguns grupos. E só. De novo, a fala central do empoderamento está lá. É preciso passear por ela para entender que, no fundo, as marcas do padrão, do estereótipo, do machismo e do preconceito estão presentes de alguma maneira.

E por que cargas d’água estou dizendo isso? Para mostrar que nem todo mundo deveria usar o termo? Pra dar aquela “elitizada” no conceito e deslegitimizar quem o emprega? Não. É para pedir a você que vá além da moda. Quando falar sobre empoderamento, busque entender o que ele representa e significa, verdadeiramente. Dia desses, num evento, ouvi uma moça branca perguntar para a palestrante negra o que ela tinha que fazer para empoderar a moça negra. Talvez pareça sutil, mas a moça branca não entendeu: quando ela diz que quer empoderar a moça negra é porque, de alguma maneira, ela se sente em um lugar distinto, aquele lugarzinho de poder. Evidente que não foi a intenção da moça minimizar o trabalho da palestrante negra, mas linguagem é linguagem, e o poder também está lá. Vamos lá: mesmo que você esteja em um lugar distinto, é preciso buscar fazer JUNTO, não dar uma forcinha.

E isso vale pra tudo: dizer que tem empatia com as mulheres gordas, mas, em seguida, mostrar no seu Snapchat que precisa trancar a boca porque não pode engordar de jeito nenhum mostra um desacordo entre seu discurso e sua ação. Evidente que não precisam ser todas gordas tampouco pedir para nascer de novo, dessa vez, negra (please, entenda as marcas da ironia). Ao invés disso, é preciso reconhecer o quanto eu propago discursos opressores para, então, evitá- los, discuti-los e desfazê-los. Não dá pra jogar contra, em especial nas sutilezas.

Este é apenas um dos caminhos para apoiar e viver o empoderamento feminino. São já barreiras demais vividas pelas mulheres. Não é preciso que reforcemos alguns discursos de opressão e padronização da figura feminina também dentro do espaço do empoderar. Sigamos juntas, manas, com o olhar atento e coração e mente abertos. Reconhecer falhas e promover reflexões sobre a própria postura e a postura do outro são marcas do nosso desenvolvimento. Reconheça os espaços de opressão, inclusive os que você habita. E ouça as outras manas. Ouça atentamente. Este é o primeiro passo.

Vejam como somos legais, é só clicar aí no play para ver o documentário:

 

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Jana Viscardi é doutora em Linguística pela UNICAMP e pela UniFreiburg, na Alemanha. Na linguagem, ela vê o caminho para o entendimento e o empoderamento. Em seu canal “Jana Viscardi”, no Youtube, ela discute e analisa essas formas de empoderamento através da linguagem. Seu mote é, e sempre foi, “Como nos comunicamos importa”.

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